Jovem vira agente funerário após morte de amigo no AC: 'Curioso sobre o que acontece depois'

Maycon Magalhães, de 30 anos, atua há quatro anos no ramo e conta como é lidar frequentemente com despedidas. Dia do profissional é celebrado nesta terça-feira (17).


  • Maycon Magalhães, de 30 anos, é agente funerário em Rio Branco.

  • Ele começou na área após a morte de um amigo e a curiosidade de entender o que acontece após o fim da vida.

  • Trabalho de um agente funerário envolve várias etapas, desde a remoção do óbito até a preparação do corpo para o velório.

  • Maycon afirma que o reconhecimento das famílias faz o trabalho valer a pena, embora algumas não tenham a dimensão de todo o cuidado necessário.

Maycon Magalhães é agente funerário e está na profissão há quatro anos — Foto: Arquivo pessoal

A morte de um amigo despertou em Maycon Magalhães, de 30 anos, uma curiosidade: entender o que acontece após o fim da vida. O interesse levou o acreano a iniciar uma carreira pouco visada. Há quatro anos, ele trabalha como agente funerário em Rio Branco e acompanha diariamente histórias de despedidas e dor de famílias.

No Dia do Agente Funerário, comemorado nesta terça-feira (17), Maycon contou ao g1 como começou no ramo, o dia a dia da profissão e quais situações mais marcaram sua trajetória.

Segundo ele, a decisão de entrar na área veio após uma indicação que surgiu pouco tempo depois da morte do amigo Marcos Felipe, que tinha 21 anos.

“Fiquei curioso sobre o que acontece depois da morte. Eu conhecia o neto da dona da funerária e ele acabou me indicando para trabalhar. Ele [Marcos Felipe] era um irmão, parceiro sem maldade alguma. Tinha muita vontade de ser alguém na vida e foi a pessoa com mais coração que conheci. Ele só se importava em estar com você pelo que você era”, contou.

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Engana-se quem imagina que o trabalho de um agente funerário se resume a pilotar o carro funerário ou acompanhar cortejos. Segundo o profissional, a rotina envolve várias etapas que muitas pessoas sequer imaginam.

“Tem que realizar a remoção do óbito, fazer o cortejo até o cemitério, translado de um município para outro e preparar o corpo para o velório. Não tem hora para comer. O que ninguém imagina é que a gente faz tudo, desde o banho até o procedimento de conservação'', explicou.

Maycon Magalhães ao lado do amigo falecido Marcos Felipe (dir.) — Foto: Arquivo pessoal

Entre os momentos mais difíceis da profissão, Maycon cita os atendimentos envolvendo crianças. Apesar disso, ele afirma que o reconhecimento das famílias faz o trabalho valer a pena, embora algumas não tenham a dimensão de todo o cuidado necessário antes do velório.

Mesmo sendo uma profissão essencial, Maycon pontuou que ainda enfrenta preconceito. De acordo com ele, quando conta sobre a profissão, as reações das pessoas geralmente são de curiosidade sobre o seu dia a dia.

“Normalmente perguntam: ‘mas tu só dirige, né?’, ‘tu mexe também?’, ‘tu abre o corpo?’. São muitas perguntas assim. Costumo levar na esportiva ou muitas vezes nem dou confiança. Tem gente que já tem preconceito só de ver o carro funerário [...] ser reconhecido pelo ótimo trabalho não tem dinheiro que compre. Quando a família agradece e diz que ficou bonito, isso é o melhor pagamento”, contou.

Rotina e curiosidades

Apesar dos atendimentos que podem ocorrer a qualquer momento, Maycon explica que a funerária onde trabalha tem uma organização diferente durante a semana. Segundo ele, o atendimento funciona em horário comercial de segunda a sexta-feira, e os plantões ficam concentrados no sábado e domingo.

Por lidar diretamente com corpos e com o ambiente das funerárias, Maycon diz que também costuma ouvir perguntas curiosas sobre situações consideradas sobrenaturais. Contudo, diz que não sente medo ao trabalhar na área, apesar de dizer já ter passado por um episódio inusitado enquanto estava sozinho no local.

“Não tenho medo. Mas já aconteceu de eu estar sozinho na funerária preparando e me chamarem pelo nome”, relembrou.

Maycon Magalhães é agente funerário e está na profissão há quatro anos — Foto: Arquivo pessoal

'Agir com humanidade'

Trabalhar diariamente com despedidas exige também equilíbrio emocional. Maycon afirma que a melhor forma de lidar com a dor das famílias é agir com humanidade.

Ao longo dos anos na profissão, algumas situações ficam marcadas. Uma delas, segundo ele, foi a morte de uma criança após um ataque de cachorro.

Também há despedidas que fogem do que muitas pessoas imaginam para um velório. Uma das mais inusitadas presenciadas por ele ocorreu recentemente na funerária onde trabalha, quando um cantor foi contratado para se apresentar durante a cerimônia. (Veja vídeo abaixo)

Cantor é contratado para cantar em velório no Acre

Cantor é contratado para cantar em velório no Acre

Para Maycon, pedidos especiais como esse fazem parte do processo de despedida. “A gente deixa a família à vontade quanto aos desejos do falecido e dos familiares. Cada despedida tem uma história”, afirmou.

Depois de quatro anos convivendo com histórias de perda e despedida, o agente funerário diz que a profissão mudou sua forma de enxergar a vida. Mesmo diante das dificuldades, ele afirma que momentos de gratidão mostram a importância do trabalho.

“Já aconteceu de chegar família sem condições de pagar um procedimento de conservação e eu fazer sem cobrar. O melhor pagamento é o agradecimento”, concluiu.

VÍDEOS: g1