
- Author, Christopher Giles
- e
- Author, Julia Luft
- Role, BBC Eye
- Published Há 38 minutos
- Tempo de leitura: 8 min
Aviso: Este artigo contém linguagem discriminatória
Katya estava prestes a apagar as velas do bolo de aniversário de 30 anos quando homens mascarados invadiram a boate onde acontecia a festa e passaram a atacar seus amigos física e verbalmente.
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A ação foi organizada por um grupo de vigilantes chamado Russkaya Obshina (Comunidade Russa, em tradução livre), que busca reforçar a agenda do presidente russo, Vladimir Putin, de promoção de valores tradicionais ligados à família e de combate ao que ele descreve como liberalismo ocidental.
Em algumas dessas operações, a polícia atua ao lado do grupo e, neste caso, não foi diferente. Em um vídeo publicado depois nas redes sociais, o grupo Russkaya Obshina afirmou que buscava provas de "propaganda" LGBT, considerada ilegal na Rússia.
Nenhuma evidência foi encontrada, mas Katya acabou interrogada pelas autoridades mesmo assim. Nove meses depois, ela foi condenada por blasfêmia por causa de um crucifixo vermelho de neon instalado na parede da boate. Leia também: Ex-nadadora Joanna Maranhão sobre xenofobia contra o filho na Alemanha: 'Não é

O Russkaya Obshina é o maior entre uma rede de grupos nacionalistas russos, e o número de ações promovidas pelo movimento cresceu rapidamente nos últimos dois anos, segundo apurou nossa investigação. A reportagem também encontrou indícios de que o grupo recebeu recursos de fundações beneficentes ligadas a pessoas próximas ao Kremlin (sede do governo russo).
Katya, conhecida em sua cidade natal, Arkhangelsk, por promover festas voltadas a um público alternativo, conta que, durante o interrogatório, ouviu de um policial que não correspondia aos valores tradicionais e que havia "algo de errado" com ela.
Fim do Promoção Agregador de pesquisas
Katya foi condenada a 200 horas de serviço comunitário. No tribunal, uma testemunha ligada ao Russkaya Obshina afirmou que "ver a cruz exposta na festa lhe provocou choque emocional e profunda confusão". Mais de mundo
Ao longo do último ano, o Serviço Mundial da BBC ouviu atuais e ex-integrantes do Russkaya Obshina, além de pessoas que, como Katya, sofreram consequências das ações do grupo.
O que surge dessas entrevistas é o retrato de um movimento formado por nacionalistas e religiosos russos profundamente engajados em patrulhar cidades e promover invasões em lojas, galpões, albergues, boates e clínicas de aborto. O objetivo é identificar atividades que, na visão deles, afrontem valores tradicionais ou possam violar a lei. Em seguida, pressionam as autoridades para que os alvos sejam investigados ou processados.

Crédito, Russkaya Obshina Leia também: Os argumentos da Anvisa para manter a suspensão de produtos da Ypê
Muitos dos alvos são migrantes. Vídeos publicados pelo grupo mostram integrantes do Russkaya Obshina abordando essas pessoas no trabalho ou em momentos de lazer e as acusando de crimes. A investigação constatou que 1 em cada 4 postagens do movimento menciona migrantes e frequentemente traz linguagem racista.
O grupo Russkaya Obshina não respondeu ao pedido de entrevista da BBC, mas rebateu as acusações em suas redes sociais: "Embora o Russkaya Obshina seja uma comunidade informal, sem entidade jurídica e sem filiação formal, os grandes pensadores da BBC de alguma forma 'encontraram' integrantes atuais e ex-integrantes do Obshina… Se você pegar qualquer pessoa na rua e chamá-la de integrante do Obshina, poderá colocar qualquer absurdo em sua boca."
Conversamos com um homem que diz ter deixado o Russkaya Obshina há poucos meses. Segundo ele, sua trajetória é parecida com a de muitos integrantes do grupo: ex-militares feridos na guerra da Ucrânia que retornaram à Rússia em busca de um propósito na sociedade russa.
O homem, a quem chamaremos de Dimitry, afirma que encontrou um propósito ao aplicar seu treinamento militar no que considera problemas internos do país, entre eles, segundo Dimitry, o impacto da "intrusão estrangeira" sobre a cultura russa.
"Pessoas de outras culturas chegam ao país e o Russkaya Obshina reage como um anticorpo [numa referência ao mecanismo de defesa do organismo que visa agentes externos], impedindo que elas prejudiquem o organismo. Dá para dizer que o Russkaya Obshina funciona como uma espécie de médico", afirma.


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