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Cabo Verde no Mundial: Coração Acelerado e Saudade que Vibra

1 Segui como toda a gente a admirável performance dos jogadores cabo-verdianos nos relvados do Mundial

Cabo Verde no Mundial: Coração Acelerado e Saudade que Vibra

1 Segui como toda a gente a admirável performance dos jogadores cabo-verdianos nos relvados do Mundial. Como toda a gente, rendi-me, suei, gritei, sofri e muito me comovi no jogo contra a Argentina. Mas– e agora talvez já não como toda a gente– vi cada jogo como se estivesse em Cabo Verde ao lado de amigos que lá deixei, das recordações que trouxe, das memórias que guardo.

Tao impressivas na sua transparência, tanto tempo depois. Como se o filme dessas idas e vindas estivesse sempre a passar em pano de fundo, no decorrer de cada jogo. Lembrei- me muito de tudo isso por estes dias.

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2 De abençoada situação geográfica, a meio do oceano Atlântico, não foi senão a sua natureza avara de dons que lá forjou uma forma de sobrevivência. E lá formou um povo.

Lutador, determinado, mas aberto ao mundo na sua doçura musical e modos amenos. Crescido na dificuldade e amadurecido na obstinação foram sempre andando e quase sempre, com acerto e critério. Após meio século independência (ocorrida em Julho de 1975)

Cabo Verde pode considerado como exemplar –- e não tenhamos medo das palavras. Grande povo, magnificas elites. 3 Pátria de gente culta e cultivada, gente de visão, dona de raciocínio bem estruturado e discurso ágil, Cabo Verde possui uma classe politica digna de exportação, como se faz com os bons vinhos. Leia também: Nova pesquisa Nexus/BTG indica cenário apertado no 1º turno das eleições

Mulheres e homens preparados, desenvoltos, civilizados, sem medo do mundo e das suas novas e impiedosas regras. É certo que o país vigora ainda a ritmo moderado, que há duas velocidades no desenvolvimento, mas basta ouvir a elite cabo-verdiana, conversar com políticos ou académicos ,homens de ciência ou gente das artes, para perceber como há entre eles e a cultura, eles e a civilização, um elo indissociável. De que as mornas são (o melhor?) exemplo.

Música feita de tantas mestiçagens– e expressão maior do carácter mestiço que é a própria raiz de Cabo Verde– e que uma Cesária Évora tão bem representou. 4 Percebi porém tudo isto, ainda antes da independência– esta forma de ser, o ancestral hábito dos combates desiguais– da natureza, á politica, passando pela pobreza; o português que falavam, a importância da escola, dos livros, da musica, dos poetas e da sua poesia– quando um dia, antes de Abril de 74 ,aterrei na ilha do Sal. Viajava com um pequeno grupo de mergulhadores amadores que passavam os seus dias nos fundos daquele mar turquesa enquanto cá em cima eu deambulava por uma ilha semi-deserta e ia fazendo perguntas.

E de cada vez que havia um grande jogo de futebol em Portugal, um derby ou um final de taça, a ilha –todas as ilhas– paravam. A maioria era do Benfica, a mim pareceu-me sempre que eram todos, mas não: havia também do Sporting e da Académica. (Muitos anos depois, na cidade da Praia, capital do arquipélago, o então Ministro da Cultura, num domingo em que o Sporting e o Benfica se digladiavam em Alvalade, não se espantava:

“Ah, o vosso futebol sempre aqui visto e apaixonadamente discutido. Mas não é só o futebol, longe disso, seguimos tudo de Portugal, até vimos os debates parlamentares e temos sempre acesa a SIC Notícias”…) Não sei como será hoje– não vou lá há tempos– mas a vida, Deo gratias, tem destas coisas: agora foi a vez de Portugal inteiro– e o mundo aliás– se ter maravilhado com a perícia, o golpe de asa, o ritmo, a inteligência, dos jogadores cabo-verdianos.

Não por acaso alguns deles jogam em óptimos clubes da Europa. 5 Nesse tempo em que a bandeira era a portuguesa havia uma pousada– a inesquecível Morabeza– e toda a minha geração que conheceu Cabo Verde nessa época– e depois– sabe o lugar mágico de que falo. Apesar de uma natureza madrasta, a mesa não se ressentia, pelo contrário: a Morabeza hospedava o constante vaivém dos (exigentes) pilotos da então South Africa Airways e naquela acolhedora morada aberta sobre a ilha, havia quase de tudo mas só… ali. Mais de noticia

O que havia porém em todo o lado era alguém a cantarolar e muitas vezes com uma viola, numa esquina, numa arvore, na rua, no infindável e liso areal branco. Cantavam num português de dicção perfeita, honrando a língua e sorrindo muito: a musica permitia-lhes rasgões de felicidade em quotidianos menos felizes,numa criatividade que lhes era espontanea, natural, genuína, por vezes fulgurante e uma forma de ser muito sedutora. Logo após a primeira refeição que tivemos na Morabeza os três empregados que atendiam as mesas, tiraram os aventais, um agarrou numa viola e começou a cantar como se conversasse com ela;

e os outros dois sentaram-se a jogar xadrez. Tomei boa nota). 6 No início da década de setenta do século passado, quando lá cheguei, a ilha do Sal era um encanto… quase desamparado: paisagem marcada pelas secas sucessivas, quase não existia comércio, um mercado pobrezinho, não havia hotéis nem sombra turismo, apenas um ou outro aventureiro, alguns curiosos, tripulações aéreas que lá faziam escalas.

E no entanto… nunca encontrei um só aluno que saísse da escola sem o seu uniforme, do bibe às calças escuras e camisas claras. Segundo me informaram na altura– porque o perguntei– era raríssimo encontrar jovens sem a frequência de todo o ciclo liceal. Como então se dizia, “iam até ao sétimo ano”. Leia também: apple iphone 18 pro: o que muda após o iphone 18 deve ser anunciado no evento

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7 Antes da independência Cabo Verde averbava o maior índice de escolaridade das então chamadas “províncias ultramarinas” e, no final do século XX, o Ensino Básico cobria mais de 95% do território.

Quando lá regressei por várias vezes, mas já num arquipélago independente, voltei a encontrar uniformes, em diversas cidades, cada escola escolhendo o seu. Mérito deles, ontem como depois. Nunca esqueci nada e aprendi muito:

não são ricos, não dispõem de recursos naturais, até a água escasseia. Fizeram entretanto do turismo a principal receita mas perante uma Ilha do Sal já muito massificada souberam rever a “matéria” e meter a marcha atrás, lançando projectos turísticos assentes num triângulo que desejam auspicioso: turismo, natureza, cultura. Do que conheço, resultou.

8 Até que um dia, sorte minha, a Fundação Gulbenkian na pessoa do então seu Presidente, Rui Vilar, me convidou a reportar a história, ou melhor, parte da espantosa e já longa história da feliz cooperação da Fundação com as Áfricas de expressão portuguesa, elegendo as áreas da saúde e da educação para o meu trabalho. O Presidente da Gulbenkian foi claro: como se me desse uma guia de marcha, disse-me que “fosse, e depois reportasse como costumam fazer os jornalistas”!

Subentendido: e não como os técnicos ou os sábios dos relatórios que lhe enchiam as gavetas. Que fosse e contasse. E no final haveria livro com todo o conteúdo recolhido e editado.

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