
Crédito, Arquivo pessoal
- Author, Giulia Granchi
- Role, De Londres para a BBC News Brasil
- Há 3 horas
- Tempo de leitura: 7 min
Quando chegou à China pela primeira vez, aos onze anos, Maurício da Cruz teve a sensação de que nenhum outro lugar poderia ser sua casa.
O ano era 2000 e seu pai havia sido transferido pelo trabalho para a capital, Pequim, onde Maurício morou por dois anos até voltar para ficar com a mãe no sul do Brasil.
"A partir daí, a vontade de me mudar definitivamente para a China nunca foi embora. Tracei meu plano de vida baseado nisso, e estudei comércio exterior esperando que fosse me ajudar", conta.
Em 2012, Maurício fez as malas para não voltar mais.
Nos primeiros dois anos na China, focou em estudar mandarim para se integrar melhor à sociedade. Leia também: Maior produtor de camisinhas do mundo pode subir preços em até 30% por causa da guerra no Irã
Depois, foi contratado para fazer o trabalho que permeou a maior parte da sua vida no país: tradução de jogos eletrônicos do mandarim para o português.
"Mas com a evolução da inteligência artificial, perdi meu trabalho. Como Pequim é muito cara, foi assim que decidi vir morar no lar que vivo hoje, uma casa de isopor em uma das 'favelas' chinesas, que me ajuda a economizar muito."

Crédito, Arquivo pessoal
28 metros quadrados e R$ 30 de aluguel
Quando ainda era estudante de mandarim, Maurício se apaixonou por sua professora, uma chinesa seis anos mais velha, nascida e criada em Pequim.
"Tentei convidá-la para sair, mas ela achou que não era apropriado. Mas, depois de um tempo que as aulas acabaram, acabamos nos reconectando", lembra. Mais de mundo
O direito de morar na propriedade onde Maurício reside hoje é da mãe de sua esposa, que nos anos 1990 trabalhava em uma empresa estatal chinesa.
Esse tipo de moradia fazia parte do sistema das chamadas "unidades de trabalho", ou danwei, que organizavam não só o emprego, mas também aspectos básicos da vida urbana na China até as reformas econômicas iniciadas no fim do século 20. Leia também: Como Trump recuou e ganhou mais tempo para negociar acordo com o Irã

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Empresas estatais e órgãos públicos distribuíam apartamentos ou quartos a seus funcionários como benefício, com aluguéis simbólicos ou fortemente subsidiados. O acesso não era aberto ao mercado: estava vinculado ao vínculo empregatício e, em muitos casos, acabou sendo mantido dentro das famílias ao longo do tempo.
"A empresa meio que era 'dona' desses locais e deu esse direito para ela alugar sempre por um preço abaixo (do preço de mercado). E agora somos eu e minha esposa que moramos aqui, e pagamos o equivalente a R$ 30 por mês", diz Maurício.
O imóvel fica em uma área tradicional que antes era ocupada por famílias ricas. Eram casas com pátio interno — conjuntos onde uma única família controlava vários cômodos ao redor de um espaço comum. Após a tomada de poder pelo Partido Comunista, essas propriedades foram confiscadas ou redistribuídas e divididas entre várias famílias.
"Uma família inteira era dona de tudo, aí eles dividiram. Alguns dos antigos donos ficaram com um quartinho dentro do que antes era deles", afirma.



'Minha viagem nunca acabou'
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