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A menopausa e os 52 anos: um ciclo de poder

A menopausa e os 52 anos: um ciclo de poder Maria Cândida estreia como colunista de VEJA SAÚDE abraçando uma causa em ascensão e evolução: a menopausa Quando pensamos em

A menopausa e os 52 anos: um ciclo de poder

A menopausa e os 52 anos: um ciclo de poder Maria Cândida estreia como colunista de VEJA SAÚDE abraçando uma causa em ascensão e evolução: a menopausa Quando pensamos em menopausa, pensamos no que termina. O fim da fertilidade. O fim dos ciclos menstruais.

O fim de uma etapa da vida. Em uma cultura obcecada pela juventude, existe ainda um fim mais silencioso: o da sensação de pertencimento. Durante décadas, mulheres foram ensinadas a associar valor à aparência, à capacidade reprodutiva e à disposição para cuidar dos outros.

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Não surpreende que tantas atravessem essa transição com a sensação de que algo importante está ficando para trás. Foi por isso que me chamou atenção ouvir exatamente o oposto durante as gravações da série documental Menopausa Sem Fronteiras, produzida e apresentada por mim, e que vocês poderão assistir em breve. Ao longo de uma jornada por diferentes regiões da América Latina para compreender como mulheres de contextos culturais diversos vivem essa fase da vida, encontrei uma interpretação que raramente aparece nas conversas sobre menopausa.

+ A menopausa pelo mundo A descoberta não aconteceu uma única vez.

Ela apareceu repetidamente nos Andes peruanos, em comunidades rurais da Colômbia e entre mulheres ligadas às tradições ancestrais do México. Mudavam os cenários, as histórias e os sotaques. A ideia permanecia a mesma: Leia também: quem vai cantar na final da copa do mundo 2026

por volta dos 52 anos, a mulher não perde poder. Ela ganha. Foi no México que essa percepção ganhou forma.

Aída, abuela da tradição maia e médica tradicional maia, me conduziu até um cenote, um dos reservatórios naturais de água doce considerados sagrados por seu povo. Antes de entrarmos, ela acendeu o copal e explicou a presença dos quatro elementos: terra, água, ar e fogo. Depois pediu permissão às águas.

Para sua tradição, aquele não era apenas um lugar da natureza. Era um lugar de memória. Enquanto caminhávamos, conversamos sobre os ciclos femininos.

Ela me contou que, quando uma menina menstrua pela primeira vez, recebe flores e uma coroa. A chegada da fertilidade é celebrada como um rito de passagem. Não como um problema a ser administrado, mas como uma transformação a ser honrada.

O que me intrigou foi perceber que aquela cultura não parecia celebrar apenas o início do ciclo feminino. Também reconhecia sua transformação. Dias depois, encontrei Guadalupe Domínguez Luna, conhecida como Lupita, terapeuta e guardiã de círculos femininos. Mais de saude

Ela preparava um temazcal, o tradicional banho de vapor mesoamericano conhecido como “o útero da terra”. No chão, flores desenhavam a forma de um útero. Mulheres chegavam para cantar, rezar, dores, medos e recomeços.

Eu também participei e, confesso, nunca vivi algo parecido. A água aparecia novamente. No cenote, como profundidade.

No temazcal, como vapor. Em ambos, como passagem. Foi entre essas conversas que ouvi uma explicação recorrente para a importância dos 52 anos. Leia também: O trabalho como caminho para saúde e inclusão de mulheres com deficiência

Segundo tradições mesoamericanas, essa idade marca o encerramento de um grande ciclo da existência. Para os maias, o chamado Calendar Round surgia do encontro entre dois sistemas de contagem do tempo: o Haab, calendário solar de 365 dias, e o Tzolk’in, calendário sagrado de 260 dias. A combinação dos dois ciclos só voltava a se repetir após 18.980 dias, o equivalente a 52 anos.

Mais do que um cálculo astronômico, esse reencontro simbolizava renovação, passagem e sabedoria acumulada. O próprio Museu Nacional do Índio Americano, do Instituto Smithsonian, registra que, em tradições maias contemporâneas, acredita-se que uma pessoa que alcança os 52 anos atinge a sabedoria especial de um ancião. Não deixa de ser simbólico que esse marco aconteça justamente próximo da idade em que milhões de mulheres atravessam a menopausa.

Só no Brasil, cerca de 29 milhões vivem o climatério, fase que engloba a transição da menopausa e a pós-menopausa. As explicações que ouvi falavam de energia. Quando a menstruação termina, diziam algumas dessas mulheres, uma força antes dedicada à reprodução torna-se disponível para outros propósitos.

A ciência não confirma essa interpretação literalmente. Não existe evidência de que a energia biológica da menstruação retorne ao corpo quando cessam os ciclos menstruais. Pelo contrário.

Os primeiros anos da menopausa costumam ser marcados por ondas de calor, insônia, fadiga, alterações cognitivas temporárias, ressecamento vaginal, mudanças de humor e dezenas de outros sintomas já descritos pela medicina. Mas talvez os povos originários não estejam falando da mesma energia que a medicina tenta medir. Talvez estejam falando de outra coisa.

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