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Ler matéria →Burnout já existia na Idade Média — o que a sabedoria medieval tem a nos ensinar

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- Author, David Robson
- Role, BBC Culture
- Published Há 20 minutos
- Tempo de leitura: 8 min
O estresse e esgotamento mental não são problemas exclusivos da vida moderna. Na Idade Média, também eram comuns e parte da sabedoria medieval sobre como enfrentar o burnout (um fenômeno ocupacional, segundo a Organização Mundial da Saúde, a OMS) continua surpreendentemente atual.
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Os sintomas, observou João Cassiano, eram sempre os mesmos: cansaço, desesperança, vontade de estar em qualquer lugar, menos no trabalho, e uma espécie de névoa mental— "uma confusão da mente sem explicação"— que fazia os seus colegas se sentirem improdutivos, inúteis e buscar "consolo no sono".
Quem já enfrentou burnout, esgotamento ou depressão provavelmente reconhecerá ao menos parte dessas sensações. É comum supor que esses problemas sejam consequência das pressões do século 21. Mas Cassiano escreveu isso no século 5 d.C., e seus leitores não eram executivos contemporâneos, mas cristãos dos primeiros séculos exaustos pelas exigências da vida espiritual.
Será que relatos como esse podem ajudar a compreender o mal-estar contemporâneo e até apontar caminhos para enfrentá-lo? Leia também: Como a Escócia foi de 'capital de assassinatos' da Europa a um dos lugares mais
Essa é a tese do novo livro do historiador Peter Jones, Self-Help from the Middle Ages: A Journey into the Medieval Mind (Autoajuda na Idade Média: uma viagem pela mente medieval, em tradução livre), que oferece um panorama das formas como os "padres-terapeutas"— expressão usada pelo autor— orientavam os seus fiéis a superar a angústia espiritual.

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"Há muita sabedoria na Idade Média", afirma o historiador. Nos últimos anos, multiplicaram-se livros que buscam lições de vida nas obras dos antigos estóicos (filósofos que pregavam o domínio das emoções e a vida guiada pela razão). Talvez tenha chegado a hora de recorrer também aos manuscritos medievais.
Perdido na Sibéria
Jones conta que a ideia do livro surgiu após enfrentar a própria crise— "o inverno mais frio da minha vida".
Por razões que até hoje diz ter dificuldade para explicar, aceitou o cargo de professor titular de História na Universidade de Tyumen, na Sibéria. Lá, as temperaturas eram tão baixas que, depois de apenas 20 minutos ao ar livre, ele perdia completamente a sensibilidade nas pernas. Mais de mundo
Também enfrentava dificuldades com o idioma e sentia muita falta da família, que havia ficado em Dublin, na Irlanda. "Eu deveria estar pesquisando, preparando minhas aulas e seguindo com a minha vida", escreve. "Mas simplesmente não conseguia fazer nada."
Mas, enquanto preparava um novo curso sobre os Sete Pecados Capitais, Jones começou a reconhecer nos relatos medievais ecos da sua própria infelicidade.
"Você percebe que eles passaram exatamente pelas mesmas coisas que nós", diz. "Os sentimentos sempre foram os mesmos, e as pessoas sempre enfrentaram as mesmas crises." Leia também: O que um tubarão que vive 400 anos pode nos ensinar sobre a longevidade

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Jones explica que os sete pecados capitais não aparecem na Bíblia. Eles foram formulados por pensadores cristãos dos primeiros séculos, como João Cassiano, e mais tarde sistematizados pelo papa São Gregório Magno que, segundo o historiador escreve no livro, "considerava que eles eram a ferramenta ideal para compreender os problemas da mente". Esse esquema de "organizar e interpretar todos os pensamentos" era composto por soberba, inveja, ira, preguiça, avareza, gula e luxúria.
No século 13, surgiram diversos manuais destinados a orientar os padres sobre a melhor forma de ajudar os fiéis a superar esses problemas durante a confissão. "Quando você lê esses textos, o que vê é algo muito parecido com a terapia", afirma Jones. Em vez de repreender os fiéis, "eles estimulavam uma conversa profunda e cheia de nuances, capaz de chegar ao cerne do problema".
Acídia — ausência de amor e vazio espiritual
Entre os sete pecados, a preguiça foi a que mais refletiu o estado de espírito de Jones durante o período em que viveu na Sibéria. Hoje, a palavra costuma ser associada à indolência ou à falta de vontade de agir. Já os autores medievais identificavam um vazio emocional mais profundo por trás desse estado.
Conhecida na época como acídia, ela abrangia "uma ausência de amor, uma paralisia do cuidado e um vazio espiritual", escreve Jones. "É quando tudo o que antes iluminava os seus dias passa a despertar apenas indiferença."

Campos espinhosos e montanhas imponentes

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