Fêmea reintroduzida na natureza consegue chocar e alimentar filhote de ave visada pelo tráfico de animais sozinha; "É um marco no projeto", diz coordenador.


  • O nascimento de um filhote de bicudo na RPPN Porto Cajueiro, em Januária (MG), marca um feito inédito para a conservação da espécie.

  • A fêmea da espécie, considerada rara e visada pelo tráfico, está criando o filhote sozinha após o desaparecimento do macho.

  • O projeto de conservação superou um hiato de financiamento e sete anos de tentativas frustradas para alcançar este sucesso reprodutivo.

  • A iniciativa, que envolve 15 profissionais, visa a reintrodução da espécie e espera uma segunda geração em até oito anos.

O silêncio da Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) Porto Cajueiro, em Januária (MG), foi rompido por um som que o Brasil não ouvia há muito tempo em vida livre: o piado de um filhote de bicudo (Sporophila maximiliani) nascido da resistência.

O nascimento, ocorrido na última sexta-feira (20), não é apenas um registro biológico; é um feito histórico que coroa quase uma década de esforços para salvar uma das aves mais raras e visadas pelo tráfico no país.

Mas a beleza deste capítulo ganha contornos de drama e superação. O pequeno herdeiro da biodiversidade brasileira está sendo criado por uma "mãe solo". No dia 4 de fevereiro, em meio ao processo reprodutivo, o macho do casal desapareceu misteriosamente.

"Ou foi predado ou um outro macho brigou com ele e o expulsou do território", explica Gustavo Bernardino Malacco, biólogo e coordenador técnico do Projeto Bicudo.

Mesmo sem o parceiro para protegê-la ou buscar alimento, a fêmea não abandonou o ninho, construído a seis metros de altura em uma árvore da reserva.

Nascimento de bicudo é um marco histórico — Foto: Projeto Bicudo e layme (iNaturalist)

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A cronologia da vida

O sucesso da reprodução foi acompanhado passo a passo pela equipe técnica. Entre os dias 2 e 3 de fevereiro, o casal estava "bem pareado". Após a cópula, a fêmea, que já havia tentado construir ninhos em arbustos anteriormente, escolheu o local definitivo.

No dia 5 de fevereiro, mesmo já sozinha, a fêmea assentou no ninho, sinalizando a postura.

"Conseguimos pegar uma primeira imagem de um primeiro ovo e depois, no outro dia, houve um outro, então foram dois ovos", relembra Malacco. Após cerca de 15 dias de incubação solitária — um período de vulnerabilidade extrema — o primeiro nascimento foi confirmado.

Bicudo é uma das aves mais visadas pelo tráfico de animais — Foto: ninawenoli / iNaturalist

Um marco histórico

Para Malacco, o evento é um divisor de águas. O projeto, que enfrentou um hiato sem financiamento entre 2022 e 2024, sobreviveu graças ao apoio do Ministério Público Estadual. Desde 2018, foram pelo menos sete ou oito tentativas frustradas, onde ovos eram predados ou não estavam férteis.

"É histórico o que a gente conseguiu fazer. É um marco no projeto que a gente esperava e sabia que levaria tempo, tentativa e erro. Chegar nesse ponto demonstra que o projeto está no caminho certo", comemora o biólogo.

Próximos passos e o futuro da linhagem

Bicudo nasce na natureza após 7 anos de tentativas — Foto: Projeto Bicudo

O desafio agora é a sobrevivência. O filhote está no seu quarto dia de vida e sendo alimentado exclusivamente pela mãe. A equipe mantém monitoramento diário, aguardando o período de 20 dias, quando o jovem bicudo deve deixar o ninho para enfrentar o mundo.

O objetivo final, contudo, é a longo prazo. Malacco projeta que serão necessários entre 5 a 8 anos para observar uma segunda geração nascida desses descendentes reintroduzidos. "É um trabalho com tempo, reintrodução de uma espécie tão especialista, tão rara", define.

O Projeto Bicudo conta com a união de forças entre a Usina Coruripe, Instituto Ariramba, Fundação Grupo Boticário, Ministério Público de Minas Gerais e diversas universidades (UEMA, USP, UFSCar). A iniciativa integra o programa Parcerias Sustentáveis e mobiliza 15 profissionais dedicados à conservação da espécie.

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