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Culpa por não ser saudável? O “salutarismo” explica essa sensação; conheça

O “salutarismo” explica essa sensação; conheça Conceito criado em 1980 explica como a sociedade responsabiliza somente o indivíduo por sua saúde, ignorando influências

Culpa por não ser saudável? O “salutarismo” explica essa sensação; conheça

Culpa por não ser saudável? O “salutarismo” explica essa sensação; conheça Conceito criado em 1980 explica como a sociedade responsabiliza somente o indivíduo por sua saúde, ignorando influências sociais e ambientais

Você já se sentiu culpado por não estar na sua “melhor versão”? Somos constantemente incentivados a acreditar que saúde, beleza e bem-estar são apenas uma questão de escolha e esforço pessoal. A mensagem é clara: se você não é magro, forte, feliz e cheio de vitalidade, é porque não se esforçou o suficiente.

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Mas será que a saúde depende apenas da força de vontade? Ou será que você também foi levado a acreditar nessa ideia? O conceito de healthism (ou salutarismo), proposto pelo sociólogo norte-americano Robert Crawford em 1980, descreve a tendência de transformar a saúde em uma responsabilidade moral individual.

Nessa visão, o comportamento pessoal é tratado como principal determinante da saúde, enquanto fatores sociais, econômicos e ambientais são frequentemente negligenciados. Crawford criticou essa perspectiva por culpabilizar o indivíduo e ignorar o contexto social e cultural em que as escolhas são feitas. A saúde não é determinada apenas por escolhas individuais. Leia também: Homem-Aranha nos games ganha destaque após novo desdobramento em fiquei um bom

Viver em um país em guerra, em condições de pobreza, em cidades com baixa acessibilidade, marcadas pela desigualdade social e pela insuficiência de políticas públicas, afeta diretamente as oportunidades de cuidado e bem-estar. Ignorar esses fatores e atribuir exclusivamente ao indivíduo a responsabilidade por sua saúde é desconsiderar a influência dos determinantes sociais que moldam a vida de milhões de pessoas. Essa culpabilização aparece nas entrelinhas, desde a consulta médica individual, até nas redes sociais em forma de ostentação, de vendas de cursos, dietas mirabolantes e nas figuras públicas

“ultra magras” e “ultra fortes”. Por trás disso, existe uma mensagem subliminar em tratar a “boa forma” física como um sinal de disciplina e superioridade. Não é à toa que estamos vivendo a era das tais “canetas emagrecedoras” e também um aumento exponencial de ansiedade e depressão.

As pessoas se sentem pressionadas a serem mais “saudáveis”, quero dizer, “magras” ou “pseudo saudáveis” para imitar, pertencer, serem aceitas e ficarem iguais a alguém que idolatram. + A lógica salutaris enxerga o sujeito doente como alguém que não se cuidou, por falta de vontade, informação ou preguiça, onde a doença, umas dobrinhas a mais e as rugas são vistas como uma falha individual, desconsiderando todas as questões sociais e estruturais do contexto do indivíduo.

Mas a verdade é que a maioria da população é sedentária por falta de oportunidade e inclusão. O indivíduo tem sua responsabilidade na equação, claro, mas ele faz parte de um sistema que não o favorece e ainda o culpa. Não podemos simplesmente pensar que quem adoece deve ser visto como alguém que “não se cuidou”. Mais de saude

Ainda assim, a nossa sociedade convive com uma pressão social para atingir um nível de saúde que eu costumo chamar de “esquisito”. É uma busca que se torna persecutória e ameaçadora— e não há nada de saudável nisso. É importante reconhecer que existem indicadores biomédicos e antropométricos que auxiliam na avaliação da saúde.

Baseados em evidências científicas, esses parâmetros definem faixas de referência associadas à redução de riscos e à melhor qualidade de vida. Eles desempenham um papel essencial na prevenção, no manejo e no tratamento de condições como diabetes, hipertensão, obesidade, dor crônica e câncer. No entanto, saúde não pode ser reduzida apenas a números, medidas ou resultados de exames. Leia também: kashima antlers x vissel kobe

O que muitos influenciadores de “saúde” promovem hoje é uma moralização dos hábitos saudáveis, transformando comportamentos relacionados à saúde em indicadores de valor pessoal e virtude. Essa narrativa frequentemente gera culpa, vergonha e sensação de fracasso em quem não consegue reproduzir os mesmos padrões. Como consequência, algumas pessoas passam a sacrificar sua saúde física, mental e social em busca de um corpo idealizado, recorrendo a procedimentos clandestinos, medicamentos de origem duvidosa ou outras práticas potencialmente perigosas.

Paradoxalmente, na tentativa de alcançar o modelo de saúde vendido nas redes sociais, acabam colocando a própria saúde em risco. “ Existe uma busca insana por legitimidade;

por pertencer no âmbito de ambientes que exigem produtividade e não oferecem nenhum acolhimento ou escuta”, diz o antropólogo Wagner Alves. Nesse cenário, cabe perguntar: o que de fato significa não ser “saudável” ou adoecer em um ambiente que espera do indivíduo que ele sempre suporte tudo, mesmo quando o corpo e a mente não aguentam mais? O que inclui ou exclui alguém de uma categoria saudável, do ponto de vista sociocultural?

*Mariana Schamas-Esposel é Bachelor of Science (bacharel em ciências) em Cinesiologia e Coordenadora do curso Dor e Movimento do Centro de Ensino do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HCFMUSP).

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