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Classe C rejeita rótulos ideológico e vota por resultado, diz livro

Thiago Bethônico São Paulo Um dos principais especialistas no fenômeno que ficou conhecido como ascensão da classe C , o economista Marcelo Neri diz que a classe média

Classe C rejeita rótulos ideológico e vota por resultado, diz livro
Thiago Bethônico
São Paulo

Um dos principais especialistas no fenômeno que ficou conhecido como ascensão da classe C, o economista Marcelo Neri diz que a classe média de hoje tem um novo perfil em relação aos governos petistas: ela é mais sofrida.

Segundo o diretor da FGV Social, o quadro socioeconômico que alavancou esse público nos anos 2000 era composto por três fatores principais: avanço da economia; crescimento da renda acima do PIB (Produto Interno Bruto) e redução contínua da desigualdade.

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No entanto, todos esses efeitos duraram até 2014 e foram revertidos. "A desigualdade aumentou, o crescimento caiu e invertemos essa equação", diz Neri, em entrevista à Folha.

O economista Marcelo Neri na FGV, no Rio de Janeiro - Ricardo Borges/Folhapress

Na visão dele, o conceito de classe média atualmente está mais próximo da classe média tradicional, que ascendeu no início da década de 1970. Nesse período, que ficou conhecido como milagre econômico, o Brasil teve altas taxas de crescimento, mas com uma escalada da desigualdade.

"Talvez tenhamos perdido aquele elemento de nova classe média, dos primeiros [a acessar certos itens de consumo]. Eu diria que hoje é uma tendência mais de conservadorismo, uma apologia da época do milagre econômico", afirma. Leia também: Taxa das blusinhas: se medida provisória não for aprovada, taxação volta

Para Neri, outras mudanças de perfil também são perceptíveis. A carteira de trabalho, que ele considera o grande símbolo da classe média dos governos Lula, já não se encaixa mais no contexto de hoje.

"Acho que esse é um tempo que já foi. Estamos mais numa época de empreendedorismo, uberização, não é mais a carteira assinada."



Existe hoje uma nova classe média no Brasil, um novo perfil? Temos falado muito de polarização, muitas vezes no sentido político, mas polarização é o oposto de classe média. Quer dizer, os extremos estão crescendo em detrimento do meio, que é por definição onde está a classe média, seja a nova classe média —mais ligada a uma classe C— ou uma classe média tradicional.

Mas, obviamente, existe esse grupo. Houve um episódio em 2020, auge do auxílio emergencial, em que vimos pessoas das classes A e B caindo, por conta do isolamento social, e pessoas das classes D e E subindo. Mas foi algo que durou pouco.

Talvez vivamos um processo parecido com essa concessão do auxílio de R$ 600, mas nada que seja muito permanente. Essa é a preocupação. Mais de politica

O que surpreendeu daquele movimento da nova classe média [dos governos petistas] é que persistiu durante um tempo. Sempre teve muita instabilidade, mas durou do fim da recessão de 2003 até 2014. Foi um processo de crescimento contínuo e baseado em três partes.

Uma parte é o próprio crescimento da economia, crescimento do PIB, na época do boom de commodities. Outro foi um crescimento da renda das pessoas acima do crescimento do PIB. Além disso, uma redução contínua da desigualdade.

Mas todos os efeitos duraram até 2014 e foram revertidos. A desigualdade aumentou, o crescimento caiu e invertemos essa equação. A renda das pessoas passou a crescer menos que o PIB. Então, existe essa classe média mas, nos últimos anos, ela é sofrida. Leia também: Degola de Marco Buzzi mostra que ministro de tribunal não está livre da lâmina

O que muda no perfil de consumo dessa classe média mais sofrida? Existem dois tipos de classe média. Uma é a classe média americana, o padrão europeu, que figura no imaginário das pessoas mundo afora. Aquela que tinha dois carros, dois cachorros e dois filhos. Mas esse é um padrão de países ricos.

Há também a chamada classe C, que é mais associada à nova classe média, que é uma classe média brasileira e num certo sentido global, porque a distribuição de renda brasileira —a partir da qual nós calculamos a classe média— é surpreendentemente próxima da média global.

Agora, de 2015 em diante, o Brasil teve um desempenho bem pior. Certamente não se comportou como um país emergente, então perdemos terreno.

Houve esse achatamento, em função da grande recessão. O aumento da desigualdade na renda do trabalho foi contínuo por 17 trimestres consecutivos —um recorde de permanência.

Hoje em dia, quando se fala em classe média, talvez estejamos falando mais de uma classe média tradicional e menos dessa classe C.


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