Lamine Yamal: Jovem prodígio espanhol pode fazer história na final da Copa
Ler matéria →Está no ar uma nova edição do Cinco Continentes. Prontos para uma nova viagem pelos temas que estão a marcar a geopolítica internacional. Hoje, dia em que contamos também com uma convidada especial, já lá vamos. Eu sou o João Costa e Silva. Conto, como sempre, com a ajuda do historiador Bruno Cardoso Reis. Bruno, seja muito bem-vindo. Como é que estás?
Exatamente. Raquel Vaz Pinto, professora de Relações Internacionais, muito também com a componente do desporto, é uma matéria em que nos vai dar aqui um excelente contributo. Raquel, seja muito bem-vinda. Obrigado por ter aceitado o nosso convite.
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Obrigada eu pelo convite e com estes temas tão apetecíveis.
Sim, vamos a isso. Vamos falar essencialmente nesta primeira parte sobre futebol, sobre este mundial 2026 e já o próximo em 2030, que conta com a organização portuguesa, espanhola e também marroquina. Para já, Raquel Vaz Pinto, historicamente, o futebol sempre foi mais do que um desporto. Serve essencialmente como espelho ou até catalisador de tensões nacionalistas. Olhando aqui para o cenário atual, o futebol continua a ter também um instrumento político, inclusive de política externa, uma espécie de ferramenta de soft power global, podemos lhe chamar assim?
Sem dúvida. O futebol, tal como outros fenômenos, como a religião, como a própria política, tanto podem ser aproveitados para efeitos positivos como para efeitos negativos. Eu gosto imenso, nestes temas, de citar um filósofo sueco do mais alto gabarite, um senhor chamado Sven Göran Eriksson, que dizia que há mais política no futebol do que na política. E é na musse, como muitas outras coisas que o Eriksson fez na vida. Ou seja, nós estamos a olhar para este mundial, que tem características especiais, sobretudo tendo em conta este alargamento. Eu penso que qualquer dia até os pinguins da Antártida devem jogar, penso eu, não sei o que o Infantino pensa sobre o assunto. Mas, de facto, tendo em conta os anfitriões e, em particular, estes Estados Unidos de Donald Trump, é óbvio que há aqui uma componente política importante e muito interessante. Leia também: Bragantino estreia na Sul-Americana contra Sporting Cristal em jogo de alto nível
Muito bem. De certa forma, daquilo que vamos olhar também, perceber, no fundo, aquilo que engloba este mundial e também o próximo, 2030, em que Portugal vai estar presente enquanto organizador. Bruno, do ponto de vista histórico, como é que avalias o uso político internacional do futebol? Até porque agora há um fenômeno muito falado do sportswashing, em que regimes autoritários compram clubes inteiros e financiam grandes competições, até para limpar a sua imagem internacional, não é?
Sim, e isso realmente sempre aconteceu. A relação do que podemos chamar de esporte, atividades lúdicas, esportivas, físicas, com a política, realmente é uma coisa muito antiga. Basta pensar naquela expressão latina, pane et circenses. Portanto, a ideia de que a forma de um político se tornar popular na Roma Antiga era distribuir comida e organizar jogos, organizar os jogos no circo romano, que eram nomeadamente aquela questão dos gladiadores, portanto, eram jogos um pouquinho mais brutais do que os esportes atuais, mas já aí havia um pouco essa ligação. Isso não é propriamente uma novidade, ou seja, o conceito de sportswashing, esta ideia de usar o desporto para limpar a imagem de certos regimes, certos governos, certos políticos, é uma coisa que é mais recente, aparece nas últimas décadas, mas é uma realidade também antiga. Basta recordar, por exemplo, os notórios ou famosos Jogos Olímpicos em Berlim, em 1936. A Alemanha, aliás, também queria organizar o mundial de futebol em 1942, a Alemanha nazi, obviamente, depois com a Segunda Guerra Mundial, isso foi interrompido. Há o caso também do mundial que é organizado na Argentina pela ditadura militar em 1976. Enfim, há esta ideia. Aliás, é um pouco o mote do campeonato deste ano, que é a ideia do futebol a unir o mundo Sabemos que um quer B, porque depois há todas as rivalidades também associadas, históricas, que se traduzem no campo desportivo entre o Brasil e Argentina, historicamente, por exemplo. Vamos ter agora um Portugal-Espanha, acho que também se calhar haverá aí alguns ecos do passado, mas felizmente de uma forma mais pacífica. Mas nem sempre, por exemplo, há uma famosa ou notória guerra do futebol na América Central entre El Salvador e as Honduras em 1969. Milhares de mortes por causa de um choque que começa num jogo entre as duas seleções. Portanto, realmente convém também não ter aqui uma visão demasiado idílica do poder pacificador ou do desporto. Sem dúvida que há esta utilização de grandes eventos para procurar ganhar popularidade, para apresentar uma imagem positiva do país. Isso em si mesmo não tem nada de negativo, tirando quando eventualmente esse regime é uma ditadura bastante sanguinária. Mas realmente a ideia também de que o desporto, que o futebol, de alguma forma poderiam escapar à política, tendo em conta a sua enorme popularidade e também cada vez mais os recursos enormes, o dinheiro imenso que circula no futebol, realmente era ter aqui uma visão muito angélica da realidade. Não seria expectável. Agora, acho que temos de conseguir conciliar, pelo menos é a minha postura, conciliar um pouco as duas coisas, que é o gosto pelo futebol e, por outro lado, uma visão um bocadinho mais analítica, mais crítica, mais distanciada. Não só das táticas e dos jogos, em que todos somos um pouquinho treinadores de bancada. Certamente todos temos opiniões sobre o jogo Portugal com a Croácia e outros, mas também sobre estes outros aspectos, da gestão do fenómeno desportivo, de como é que são escolhidos países, por que uns e não outros. Obviamente, isso não é apenas uma questão de desporto divorciada da política.
E é precisamente aí que vamos falar sobre este alargamento, agora 48 seleções. Raquel Vaz Pinto, a FIFA de Gianni Infantino tem avançado com este alargamento do mundial, um calendário cada vez mais saturado. Não sei se vamos ter pinguins no futuro a jogar numa edição do Mundial 2030, mas pergunto-lhe que impactos geopolíticos tem esta democratização forçada, no fundo. Se a FIFA está ou não aqui a agir como um ator quase estatal, que dita regras acima da soberania dos próprios países e até dos continentes.
A FIFA é, para todos os efeitos, uma das organizações mais poderosas a nível internacional. Infantino, eu tenho uma visão muito crítica desta sua liderança. Acho que é, para usar uma palavra forte, mas que me parece muito adequada, é hipocrisia. Ou seja, por um lado, inventar um prémio da cartola e dar o prémio da paz FIFA a uma figura como Donald Trump, e depois vir dizer quando um árbitro da Somália, que foi considerado o melhor árbitro desta última época no continente africano, é barrado. Não é não ter visto, é barrado no aeroporto nos Estados Unidos, por alegadas razões de segurança e contra isso não há qualquer conversa. O que me levou a ter que fazer algo que eu também não aprecio muito, mas que teve que ser, que foi elogiar o presidente da UEFA, da organização, também ela muito poderosa, que gere o futebol no continente europeu, que veio dizer que para a final, a Supertaça Europeia, entre o vencedor da Liga dos Campeões e o vencedor da Liga Europa, seria este o árbitro, o tal árbitro somali, que iria arbitrar. Portanto, eu penso que, à partida, há muitas incongruências e há muitas inconsistências em todo este processo. E nós já tínhamos tido uma figura como Blatter à frente da FIFA. Eu relembro o Mundial do Qatar, que foi precedido pelo Mundial na Rússia, quer um quer outro, países com um registo em matéria de direitos humanos, que eu penso que todos nós temos consciência de que não é propriamente o ideal, e que tinha sido atribuído, aliás, em simultâneo, e pensou-se que, de certa forma, Infantino seria um virar de página. E na verdade, mantêm-se as críticas, mantêm-se também, na minha perspectiva, uma enorme falta de transparência face a um conjunto de processos. Este alargamento, há várias vozes, há vozes que dizem que para os países que conseguem entrar neste campeonato, é uma festa. Muito bem. Para os países, como por exemplo, os países europeus, que têm um calendário do ponto de vista desportivo muitíssimo carregado, já para não falar de outras invenções como o Mundial de Clubes, e aí é a FIFA, ou seja, há uma perspectiva obviamente mais crítica. Na minha perspectiva, não sei se este alargamento, e quiçá não fique por aqui, não é um alargamento talvez excessivo naquilo que depois é também a própria qualidade dos jogos a que assistimos. Portanto, eu continuo com muitas dúvidas sobre esta gestão de Infantino, que me parece claramente com falhas enormes. E também, só para terminar este ponto, Infantino quer sempre agradar a gregos e a troianos, quer agradar a todos e, portanto, parece-me que no fim de tudo acaba por não conseguir agradar verdadeiramente àqueles que genuinamente adoram este desporto e adoram o futebol.
Bruno Cardoso Reis, vou pegar precisamente nesta expressão que usou a Raquel Vaz Pinto. É mesmo para agradar a gregos e a troianos este alargamento a 48 seleções? Mais de esporte
Bem, Infantino parece estar a fazer um pouquinho o mesmo jogo político, se quisermos, que Blatter fazia, que era muito apostar em aproximar-se de potências emergentes do Sul global, inclusive petrostados, por exemplo, que têm imenso dinheiro. Isso é muito interessante do ponto de vista dos recursos que estão disponíveis para a organização e a ideia é que não só para a organização, mas também para os organizadores, para a própria FIFA como instituição, etc. Esse é um aspecto que obviamente merece crítica. Outra questão é a ideia de que também todos os países têm o voto, todas as federações têm o voto e, portanto, há muitos votos em África, há muitos votos na América Latina, no Caribe, nas pequenas ilhas do Caribe, etc. E, portanto, alargar o campeonato, por exemplo, é uma ideia muito popular nessas regiões, onde tipicamente são também regiões mais pobres, muitas vezes com campeonatos mais fracos, embora muitos dos jogadores também já joguem em bons campeonatos, mas a ideia de que entram mais países, à partida, é mais popular. Porque há uma série de países que sabem que dificilmente entrariam de outra forma e isso também é uma forma de se eternizar no cargo, de conquistar votos para o futuro, mas tem realmente as consequências que a Raquel já referiu. Apesar de tudo, eu devo dizer, sendo muito claro, acho que foi um pouco graças a isso. Por exemplo, uma equipa como Cabo Verde entrou e eu fiquei especialmente feliz com Cabo Verde ter conseguido entrar e tem estado a fazer um campeonato bastante razoável, tendo em conta realmente o histórico. Acho que se pode dizer que o Brasil e Portugal podem perder, mas Cabo Verde claramente já ganhou neste campeonato.
Exatamente. Vamos deixar aqui uma questão. Eu penso que ainda temos tempo nesta primeira parte sobre o Mundial de 2030, que como sabemos e já disse, vai ter uma configuração inédita, é organizado por Portugal, Espanha e Marrocos, mas com jogos inaugurais na América do Sul, Uruguai, Argentina e Paraguai. Raquel Vaz Pinto, esta dispersão faz sentido por três continentes?
João, faz sentido para Infantino. Leia também: Independiente Medellín 2 x 2 Vasco: veja os melhores momentos
Voltamos à velha questão.
Não, faz sentido. Por quê? Porque assim esgotas a rotatividade regional, que é um pressuposto, a rotatividade de organizar, para que quatro anos depois, o mundial possa novamente ser feito na Ásia e, em concreto, na Arábia Saudita, que voltando aos temas anteriores, seja de sports washing, seja a ideia dos petrostados e por aí fora, possa aqui fazer também essa organização. E, portanto, desculpem lá, é uma infantinada. E são estes estratagemas, a palavra é demasiado elegante para isto.
Estes esquemas.
Esquemas. Boa, Bruno, é isso mesmo, são esquemas, porque estratagema ainda tem o lado grego, helênico. São esquemas. Como se nós fôssemos parvos perante o que está a acontecer. Ou seja, eu não estou com isto a dizer que não acho interessante e acho que esta dispersão, eu percebo o ponto e tudo mais, mas muito honestamente, é um esquema para que quatro anos depois. Agora, o que é que é interessante é que este planeamento, com aspas, a médio prazo, obviamente vamos ver como é que estará a Arábia Saudita agora neste contexto também da guerra entre os Estados Unidos e Israel versus Irão. Como vimos, uma das consequências foi a Arábia Saudita por aqui alguns dos seus megaprojetos desportivos, megaprojetos, pô-los um pouco, não em banho-maria, porque quem nos dera a todos ter a almofada financeira da Arábia Saudita, mas pô-los um pouco em banho-maria e repensar um pouco, porque também há que repensar muito do ponto de vista até estratégico para a própria Arábia Saudita. Mas o que eu gostaria de dizer é que obviamente espero que a organização de Portugal tenha aprendido algumas lições importantes Relativamente ao 2004, e nesse sentido, a coorganização também permite que não haja tanto aquela tentação de gastar imensos recursos para depois, no após campeonato, não terem a utilização que deveriam ter. Portanto, nesse sentido, a coorganização com Espanha e com Marrocos faz sentido. Penso que vai ser importante, vai ser interessante. Para Portugal é uma, como o João dizia há pouco, é uma montra pro mundo em matéria daquilo que é uma parte importante do nosso soft power. Ou seja, Portugal não tem os mesmos recursos de grandes potências, de países que podem investir e que têm, à partida, seja território, seja economia, seja forças armadas, enfim, que são muito mais poderosos. Para Portugal, sem dúvida, e o mesmo para Marrocos, Espanha já é uma liga diferente, mas de qualquer modo é uma montra importante para nós também mostrarmos ao mundo e mostrarmos o nosso país. Se for feito com esse equilíbrio e com esse cuidado financeiro, porque penso que isso também é muito importante e obviamente, até por essa vertente da coorganização, já percebemos que há aqui algumas lições que foram aprendidas, e bem.
Veremos como corre essa organização do Mundial 2030, para já o 2026. Nós fazemos aqui uma curta pausa no Cinco Continentes. Já regressamos. Esta semana, além do Bruno Cardoso Reis, contamos também com uma convidada especial, a Raquel Vaz Pinto. Até já. Estamos de regresso para a segunda parte do Cinco Continentes, por aqui na Rádio Observador. Eu sou o João Costa e Silva. Esta semana, e como sempre, estou com o historiador Bruno Cardoso Reis e também com uma convidada especial, Raquel Vaz Pinto. Nós estávamos quase aqui a terminar o tema do mundial. Estávamos a falar já no futuro do mundial 2030. Bruno Cardoso Reis, ainda queres dar aqui um toque na bola, não é?
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