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Cura da hepatite B? Com novo antiviral, ciência dá grande passo rumo à

Com novo antiviral, ciência dá grande passo rumo à eliminação do vírus Medicamento ovacionado em congresso internacional traz resultados promissores em estudos de fase 3

Cura da hepatite B? Com novo antiviral, ciência dá grande passo rumo à

Cura da hepatite B? Com novo antiviral, ciência dá grande passo rumo à eliminação do vírus Medicamento ovacionado em congresso internacional traz resultados promissores em estudos de fase 3 para a cura funcional da hepatite B crônica

Um novo medicamento despertou, pela primeira vez, uma esperança de cura para a hepatite B crônica, infecção que causa mais de um milhão de mortes ao ano no mundo e é uma das principais causa de câncer de fígado. Em estudos com mais de 1,8 mil participantes, cerca de 20% atingiram a chamada cura funcional, principal objetivo do tratamento hoje. A pesquisa foi apresentada nesta quinta, 28, no Congresso da Associação Europeia para o Estudo do Fígado (EASL, na sigla em inglês)* e simultaneamente publicada no The New England Journal of Medicine (NEJM).

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Os resultados, anunciados na sessão plenária – principal da conferência – foram celebrados pelos participantes como “espetaculares” e “um marco histórico na hepatologia”. O medicamento em questão é o bepirovirsen, ou “bepi“, um antiviral desenhado pela GSK espeficiamente para combater o vírus da hepatite B (HBV), com um mecanismo de ação diferente do das drogas atualmente disponíveis. Os estudos apresentados são de fase 3, a última antes da submissão do medicamento para aprovação das agências regulatórias.

Atenção: não se trata de uma eliminação completa do vírus, diferente do que afirmam algumas manchetes por aí. “ O HBV se incorpora no DNA humano e produz um outro tipo de DNA que fica no núcleo da célula, então não conseguimos extinguí-lo com as tecnologias que temos hoje”, afirma o hepatologista Mario Pessoa, vice-presidente da Sociedade Latino-Americana de Hepatologia.

O que a cura funcional significa, nesse caso, é que o indivíduo deixou de produzir a proteína que recobre a superfície do HBV – chamada de HBsAg, guarde esse nome. Mas não deixa de ser uma grande novidade. “É excelente, estávamos há alguns anos estacionados em dois medicamentos que são muito bons, mas que praticamente não conseguem zerar o HBsAg. Leia também: Seu DNA conta tudo? O que os testes genéticos realmente revelam

Eliminar essa proteína do organismo significa atingir o maior nível de resposta do indivíduo”, comenta Raymundo Paraná, hepatologista e professor da Universidade Federal da Bahia, presente no congresso. Junto à publicação do artigo, o NEJM divulgou um editorial onde considera o trabalho um “grande passo” rumo à cura da hepatite B. A seguir, entenda a relevância do achado e como funciona o fármaco. Por que é importante

As hepatites virais são um antigo problema de saúde pública por serem associadas a complicações potencialmente fatais no fígado, como o câncer de fígado e a cirrose. Há pouco mais de dez anos, foi anunciada a cura para a hepatite C, mas a resolução da hepatite B ainda é um desafio para a ciência. Mais de 250 milhões de pessoas convivem com o HBV no mundo, e duas mortes ligadas a ele são registradas por minuto.

Apesar de hoje ser evitável com vacina (aquela que os bebês recebem na maternidade), muitos adultos acima dos 30 anos se infectaram ainda crianças, antes do imunizante existir, e sequer sabem que possuem a doença. No Brasil, estima-se que hajam 1 milhão de portadores da versão crônica da infecção, geralmente adquirida na infância – quando adultos se infectam, pelo sexo ou pelo contato com sangue contaminado, tendem a se curar em mais de 90% dos casos. Hoje há tratamentos disponíveis para os casos crônicos, mas eles não zeram o risco de complicações e dificilmente promovem a chamada “cura funcional”, termo usado pelos médicos da área que indica que o vírus não pode ser mais transmitido e não causa mais doenças.

“ Nas últimas décadas, mais de 50 moléculas foram testadas com esse objetivo e nenhuma chegou à fase 3”, comenta Melanie Paff, vice-presidente e líder do desenvolvimento de medicamentos para hepatite B da GSK, desenvolvedora do medicamento. Um tratamento revolucionário como esse é bem-vindo, mas há gargalos mais importantes no enfrentamento. Mais de saude

O principal deles é o diagnóstico: dos cerca de 1 milhão de pessoas que provavelmente carregam o vírus no Brasil, somente 300 mil foram diagnosticados e menos de 50 mil fazem o tratamento adequado. “ Nosso grande problema não é ter medicamento, mas oferecer o tratamento a quem precisa”, destaca Paraná.

+ Como funciona o bepirovirsen Trata-se de um novo antiviral com mecanismo de ação triplo. Primeiro, ele se conecta a tipos de RNA (material genético que “traduz” ordens para que as células humanas infectadas trabalhem a favor do vírus) para impedir que o HBV faça suas cópias e produza a tal proteína HBsAg, que fica na superfície do vírus.

Essa proteína indica que “cascas vazias” ou “envelopes” do vírus estão circulando no organismo, e é considerada um marcador importante da infecção. “Ela mostra que a pessoa ainda transmite o vírus e ainda tem o risco de desenvolver câncer”, comenta Monica Gomes, infectologista do Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná (UFPR), que participou do estudo. Para se ter ideia, em quem faz o uso dos antivirais disponíveis, o risco de desenvolver câncer de fígado em 5 anos é de 6%. Leia também: Morar perto de árvores ajuda a proteger o coração, segundo estudo

“Se conseguimos negativar a HBsAg, essa probabilidade cai para 0,6%”, comenta Pessoa. Além de impedir a produção da HBsAg e a própria replicação do vírus, o “bepi”, como é chamado pelos cientistas, também atua estimulando o sistema imune a combater o vírus.

O remédio vem em forma de injeção e o tratamento dura seis meses. O que o estudo mostrou Mais de 1,8 mil participantes foram avaliados em dois estudos diferentes, todos fazendo uso da terapia antiviral mais popular hoje, divididos entre níveis de HBsAg no início do tratamento. Eles foram segmentados em grupos que receberiam o tratamento padrão mais o bepi ou um placebo.

Os voluntários tomaram o bepi e os remédios convencionais por seis meses, depois continuaram apenas com o tratamento padrão por um tempo e tiveram seus níveis de HBsAg medidos seis meses depois de deixarem de tomar todos os medicamentos (o novo e os antigos). Nos grupos que receberam o novo medicamento, a taxa de cura funcional foi de 19%, chegando a 26% entre quem já tinha níveis mais baixos de HBsAg. “E o surpreendente é que outros 30% dos participantes ficaram com níveis muito baixos de HsBAg, o que indica que provavelmente atingirão cura sozinhos nos próximos 5 anos”, comenta Paff.

Quando a injeção deve chegar ao Brasil Com o fim da fase 3, o bepirovirsen já foi submetido para a aprovação de diversas agências regulatórias ao redor do mundo, inclusive a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). A expectativa, segundo a GSK, é que seja aprovado no meio do ano que vem.

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