
Crédito, Pablo PORCIUNCULA / AFP
- Author, Rute Pina
- Role, Da BBC News Brasil em São Paulo
- Há 2 horas
- Tempo de leitura: 10 min
"Todo mundo no Rio". Ou, ao menos, 2 milhões de pessoas. Essa é a estimativa de público dos organizadores e de autoridades cariocas para o show da colombiana Shakira na praia de Copacabana neste sábado (2/5).
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O evento deve custar R$ 15 milhões à prefeitura, segundo o Diário Oficial do Município, e a estimativa é que movimente cerca de R$ 800 milhões na economia da cidade, segundo a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico (SMDE) e a Riotur.
Mas será mesmo possível reunir tanta gente em Copacabana? E as estimativas de público são, de fato, precisas?
Em maio de 2025, a prefeitura do Rio anunciou que o show de Lady Gaga havia batido recorde e afirmou que 2,1 milhões de pessoas se aglomeraram na extensão da praia para ver a cantora. No ano anterior, o público de Madonna foi estimado em 1,6 milhão. Leia também: Por que Trump mandou retirar 5 mil soldados americanos da Alemanha
A BBC Verify, serviço de checagem de dados e imagens da BBC, considerou "altamente improvável" que o evento tenha reunido esse número. Segundo a análise, o público estaria mais próximo de 600 mil a 660 mil pessoas.
A publicação gerou reação do então prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes (PSD). Ele rebateu a reportagem nas redes sociais e ironizou o cálculo, dizendo que os britânicos "não entendem o Rio" e que os brasileiros ficam "bem juntinhos".
"No mesmo espaço que cabem 660 mil britânicos, cabem 2,2 milhões de brasileiros animados e felizes! E calientes!", escreveu.
Em 1995, a Million Man March ("Marcha de um Milhão de Homens", na tradução ao português), em Washington, reuniu entre 1,5 milhão e 2 milhões de pessoas, segundo organizadores. A polícia estimou o público em 400 mil. Mais tarde, a Universidade de Boston calculou cerca de 870 mil participantes. Após o episódio, a polícia local deixou de divulgar estimativas para protestos.
No Brasil, divergências também são frequentes. Em 2015, a Polícia Militar estimou 3 mil pessoas em um protesto contra o impeachment da então presidente Dilma Rousseff (PT). Organizadores falaram em 100 mil. Mais de mundo
Mais recentemente, um ato de apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) em Copacabana, teria reunido 400 mil pessoas em março de 2025, segundo a Polícia Militar do Rio de Janeiro. Pesquisadores do Monitor do Debate Político no Meio Digital, projeto do Grupo de Pesquisa em Políticas Públicas para o Acesso à Informação Digital (Gpopai) da Universidade de São Paulo (USP), estimaram 18,3 mil participantes no momento de pico.
Organizadores da Parada LGBTQIA+ e da Marcha para Jesus, eventos massivos realizados anualmente em São Paulo, frequentemente anunciam públicos na casa dos milhões.

Crédito, Buda Mendes/Getty Images Leia também: A prisão em Dubai do homem que comandava império de drogas na Europa
Márcio Moretto, pesquisador e um dos coordenadores do monitor da USP, diz que a contagem de multidões historicamente foi marcada por estimativas imprecisas e discrepantes, muitas vezes sem base metodológica.
Segundo ele, durante décadas, números foram divulgados sem critérios claros de medição. "A gente tem diferentes especulações sobre números de pessoas nesses eventos, com graus de discrepância muito grandes. Às vezes de 100% ou 1.000% de diferença entre o que a Polícia Militar e os organizadores falam", afirmou.
Parte dessa distorção, diz o pesquisador, se deve à dificuldade humana de estimar grandes quantidades no "olhomêtro". "Se tem uma coisa que eu aprendi nessa experiência é que as pessoas são muito ruins de estimar a quantidade de pessoas em multidões", disse ele.
O especialista explica que, ao longo do tempo, criou-se um padrão inflacionado de referência, especialmente após grandes mobilizações como as manifestações de 2013.
Segundo Moretto, eventos considerados muito grandes raramente ultrapassam a marca de 100 mil pessoas. "O que eu aprendi com isso é que 70 mil pessoas numa manifestação é muita gente, muita gente mesmo."
Mas como se contam multidões?


Como a tecnologia mudou a contagem


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