Ceilândia de Madalenas: conheça a professora que ajudou a alfabetizar mais de 16 mil pessoas no DF

No mês da mulher e do aniversário da cidade, conheça a história de Madalena Torres, educadora popular que dedicou a vida à alfabetização e à luta coletiva no DF.


  • Madalena Torres, de 62 anos, é referência na educação popular de Ceilândia, tendo alfabetizado cerca de 16 mil pessoas.

  • Nascida em Divinópolis de Goiás, chegou em Ceilândia com quase 8 anos, quando a cidade recém-fundada tinha apenas oito meses de existência.

  • Sua história é marcada por superação: enfrentou um câncer de mama em 2008, passou por tratamento intenso e, mesmo diante das sequelas, não deixou de atuar na educação.

  • Em 2010, após se aposentar por invalidez, voltou a lecionar como educadora popular no Centro de Educação Paulo Freire de Ceilândia (CEPAFRE).

Conheça Madalena Torres, que ajudou a alfabetizar mais de 16 mil pessoas em Ceilândia

Conheça Madalena Torres, que ajudou a alfabetizar mais de 16 mil pessoas em Ceilândia

A trajetória da professora Madalena Torres, de 62 anos, se entrelaça com a história de Ceilândia – região administrativa do Distrito Federal que completa 55 anos nesta sexta-feira (27).

Em conversa com o g1, a educadora relembrou a trajetória, falou sobre a relação com a região administrativa e compartilhou o trecho de um livro de Paulo Freire que conta parte da sua história (leia abaixo).

Nascida em 27 de abril de 1963, Madalena é referência na educação popular da cidade – alfabetizou cerca de 16 mil pessoas junto ao movimento popular e dedicado décadas à formação de jovens, adultos e outros educadores.

Professora Maria Madalena Torres — Foto: g1/Ingrid Dias

Nascida em Divinópolis de Goiás (GO), a cerca de 460 km do Distrito Federal, Madalena chegou em Ceilândia com pouco menos de 8 anos – quando a região recém-fundada tinha apenas oito meses de existência.

"O talco era poeira e quando chovia, o creme era lama" , lembrou a professora

Madalena e os irmãos na Ceilândia em 1971, a professora é a última à direita. — Foto: g1/Reprodução

Madalena estudou a vida toda em escolas públicas, e cursou o ensino médio no Centro de Ensino Médio 04 de Ceilândia (CEM 04), mais conhecido como "Centrão". Ao se formar, decidiu que seria professora.

Graduada em filosofia e mestre em tecnologia da educação, Madalena atuou como professora efetiva no Centro de Ensino Especial de Brazlândia (Cenebraz) por três anos.

Em 2001, voltou para a Escola Classe 19, em Ceilândia, de onde nunca mais saiu.

A história da educadora é marcada pela superação: enfrentou um câncer de mama em 2008, passou por tratamento intenso e, mesmo diante das sequelas, não deixou de atuar na educação. Em 2010, aposentada por invalidez, passou a trabalhar como educadora popular no Centro de Educação Paulo Freire de Ceilândia (Cepafre).

➡️ O Cepafre, fundado oficialmente em 1989, já alfabetizou mais de 16 mil pessoas e formou grupos de educadores populares em várias cidades do DF e entorno, sendo um dos pilares da transformação social em Ceilândia.

Em 2025, a trajetória foi interrompida mais uma vez por uma retinopatia diabética que fez Madalena perder a visão temporariamente. Tão logo se recuperou, ela voltou à educação – desta vez, formando novos alfabetizadores no Cepafre.

Madalena e os livros que escreveu — Foto: Ingrid Dias/DF

Cinema como ferramenta

O ato de educar, para Madelena, não se restringe à sala de aula. A professora usa o cinema como ferramenta de alfabetização e de formação profissional – uma estratégia baseada nos princípios do educador brasileiro Paulo Freire.

"Nós realizamos um projeto 'Cinema como Linguagem' na alfabetização de jovens e adultos, onde se alfabetiza, se ensina a fotografar e a filmar. Eles lidam com a inclusão digital, trabalhando com o celular", explica Madalena.

Citada pelo próprio Paulo Freire em “Pedagogia da Autonomia”, Madalena representa a força das mulheres negras na educação e a luta contra o preconceito.

No livro, Freire conta um episódio que revela um caso de racismo que Madalena sofreu ainda no começo de sua carreira.

Leia o trecho:

"Me torno tão falso quanto quem pretende estimular o clima democrático na escola por meios ecaminhos autoritários. Tão fingido quanto quem diz combater o racismo mas, perguntado se conhece Madalena, diz:

'Conheço-a. É negra mas é competente e decente.'

Jamais ouvi ninguém dizer que conhece Célia, que ela é loura, de olhos azuis, mas é competente e decente. No discurso perfilador de Madalena, negra, cabe a conjunção adversativa mas; no que contorna Célia, loura de olhos azuis, a conjunção adversativa é um não-senso.

A compreensão do papel das conjunções que, ligando sentenças entre si, impregnam a relação que estabelecem de certo sentido, o de causalidade, falo porque recuso o silêncio, o de adversidade, tentaram dominá-la mas não conseguiram, o de finalidade, Pedro lutou para que ficasse clara a sua posição, o de integração, Pedro sabia que ela voltaria, não é suficiente para explicar o uso da adversativa mas na relação entre a sentença 'Madalena é negra' e 'Madalena é competente e decente'.

A conjunção 'mas', aí, implica um juízo falso, ideológico: sendo negra, espera-se que Madalena nem seja competente nem decente. Ao reconhecer-se, porém, sua decência e sua competência a conjunção mas se tornou indispensável.

No caso de Célia, é um disparate que, sendo loura de olhos azuis não seja competente e decente. Daí o não-senso da adversativa. A razão é ideológica e não gramatical."

A vida e a atuação de Madalena Torres são parte fundamental da memória e da identidade de Ceilândia, cidade que, assim como ela, é símbolo de resistência, transformação e esperança.

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