Antes de ser assassinado, advogado falou sobre abrir bar com apostas on-line: 'O bom é que a gente não precisa falar com bicheiro nenhum'
A partir da esquerda: Sobreira, Machado e Mondego, réus pelo assassinato de Rodrigo Crespo — Foto: Henrique Coelho/g1
Meses antes de ser assassinado, ao falar com um amigo sobre a possibilidade de abrir um sport bar onde seria possível fazer apostas online, o advogado Rodrigo Crespo conversou com um amigo sobre o possível empreendimento.
O júri popular do assassinato de Crespo começou às 11h50 desta quinta-feira e deve ter sua sentença (5) até o final da noite de sexta (6). Três acusados de envolvimento com o crime são julgados.
Na época das mesnagens, os pontos de jogo do bicho na Zona Sul passavam por uma mudança de mão: saía Bernardo Bello, que dominou a região por anos como representante da família Garcia, para Adilson Oliveira Coutinho Filho, o Adilsinho, preso na última semana.
Crespo comentou com um amigo sobre a possibilidade de abrir o bar onde poderiam ser feitas apostas on-line. Segundo ele; não seria necessário falar com nenhum bicheiro sobre o empreendimento, que teria como sócio o dono de um estabelecimento de pôquer em Botafogo:
“O bom é que a gente não precisa falar com bicheiro nenhum. Ele tem o padrinho dele, e fala com ele diretamente” dise Crespo em uma mensagem, exibida durante o julgamento.
Até as 14h30, duas testemunhas foram ouvidas no júri popular. O delegado Rômulo Assis, responsável pela investigação, comentou que a apuração encontrou elementos que mostram o interesse de Crespo em entrar no ramo de apostas on-line. De acordo com o Ministério Público, essa teria sido a motivação do assassinato.
Serão levados ao júri:
- Leandro Machado da Silva, o "Cara de Pedra': policial militar que, segundo as investigações, providenciou os carros usados no crime. Se entregou na Delegacia de Homicídios dias após o assassinato.
- Cezar Daniel Mondego de Souza, o "Russo", apontado como responsável por monitorar a vítima.
- Eduardo Sobreira de Moraes: apontado pela polícia como o responsável por seguir os passos de Rodrigo, dirigindo o carro para Cezar enquanto acompanhavam a movimentação da vítima antes do assassinato.
Os três viraram réus no processo em abril de 2024, quando a denúncia do Ministério Público foi aceita. Na decisão, Leandro, que é PM, foi afastado do cargo. De acordo com as investigações, os réus se encontraram antes e depois do crime, inclusive perto do batalhão onde Leandro trabalhava.
As investigações da DH da Capital indicam que os criminosos já estavam atrás de Rodrigo desde o dia 5 de outubro de 2023: anotações com as placas dos veículos de Crespo foram encontradas nos celulares de um dos investigados, no dia em que ele foi a uma festa em Ipanema.
Advogado Rodrigo Marinho Crespo, de 42 anos, morto a tiros no Rio. — Foto: Reprodução
Testemunhas
Nesta quinta, são esperadas 20 testemunhas, entre defesa e acusação. A sentença está prevista para a sexta-feira (6).
A primeira testemunha ouvida foi a então namorada de Rodrigo Crespo, Isadora Strapazzon, por videoconferência. Ela se emocionou ao dizer que ficou com Rodrigo por quase quatro anos até o dia em que ele foi assassinado.
Ela foi questionada a respeito das atividades de Rodrigo como jogador de pôquer profissional e confirmou que ele tinha pretensões de ser o primeiro advogado a abordar a legalização das bets no Brasil.
O Ministério Público perguntou a Isadora se ela sabia que Rodrigo Crespo havia comprado domínios de sites de bets na internet. Ela afirmou que não sabia dessa informação.
Já o delegado Rômulo Assis, da Delegacia de Homicídios, afirmou que o carro usado no crime era de uma locadora que alugava para um grupo criminoso ligado ao Adilson Oliveira Coutinho filho, o Adilsinho.
Crimes julgados
De acordo com a denúncia, o assassinato teria sido praticado para assegurar a execução ou a vantagem de outros crimes, supostamente ligados a uma organização criminosa que atuaria no setor de apostas.
Os réus respondem por homicídio qualificado. Entre as qualificadoras (circunstâncias que tornam um crime mais grave e, por isso, aumentam a pena prevista na lei) apontadas estão:
- motivo torpe, relacionado à atuação de organização criminosa em apostas online;
- recurso que dificultou a defesa da vítima, já que os disparos teriam sido feitos pelas costas;
- prática do crime para garantir interesses de outros delitos;
- emprego de arma de fogo de uso restrito.
Polícia indicia três pessoas por morte do advogado Rodrigo Crespo
Como funciona o Tribunal do Júri
Crimes dolosos contra a vida, como homicídio, são julgados pelo Tribunal do Júri. Nesses casos, sete jurados — cidadãos comuns — decidem se o réu será condenado ou absolvido.
O processo é dividido em duas fases. Na primeira, o juiz analisa se há elementos suficientes para que o caso vá a júri popular. Ao final, pode pronunciar o réu (encaminhá-lo a julgamento), impronunciar, desclassificar o crime ou absolvê-lo sumariamente.
Na segunda fase, o julgamento ocorre em plenário, com a participação do juiz e dos sete jurados.
Como será o julgamento
O juiz abrirá os trabalhos com a presença mínima de 15 jurados. Sete deles serão sorteados para compor o Conselho de Sentença. Tanto defesa quanto acusação poderão recusar até três jurados cada, sem necessidade de justificar a decisão.
Durante a sessão, serão ouvidas as testemunhas da acusação e da defesa, além do interrogatório dos réus. Após a fase de instrução, começam os debates.
O Ministério Público terá uma hora e meia para sustentar a acusação, e a defesa terá o mesmo tempo. Depois, haverá uma hora de réplica para a acusação e uma hora de tréplica para a defesa. Em caso de mais de um réu, os prazos são ampliados.
Encerrados os debates, os jurados poderão solicitar esclarecimentos adicionais antes de se reunirem para votar, em sala secreta. A decisão será tomada por maioria dos votos.
Se os jurados reconhecerem a materialidade do crime e a autoria, ainda deverão se manifestar sobre eventual absolvição, causas de diminuição de pena ou qualificadoras. Ao final, o juiz proferirá a sentença com base na decisão do Conselho de Sentença.
O quarto elemento
Segundo as investigações, uma quarta pessoa foi identificada como participante do crime: Ryan Patrick Barboza de Oliveira. Segundo as investigações da Delegacia de Homicídios da Capital, ajudou a monitorar os passos de Rodrigo, inclusive no dia 26 de fevereiro de 2024, quando o homicídio aconteceu. A partir da análise do telefone do suspeito, a polícia descobriu que Ryan acompanhou Rodrigo e ficou no Centro da cidade até as 11h da manhã do dia do crime, sendo substituído posteriormente por Cezar Daniel Mondego de Souza e Eduardo Sobreira de Moraes.
Ryan foi preso por participar de outro crime que foi cometido pelo mesmo grupo, de acordo com a polícia: o assassinato do dono do bar Parada Obrigatória, Antônio Gaspaziane Mesquita Chaves.
Ele não será julgado nesta quinta.
Adilsinho foi alvo de mandado de busca
Adilsinho é alvo de buscas em operação sobre morte do advogado Rodrigo Marinho Crespo
Outro que é investigado por ligação com o crime, mas não será julgado nesta quinta é o bicheiro Adilson Oliveira Coutinho FIlho, conhecido como Adilsinho, preso no último dia 26 em outras investigações.
No dia 9 de abril de 2024, policiais cumpriram mandados de busca e apreensão contra Adilsinho relacionados à morte de Crespo.
A defesa de Adilsinho afirmou que ele "nega qualquer envolvimento com os fatos noticiados, não tendo qualquer relação com o contrabando de cigarros ou assassinatos, repudiando a vinculação de seu nome aos referidos eventos. Reitera confiança na Justiça e afirma que comprovará sua inocência". A nota foi assinada pelo advogado Ricardo Braga.
Investigados pela morte do advogado, Machado, Mondego, Sobreira e Ryan também foram indiciados por participação em outro crime investigado com possível atuação da máfia dos cigarros de Adilsinho: a execução do empresário Thiago Trigueiro Gomes, de 37 anos, em São Gonçalo, na Região Metropolitana do Rio.