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Ler matéria →O verme-do-diabo é o animal que vive no lugar mais profundo da Terra- e ele está redefinindo os limites da vida- Author, Katarina Zimmer- Role, BBC Future- Published- Tempo de leitura: 8 min Se pudéssemos perfurar o solo abaixo de nós e descer pela crosta da Terra, ficaríamos rapidamente desconfortáveis. À medida que a luz do Sol desaparece e nos aproximamos um pouco mais do núcleo fundido do planeta, a temperatura e a pressão aumentam e as águas subterrâneas mais profundas preenchem buracos e rachaduras nas rochas. Ao atingir profundidades tórridas como 1,3 km abaixo da superfície, é fácil acreditar que nada pode viver ali embaixo.
Mas, com um pouco de sorte, é possível ver bilhões e bilhões de bactérias, às vezes formando camadas brilhantes, brancas ou alaranjadas. E, se pudermos levar um microscópio, talvez encontremos até mesmo um minúsculo verme que usa pequenos apêndices na sua boca para se erguer ao longo das rochas. Estamos falando do Halicephalobus mephisto, conhecido como verme-do-diabo, rondando em busca de micróbios.
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O animal é minúsculo. Seu comprimento tem apenas a largura de alguns fios de cabelo humanos. Mas ele parece uma baleia neste ecossistema liliputiano.
Os cientistas imaginam que, quando o verme-do-diabo morre naquele filme microbiano gosmento que cresce sobre a rocha, seu corpo provavelmente seja consumido por bactérias e outras formas de vida, ajudando a alimentar este estranho ciclo de vida ancestral. Até a década de 1980, a maioria dos biólogos não acreditava que existisse vida a mais de 30 cm abaixo da superfície. Mas a descoberta do verme-do-diabo, em 2011, mudou radicalmente nosso conhecimento das profundezas da Terra.
A história deste verme demonstra como a vida, mesmo a vida animal, encontra um caminho, sem a energia solar ou uma atmosfera rica em oxigênio, para expandir radicalmente os ambientes que possibilitam o desenvolvimento dos seres vivos, despertando novas ideias sobre as origens e o futuro da vida. " Se você consegue encontrar um verme lá embaixo, o que ainda falta descobrir? Leia também: A chilena declarada desaparecida na era Pinochet e encontrada viva 5 décadas
", questiona a geomicrobióloga Karen Lloyd, da Universidade do Sul da Califórnia, nos Estados Unidos. " As possibilidades são imensas.
" Graças a uma série extraordinária de felizes acontecimentos, os cientistas conseguiram gerar filhotes daquele único verme-do-diabo e vêm estudando avidamente seus descendentes para compreender como aquela espécie sobrevive nas quentes e escuras profundezas da Terra. Entrando na biosfera profunda
Os primeiros relatos convincentes de vida nas profundezas da crosta terrestre surgiram nos anos 1990. Em 1997, por exemplo, foram encontradas bactérias a 2,8 km de profundidade, dentro de um poço de extração de gás. No início dos anos 2000, o biólogo especializado em vermes Gaetan Borgonie, fundador do instituto de pesquisa sem fins lucrativos Extreme Life Isyensya, na Bélgica, relembra que cientistas mais velhos ridicularizavam a ideia de que algo mais complexo pudesse existir nas profundezas da Terra.
Borgonie acreditava que um grupo de pequenos vermes chamados nematoides poderia viver nas profundezas da crosta terrestre. Não era uma ideia atraente. Mas, conhecendo a resistência daqueles pequenos animais, Borgonie achou que valia a pena examinar a questão.
Em 2008, ele se reuniu com outros especialistas na vida em ambientes extremos para visitar a mina de ouro Beatrix, na África do Sul. A 1,3 km de profundidade, eles tiveram acesso a buracos perfurados nas paredes da mina para canalizar a água de dentro da rocha, a cerca de 37 °C, em direção a filtros projetados para capturar pequenas formas de vida, relembra Borgonie. E, após filtrar mais de 6 mil litros de água, eles capturaram um verme minúsculo. Mais de mundo
Em duas outras minas sul-africanas, eles filtraram quantidades ainda maiores de água. Em uma delas, foram mais de 12 milhões de litros. Os cientistas encontraram diversas espécies de nematoides, além de outros invertebrados, fungos e várias formas de vida microscópicas.
" Nunca esperei encontrar um zoológico inteiro", relembra Borgonie. A maior parte das espécies também é encontrada na superfície.
Mas o verme da mina Beatrix era novo para a ciência e recebeu, em 2011, o nome de Halicephalobus mephisto. O animal teve a cauda quebrada no processo de filtragem, o que é uma sentença de morte para o nematoide. Mas, felizmente, o indivíduo era uma fêmea partenogênica, ou seja, ela podia se reproduzir sozinha, sem necessidade de acasalar. Leia também: A chilena declarada desaparecida na era Pinochet e encontrada viva 5 décadas
E depositou oito ovos viáveis antes de morrer. " Tivemos muita, muita sorte", afirma Borgonie.
Ele nunca mais encontrou outro verme-do-diabo. Alguns dos descendentes dos vermes acabaram no laboratório do pesquisador genômico John Bracht, da Universidade Americana, em Washington DC (Estados Unidos). Ele os criou em placas de Petri sob condições similares a um dos primos do verme-do-diabo, Caenorhabditis elegans, uma espécie de nematoide que vive em frutas em decomposição e já foi intensamente estudado.
Existem algumas diferenças entre as duas espécies. O verme-do-diabo não nada na água; ele se agarra aos lados de um tubo de plástico, uma capacidade que provavelmente o ajuda a se fixar às rochas subterrâneas. Evidentemente, o verme-do-diabo também não aprecia o alimento do Caenorhabditis elegans, que é a bactéria E. coli.
Ele prefere outras espécies que formam colônias nas placas. E é importante observar que o verme-do-diabo não se dá bem à temperatura ambiente. A 20 °C, seu crescimento diminui e ele leva oito dias para completar seu ciclo de vida.
O animal prefere temperaturas de 37 °C, que normalmente são fatais para o C. elegans, mas permitem que o verme-do-diabo se reproduza alegremente a cada dois dias. Adaptações para maior resiliência Estudar uma espécie examinando apenas os descendentes de um único indivíduo é um desafio, especialmente quando eles ficam longe do seu habitat natural por tanto tempo.
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