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Ler matéria →A dama que 'macheava': o que diz o 1º poema homoerótico brasileiro

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- Author, Edison Veiga
- Role, De Bled (Eslovênia) para a BBC News Brasil
- Published 22 julho 2026
- Tempo de leitura: 8 min
Escrito entre 1670 e 1690 e atribuído ao poeta Gregório de Matos (1636-1696), A Huma Dama Que Macheava Outras Mulheres é um texto que parte de um mote e é resolvido em quatro estrofes de dez versos cada. Satírico, como considerável parte da produção do autor, apresenta a personagem Nise, que não cede aos galanteios do narrador porque prefere o amor das mulheres.
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Para especialistas, este é o mais antigo registro conhecido de um texto literário brasileiro a abordar a temática homoerótica.
"Acredito ser o primeiro poema do Novo Mundo a falar de uma lésbica", pontua o antropólogo Luiz Mott, professor na Universidade Federal da Bahia, fundador do Grupo Gay da Bahia e autor de, entre outros livros, O Lesbianismo no Brasil.
"Sem dúvida, trata-se de uma peça pioneira nesse sentido", concorda o poeta e ensaísta Adriano Espínola, professor aposentado na Universidade Federal do Ceará (UFC), pesquisador na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) e autor de As Artes de Enganar: Um Estudo das Máscaras Poéticas de Gregório de Matos, entre outros livros. Leia também: Ele 'rabiscava' versos entre as entregas: o entregador de comida que ganhou
Espínola ressalta que a temática hoje chamada de LGBTQIA+ apareceria ainda em outros textos da lavra de Gregório de Matos— que ficou conhecido como Boca do Inferno.
A homossexualidade masculina, por exemplo, consta da sátira escrita pelo poeta alfinetando o administrador colonial português Antônio Luís Gonçalves da Câmara Coutinho (1638-1702), que foi governador do território brasileiro— supostamente, Coutinho vivia um relacionamento gay com o capitão de sua guarda.

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Há ainda textos de Gregório de Matos ironizando o amor homoerótico de forma geral.
"E ele foi também pioneiro na expressão do amor freirático, isto é, entre freiras e sacerdotes nos claustros, e entre freiras e leigos. Mas isso é outra história", salienta Espínola. Mais de mundo
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Sobre A Huma Dama Que Macheava Outras Mulheres, o escritor e professor universitário Miguel Sanches Neto, reitor da Universidade Estadual de Ponta Grossa (Uepg), também destaca a novidade. Leia também: Os milionários que querem pagar mais impostos no Reino Unido
"É o primeiro momento, da literatura [brasileira] que eu conheço, em que aparece um personagem com identidade homoafetiva", comenta. "Ele está satirizando essa orientação sexual."
Mas é preciso fazer três ressalvas importantes ao trazer este tópico ao debate. Em primeiro lugar que, como costuma acontecer com a maior parte dos marcos culturais e históricos, é muito difícil cravar com absoluta certeza o pioneirismo de algo.
"É difícil precisar se é o primeiro registro luso-brasileiro [dessa temática] mas podemos dizer que talvez seja uma das mais antigas escritas sobre o tema não heteronormativo", diz o professor Jean Pierre Chauvin, que pesquisa e leciona cultura e literatura brasileira na Universidade de São Paulo (USP).
O outro ponto é o evidente risco do olhar anacrônico ao julgar essas produções.
Eram tempos em que os hoje chamados de LGBTQIA+ não só sofriam os preconceitos e a marginalização— que, em parte, ainda se repetem— como também não tinham atendidos seus direitos básicos de cidadania e dignidade.

Nise

O luso-brasileiro
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