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Café: da bebida 'do diabo' aos best-sellers de autoajuda cristã

Café: da bebida 'do diabo' aos best-sellers de autoajuda cristã Crédito, Getty Images Legenda da foto, Para muitos, o cafezinho é um ritual, um jeito de começar bem o

Café: da bebida 'do diabo' aos best-sellers de autoajuda cristã
Café: da bebida 'do diabo' aos best-sellers de autoajuda cristã
Cafezinho

Crédito, Getty Images

Legenda da foto, Para muitos, o cafezinho é um ritual, um jeito de começar bem o dia ou aqueles minutinhos reservados para si no meio do corre-corre
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    • Author, Edison Veiga
    • Role, De Bled (Eslovênia) para a BBC News Brasil
  • Published Há 3 horas
  • Tempo de leitura: 10 min

Basta uma espiada naquelas estantes cheias de best-sellers das livrarias, bem no ponto em que os livros religiosos tangenciam a autoajuda. Naquele segmento que o jargão editorial costuma classificar como "devocionais", não faltam títulos com a palavra "café".

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Na esteira do mega-sucesso editorial Café com Deus Pai— cuja primeira edição, em 2023, colocou o pastor evangélico, teólogo e escritor Junior Rostirola como o autor brasileiro mais vendido daquele ano —, outros escritores miram na mesma fórmula. Nas prateleiras, há títulos como Café com Nossa Senhora, Café com Jesus, Café com os Santos, Café com as Mulheres da Bíblia, Café com Deus, Café com a Virgem Maria— e até mesmo Café com Exu, provando que o conceito transcende o cristianismo.

A ideia, que parte de um conceito simples, funciona. No dia a dia, afinal, "tomar um café" pode ser um sinônimo de encontro intimista entre pessoas que se dão bem. Ao mesmo tempo, para muitos o cafezinho é um ritual, um jeito de começar bem o dia ou aqueles minutinhos reservados para si no meio do corre-corre.

Alguns ainda percebem a palavra "fé" como a segunda sílaba de café. Quase uma brincadeira— fruto da síncope, da contração fonética, da elisão comum na língua coloquial em que "com a fé" vira simplesmente "ca fé". Leia também: O que faz Cuba depender do exterior para alimentar sua população

Mas se a relação entre religiosidade e a bebida quase onipresente nos lares brasileiros— segundo levantamento da Associação Brasileira da Indústria do Café (Abic), o país é o segundo maior consumidor de café, perdendo apenas para os Estados Unidos— nem sempre foi de amizade. O café já foi demonizado por católicos. E até hoje não é bem-visto por algumas denominações cristãs.

Uma breve história do café

Os mais antigos registros escritos sobre o consumo de café são da segunda metade do século 6º, conforme explica a gastrônoma e historiadora Camila Landi, professora e coordenadora do curso de Tecnologia em Gastronomia da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Trata-se de um relato, com contornos lendários, de que um pastor de cabras na Etiópia teria notado os efeitos, em seus animais, a partir do consumo da planta.

"Há várias versões, mas a maioria apontando para o estudo do efeito da planta nos animais que a consumiam na região", conta a professora. Segundo artigo sobre a história da bebida publicado pelo Yale Center for the Study of Globalization, o pastor teria notado "um frenesi" atípico no seu rebanho.

Já a torrefação teria sido iniciada bem depois. E já com pitadas de religiosidade. Landi diz que tudo indica que a prática tenha começado no século 14, "quando monges jogaram os frutos no fogo por os acharem muito amargos". Acabaram se surpreendendo com o aroma.

Esses religiosos, ao que tudo indica, seriam da Igreja Ortodoxa Etíope, uma das mais antigas dissidências orientais do cristianismo.

"Assim teria nascido a bebida, resultante desse fruto tostado em contato com água quente", pontua Landi. "Naturalmente que histórias são contadas e lendas têm suas versões, portanto coexistem outras similares." Leia também: O caso da menina de 10 anos traficada do Peru para o Equador para se casar

O cafezinho se espalharia por outras partes da África. No século 15, passou a ser largamente utilizada por muçulmanos sufistas do Iêmen, como um recurso para se manterem acordados durante as longas preces noturnas.

Logo, o mundo islâmico trouxe a bebida para o debate. Os árabes, afinal, já a chamavam de "qahwah"— daí a palavra café, aliás. O termo significa vinho. Justamente porque as propriedades estimulantes do café eram comparadas às de uma bebida alcoólica, cujo consumo é vetado pelos muçulmanos.

Mas os juristas islâmicos daquele tempo entenderam que o café não precisava ser proibido. Porque, ao contrário do álcool, não inebria, não prejudica o discernimento— mantém a clareza mental daquele que o ingere.

Ao que tudo indica apenas no século 16 o café chegaria à Europa, via Turquia— onde os registros mais antigos da presença do café são de 1453. A essa altura, cristãos já viam com maus olhos aquela bebida consumida pelos então adversários de fé do mundo árabe. Se eles a chamavam de vinho, aquilo só poderia ser o "vinho do diabo", a "bebida do satanás", detratavam os europeus.

A bebida teria chegado ao mundo ocidental por volta de 1570, em Veneza, importante entreposto comercial da época. Se alguns cristãos experimentaram aquele "vinho" árabe e gostaram, evidentemente que a questão se tornou tema de debate no outrora poderoso mundo católico.

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