Grupo de haitianos retido em avião em Viracopos foi vítima de golpe com vistos falsos, diz PF

Passageiros de voo fretado tiveram entrada barrada após análise da documentação. Cerca de 55 horas após o pouso, todos deixaram terminal com visto de acolhimento humanitário.


  • Parte do grupo de 118 haitianos que ficou cerca de 10 horas retido em um avião no Aeroporto de Viracopos, em Campinas (SP), foi vítima de um golpe com vistos falsos, segundo a Polícia Federal (PF).

  • A fraude era considerada refinada, o que fez com que muitos acreditassem que os documentos eram verdadeiros.

  • O grupo foi impedido de desembarcar depois que a PF encontrou problemas na documentação. Os passageiros permaneceram dentro da aeronave na quinta-feira (12) enquanto a situação era analisada.

  • O caso passou a ser acompanhado pela Justiça Federal, que determinou que a Polícia Federal concluísse a análise inicial dos pedidos de refúgio apresentados pelos haitianos em até 48 horas.

Avião com 118 imigrantes do Haiti fica retido por dez horas em Viracopos

Avião com 118 imigrantes do Haiti fica retido por dez horas em Viracopos

Parte do grupo de 118 haitianos que ficou cerca de 10 horas retido em um avião no Aeroporto de Viracopos, em Campinas (SP), foi vítima de um golpe com vistos falsos, segundo a Polícia Federal (PF). A fraude era considerada refinada, o que fez com que muitos acreditassem que os documentos eram verdadeiros.

Segundo o delegado-chefe da PF em Campinas, André Ribeiro, os documentos falsificados imitavam o modelo oficial de "maneira ardilosa".

"Esses vistos humanitários têm um QR Code, que remete a uma página oficial que autentica esses vistos. A falsificação foi bem feita no sentido de tentar ludibriar essas pessoas. Gerava um site com características semelhantes ao site oficial, e uma pessoa leiga tem a convicção de que aquilo está correto", detalhou Ribeiro.

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O grupo foi impedido de desembarcar depois que a PF encontrou problemas na documentação. Os passageiros permaneceram dentro da aeronave na quinta-feira (12) enquanto a situação era analisada.

De acordo com o Ministério das Relações Exteriores, 113 dos 118 passageiros apresentaram vistos de reunião familiar considerados falsos, o que levou à restrição de entrada no país e à análise individual da situação migratória de cada um.

O caso passou a ser acompanhado pela Justiça Federal, que determinou que a Polícia Federal concluísse a análise inicial dos pedidos de refúgio apresentados pelos haitianos em até 48 horas.

A situação também levou à abertura de investigação sobre um possível esquema de imigração irregular e falsificação de documentos.

"Nesse caso, uma companhia aérea operar um voo com mais de 110 pessoas com visto falso, tendo cobrado muitas vezes dessas pessoas, há indícios do crime que chamamos de contrabando de migrantes, quando pessoas lucram para promover uma migração irregular", disse Ribeiro.

Cerca de 55 horas após o pouso, todos os haitianos que haviam sido impedidos de desembarcar deixaram o terminal. Segundo a PF, o grupo recebeu visto de acolhimento humanitário e foi liberado para entrar no país.

Depois de sair do aeroporto, os passageiros seguiram para casas de familiares e amigos no Brasil.

Retenção em avião e espera em aeroporto: haitianos deixam sala reservada de Viracopos 55 horas após pouso — Foto: Heitor Moreira/EPTV

Sala improvisada

Segundo a PF, após identificar as irregularidades na documentação, a legislação e as normas internacionais do transporte aéreo determinam que a companhia aérea é responsável por levar os passageiros de volta ao local de origem.

"Após a comunicação da inadmissão, os passageiros foram reembarcados na aeronave. Por volta do meio-dia, todos já se encontravam a bordo, com a porta da aeronave fechada e autorização de decolagem concedida, para retorno ao ponto de origem do voo", informou a PF em nota divulgada na quinta-feira.

Ainda de acordo com a PF, a aeronave permaneceu no pátio do aeroporto por questões operacionais do voo, que são de responsabilidade da companhia aérea e da tripulação.

Haitianos dormiram em cadeiras e colchões de sala reservada após avião ficar retido em Viracopos — Foto: Imagens cedidas

Fluxo migratório intenso

O caso começou na manhã de quinta-feira (12), quando um voo fretado vindo do Haiti chegou ao aeroporto. Dos 120 passageiros, 118 foram impedidos de desembarcar pela PF.

A companhia aérea Aviatsa afirmou que os imigrantes pretendiam pedir refúgio ou proteção migratória no Brasil e que todos estavam identificados e com passaporte válido.

✈️ Voo fretado é um tipo de operação em que horário, origem e destino são definidos por quem contrata o serviço, diferente dos voos comerciais regulares das companhias aéreas.

O voo da Aviatsa — empresa de Honduras que tem dois aviões na frota — foi o primeiro da companhia transportando haitianos para o Brasil. A empresa está autorizada pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) a operar voos não regulares de passageiros e cargas.

Segundo a PF, Viracopos faz parte de uma rota migratória usada por haitianos, com cerca de três voos fretados por semana, que juntos transportam aproximadamente 600 passageiros.

Homem carrega seus pertences em Port-au-Prince, no Haiti — Foto: Ralph Tedy Erol/Reuters

Crise no Haiti

O Haiti enfrenta uma grave crise política, econômica e de segurança. O país, que não realiza eleições desde 2016, está sem governo e vive uma forte onda de violência provocada por gangues.

Segundo a Organização das Nações Unidas, o Haiti vive atualmente “uma das crises humanitárias mais graves do mundo”. A situação é marcada pela violência armada, instabilidade política e uma profunda crise econômica, com escassez de alimentos, medicamentos e outros produtos básicos.

Infográfico - Avião com imigrantes haitianos fica retido no Aeroporto de Viracopos, em Campinas — Foto: Arte/g1

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