O Dia Mundial da Reciclagem é celebrado neste domingo (17), mas o Brasil tem pouco a comemorar: apenas 1,3% dos materiais consumidos internamente são reutilizados, enquanto a média global é de 6,9% de reaproveitamento. É o que aponta o relatório Circularity Gap Report, produzido pela organização internacional Circular Economy e pela consultoria Deloitte. A Folha teve acesso exclusivo ao recorte brasileiro do estudo, que detalha pela primeira vez o quanto o país está distante da economia circular, sistema em que objetos descartados deixam de virar lixo e são transformados em novos produtos.
A economia brasileira segue o modelo linear, de produção, uso e descarte: 98,7% dos recursos retirados do meio ambiente são consumidos uma única vez e acabam se tornando resíduos. Maria Emília Peres, sócia de estratégia em sustentabilidade da Deloitte Brasil, afirma que o quadro se deve ao perfil extrativista do país, baseado em mineração, agropecuária e construção civil —setores que consomem grandes volumes de materiais com baixo aproveitamento posterior. "
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Não é um problema de comportamento individual, é um problema de arquitetura econômica", diz. O Brasil extraiu 5,2 bilhões de toneladas de matéria-prima virgem em 2023, sendo que 4,1 bilhões de toneladas foram consumidas internamente e o restante foi exportado. Da pequena parcela de materiais reaproveitados, apenas 3,7% vêm do tratamento de resíduos domésticos.
Atividades de construção e demolição estão ligadas a 48,2% dos itens reciclados, e subprodutos industriais e agrícolas respondem por 48,1% do total. Os números mostram que o reúso se concentra na cadeia produtiva, como o cascalho que volta para uma obra e o bagaço de cana-de-açúcar que vira energia, e não na gestão do lixo, diz Peres. "
A circularidade que temos é quase acidental, não sistêmica. " Em média, cada brasileiro consome 19,8 toneladas de recursos naturais por ano, acima do patamar global, de 12,6 toneladas por pessoa, e mais que o dobro do nível sustentável, de 8 toneladas anuais. Leia também: Panorama Econômico: SAF do Botafogo, Anvisa e Resultados Trimestrais
As nações em desenvolvimento tendem a consumir menos, mas os dados mostram que o Brasil consome muito e reaproveita pouco, afirma Peres. " Isso quebra um certo conforto narrativo de que 'somos menos culpados porque somos menos desenvolvidos'.
Não somos. " RECICLAGEM
O índice de circularidade olha para ciclo completo: quanto material entra na economia, quanto é reaproveitado e em que qualidade. Já os indicadores de reciclagem consideram apenas o volume do resíduo gerado que volta ao processo. "
Um país pode reciclar bem e ainda assim ter uma economia altamente linear se continuar extraindo recursos em ritmo insustentável. O Brasil é um exemplo disso", afirma Peres. O relatório nacional calcula que 608 milhões de toneladas de resíduos foram geradas em 2023.
Porém, apenas 43,5 milhões de toneladas, ou 7,2%, foram recicladas. Cerca de 262 milhões de toneladas, ou 43%, tiveram destinação inadequada, como lixões, ou sequer tiveram coleta, aumentando o risco de contaminação ambiental. Por outro lado, 302,2 milhões de toneladas (49,7%) foram direcionadas a aterros. Mais de economia
As organizações reconhecem o trabalho dos catadores e o alto nível de reciclagem de alguns materiais, como latinhas de alumínio (97%) e papelão (67%), mas afirmam que há ineficiência na gestão dos resíduos do país. EXTRAÇÃO DOMÉSTICA DE RECURSOS A biomassa representa 57,1% dos recursos extraídos, com 2,9 bilhões de toneladas, sendo que 2,6 bilhões de toneladas permanecem no mercado interno para atender à demanda por alimentos, ração animal e combustíveis, principalmente etanol.
Recursos minerais não metálicos, como areia, cascalho, calcário e argila, respondem por 23,3% do total explorado, ou 1,2 bilhão de toneladas, e abastecem a construção civil. A mineração equivale a 16,1% dos recursos extraídos anualmente, sendo 560,9 milhões de toneladas apenas em minério de ferro e compostos relacionados. Já os combustíveis fósseis representam 3,5% do total, e o relatório destaca o aumento dos investimentos nesse setor, apesar de metas de redução dos gases-estufa.
PEGADA MATERIAL As organizações também calcularam a pegada material da economia brasileira. Esse indicador mede a quantidade de matérias-primas incorporadas na cadeia de suprimentos para satisfazer a demanda de bens e serviços, independentemente de onde ocorre a extração, o processamento ou o descarte dos recursos. Leia também: Endividamento, guerra e juro alto pesam, e bancos devem manter oferta de
Os sistemas alimentares lideram a demanda de recursos naturais, com 2,2 bilhões de toneladas em 2023. A manufatura aparece na segunda posição, com 596 milhões de toneladas, e abrange a fabricação de alimentos e bebidas, além das indústrias têxtil, automotiva e química. O setor de construção e infraestrutura absorveu 514 milhões de toneladas, seguido por serviços (330 milhões de toneladas), mobilidade (285 milhões de toneladas), saúde e educação (117 milhões de toneladas) e comunicações (55 milhões de toneladas).
PEGADA DE CARBONO Bens e serviços consumidos no Brasil geram anualmente cerca de 1,4 bilhão de toneladas de dióxido de carbono equivalente (CO2e), medida que agrega diferentes gases do efeito estufa.
Cada brasileiro emite, em média, 6,5 toneladas de CO2e por ano, ligeiramente acima do nível global, de 6 toneladas. Em sintonia com a extração de recursos, a área alimentar responde pela maior parcela das emissões, com 565 milhões de toneladas de CO2e. Serviços ocupam o segundo lugar (216 milhões de toneladas), seguidos por itens manufaturados (153 milhões de toneladas) e construção e infraestrutura (143 milhões de toneladas).
O relatório afirma que 87% da pegada de carbono nacional acontece no próprio país e apenas 13% têm relação com produtos do exterior, o que confere uma vantagem ao Brasil para reduzir as emissões por meio de políticas domésticas. EMPREGOS CIRCULARES Somente 5,2% dos empregos brasileiros, cerca de 5,1 milhões de trabalhadores, contribuem para a economia circular.
O cálculo se baseia em metodologia desenvolvida com a OIT (Organização Internacional do Trabalho) e a Corporação Financeira Internacional. Os setores de manutenção de automóveis e de comércio atacadista e varejista concentram quase metade dos empregos circulares, com 2,1 milhões de trabalhadores, e o restante se distribui em categorias como transporte e abastecimento de água. "
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