China proíbe IAs de namoro que criam dependência emocional
A nova lei, que entra em vigor nesta quarta (15/07), exige que assistentes virtuais evitem criar dependência emocional nos usuários
Publicado em: 15/07/2026 11:59Autor:Redação AI NotíciaLeitura: 4 min de leituraAI Notícia
Resumo
China proibiu o “namoro” com IA, afetando serviços de chatbot.
A nova lei, que entra em vigor nesta quarta (15/07), exige que assistentes virtuais evitem criar dependência emocional nos usuários.
Empresas como a ByteDance e a Alibaba desativaram recursos de interações íntimas em seus sistemas de IA.
O governo da China decidiu intervir nos relacionamentos afetivos entre humanos e máquinas. A partir desta quarta-feira (15/07), entra em vigor uma regulamentação inédita que proíbe chatbots de companhia de estimular dependência emocional nos usuários.
Como consequência, empresas como ByteDance e Alibaba promoveram um apagão em seus serviços: recursos de interações íntimas foram desativados e o histórico de conversas de milhões de usuários deixou de ficar acessível.
Segundo o comunicado oficial, a motivação vai além de proteger a saúde mental. Para as autoridades chinesas, a adoção acelerada de “namorados e namoradas virtuais” se transformou em um obstáculo silencioso para a formação de laços sociais.
Por que as empresas não adaptaram as IAs?
Gigantes chinesas desativaram chatbots de companhia (ilustração: Vitor Pádua/Tecnoblog)
A resposta está na arquitetura do software. Em vez de tentarem se adequar às novas regras, as companhias concluíram que era tecnicamente impossível manter o produto funcionando dentro das exigências da lei, já que os recursos que tornam um chatbot de companhia atraente e realista são exatamente os alvos da nova legislação. Leia também: Novo Galaxy Fold e muito mais: o que esperar do Samsung Unpacked
Para que um parceiro virtual ganhe credibilidade, ele precisa de “memória persistente”, a capacidade de lembrar detalhes da vida do usuário, e ajustar constantemente o tom emocional das respostas. A nova lei exige que o sistema quebre essa imersão de propósito. As IAs agora são obrigadas a alertar os usuários de que são máquinas a cada duas horas de uso contínuo, além de detectar sinais de dependência psicológica em tempo real.
O custo de engenharia para reescrever esses modelos também não justificava os riscos de tomar multas que podem chegar a 50 milhões de yuans (cerca de R$ 35 milhões, em conversão direta) ou 5% do faturamento anual da empresa infratora.
Apenas o Doubao, aplicativo de IA da ByteDance, detém cerca de 345 milhões de usuários. Como alternativa, a empresa começou a direcionar esses usuários para um novo app chamado Maoxiang. O plano é desenvolver uma plataforma do zero, já com os mecanismos de controle de vício e verificação de limites emocionais integrados.
Problema da dependência emocional é global
Fabricante chinesa de bonecas WMDoll também integrou IA nos seus produtos (arte: Vitor Pádua/Tecnoblog)
O desafio não fica restrito ao mercado chinês. Plataformas extremamente populares no Ocidente, como Replika e Character.AI, utilizam a mesma estrutura de retenção emocional e continuam operando neste formato. Governos dos Estados Unidos e da Europa ainda não aprovaram restrições parecidas com as de Pequim. Mais de tecnologia
A pressão, porém, está aumentando. O portal Tech Times destaca que processos judiciais nos EUA já associam o uso de chatbots de companhia ao agravamento de quadros psiquiátricos. O principal motor dessas discussões é o caso de um jovem de 14 anos da Flórida que cometeu suicídio no início de 2024 após estabelecer um forte vínculo com um bot da Character.AI.
Outro caso conhecido envolveu a morte do jovem Adam Raine, de 16 anos, após interações com o ChatGPT. Embora a IA da OpenAI não tenha sido desenvolvida para esse fim, o desfecho trágico motivou um longo processo judicial. Leia também: X começa a punir perfis que copiam posts virais
Buscando evitar que esses casos se repitam nos EUA, estados como Nova York e Califórnia agora exigem que os bots emitam alertas frequentes sobre sua natureza artificial e acionem centros de ajuda ao notarem qualquer indício de risco à vida do usuário.
No Brasil, ainda não existe uma regra específica para chatbots de companhia. As discussões ocorrem principalmente no âmbito do ECA Digital, proposta para ampliar a proteção de crianças e adolescentes no ambiente online. O texto prevê deveres de mitigação de riscos, transparência e proteção de menores, mas não chega ao ponto de proibir que assistentes virtuais estimulem vínculos emocionais.
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Escrito
Gabriel Sérvio
Gabriel Sérvio é formado em Comunicação Social pelo Centro Universitário Geraldo Di Biase. Contribuiu para veículos como Canaltech, TudoCelular e Olhar Digital. Atualmente, escreve para o Tecnoblog.