Facções criminosas e milícias financiam candidatos com dinheiro oriundo de tráfico e roubos. No Rio de Janeiro, 53 locais de votação foram alterados em 2024 para evitar coação física a eleitores.
Relatos de compra de votos multiplicam-se pelo Brasil em anos eleitorais. Investigadores alertam para um fenômeno novo: a infiltração direta do crime organizado no processo democrático.
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O que antes era uma prática de corrupção isolada, agora afeta a liberdade de escolha do cidadão e a própria segurança do pleito, com grupos como o PCC, Comando Vermelho e milícias financiando candidatos com dinheiro oriundo de tráfico e roubos.
“Esse fenômeno já acontecia e agora está saltando aos olhos”, diz Nathalia Mariel, procuradora da Procuradoria-Geral Eleitoral. “Ele afeta não só para fins de corrupção, a compra de votos em si, mas na escolha de candidatos, na possibilidade de as pessoas exercerem o seu direito de votar efetivamente de maneira livre.” Leia também: Fala de Alcolumbre sobre enviar PEC 6x1 para comissão especial não tem
Coação e mudança de locais de votação no Rio
Em territórios controlados pelo crime organizado, o eleitor que vende o voto transforma-se em refém.
No Rio de Janeiro, a gravidade da situação levou o Tribunal Regional Eleitoral (TRE-RJ) a tomar medidas drásticas: nas últimas eleições de 2024, o endereço de 53 locais de votação foi alterado para proteger eleitores de ameaças e coações.
Eleitores votam nas seções eleitorais da Rocinha, no Rio de Janeiro — Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Para 2026, o tribunal já identificou ao menos 20 zonas eleitorais que precisarão mudar de lugar para evitar a influência criminosa. Mais de politica
O desembargador Claudio de Mello Tavares, presidente do TRE-RJ, enfatiza que o sistema eletrônico de votação é seguro e o voto é secreto. Ainda assim, o crime foca em constranger fisicamente os eleitores.
"Já tivemos casos em que o traficante ou o candidato apoiado pela milícia estava adentrando no local de votação, ameaçando o eleitor", afirma o magistrado.
Casos como o do policial militar Michel Maia e do candidato Dinho Resenha, ambos condenados por corrupção eleitoral em Belford Roxo (RJ), ilustram essa conexão entre agentes do Estado, candidatos e o "poder paralelo". Leia também: Governo publica regra que permite manter o Bolsa Família durante análise do BPC
Arte - Diálogo do PM Michel Maia identificado em investigação sobre compra de votos. — Foto: Arte/GloboNews
Drogas em troca de votos em Santa Catarina
Arte - Celular apreendido do traficante Claudiomir da Silva detalhou a negociação para compra de voto. — Foto: Arte/GloboNews
A infiltração do crime nas eleições não se restringe aos grandes centros. No interior do Paraná e em Santa Catarina, as autoridades enfrentam desafios crescentes.
Em Timbé do Sul (SC), uma investigação de tráfico de drogas revelou um esquema de compra de votos utilizando cocaína como pagamento.
“Foi a primeira vez, em 15 anos como delegado de polícia, que nós conseguimos verificar uma compra de voto com cocaína, com droga”, afirma o delegado da Polícia Civil Lucas Fernandes da Rosa.
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