Desigualdade de gênero entre os pais afeta a saúde mental dos filhos? Estudo de mais de 20 anos mostra que sim, inclusive de meninos
Estudo acompanhou jovens de Pelotas, no Sul do RS até completarem 18 anos. Para medir como relação entre pai e mãe impactavam a vida dos filhos, os pesquisadores criaram o Índice de Desigualdade de Gênero do Casal.
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Estudo acompanhou 2.852 jovens da tradicional coorte de nascimentos de Pelotas, no Sul do RS, desde 1993 até completarem 18 anos.
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Para medir como desigualdades entre pai e mãe impactavam a vida dos filhos, os pesquisadores criaram o Índice de Desigualdade de Gênero do Casal (IDGC).
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Entre os principais resultados, jovens que cresceram em famílias mais igualitárias tiveram, aos 18 anos, melhor saúde mental, mais anos de estudo e maior percepção de qualidade de vida.
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Os resultados se repetiram tanto entre meninas quanto entre meninos.
Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS); Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA) — Foto: Divulgação/ Gustavo Diehl; Clóvis Prates/ HCPA
🧠 Um levantamento indica que quando homens e mulheres têm condições mais equilibradas dentro de casa, todos os filhos colhem benefícios diretos na saúde mental, na escolaridade e na percepção de qualidade de vida.
A pesquisa foi conduzida por pesquisadores do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA) e da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). As conclusões foram divulgadas na revista Cambridge Prism: Global Mental Health.
O estudo analisou 2.852 jovens da tradicional coorte de nascimentos de Pelotas, no Sul do RS, acompanhados desde 1993 até completarem 18 anos.
🔎 Coorte de nascimentos = grupo de pessoas que nasce no mesmo ano e é acompanhado ao longo de um período.
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Para medir como desigualdades entre pai e mãe impactavam a vida dos filhos, os pesquisadores criaram o Índice de Desigualdade de Gênero do Casal (IDGC), que considera três dimensões:
- nível de escolaridade;
- renda;
- autonomia reprodutiva da mãe.
Quanto maior a desigualdade nesses aspectos, menor o índice.
Meninos também ganham com ambientes familiares mais equilibrados
Entre os principais resultados, jovens que cresceram em famílias mais igualitárias tiveram, aos 18 anos:
- 1,5 ano a mais de estudo;
- melhor qualidade de vida, com cerca de 10 pontos acima na escala da OMS;
- 36% menor risco de depressão.
Os resultados se repetiram tanto entre meninas quanto entre meninos, mostrando que práticas mais justas dentro do lar não favorecem apenas as mulheres.
O levantamento também identificou que 5,9% dos jovens avaliados preencheram critérios para depressão aos 18 anos. Os pesquisadores observaram que a prevalência do transtorno foi maior entre aqueles expostos a maiores desigualdades entre pai e mãe durante a infância e adolescência.
A psiquiatra e pesquisadora Clarissa Severino Gama ainda reforça que os ganhos vão além da questão social:
"Quando falamos de igualdade de gênero neste estudo, não estamos falando apenas de justiça social, mas também de educação, saúde mental e do futuro das crianças", comenta.
Retrato das famílias analisadas
Da amostra estudada:
- 62,9% dos casais tinham o mesmo nível de escolaridade ou as mulheres estudaram mais;
- apenas 4,9% tinham renda igual ou maior para as mães;
- 69,7% das mulheres foram mães após os 20 anos e realizaram mais de oito consultas pré-natais.
A análise mostrou que quanto maior o equilíbrio entre pai e mãe, maior a chance de os filhos alcançarem mais anos de estudo e preservarem saúde mental na transição para a vida adulta.
Já ambientes com maior disparidade foram associados a níveis mais altos de depressão, sobretudo quando o IDGC era mais baixo.