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Já sabe que também nos pode acompanhar com imagem através das nossas redes sociais ou pelo site do Observador. Carla, esta manhã estão conosco o José Manuel Fernandes e o Miguel Santos Carrapatozo. Esta manhã temos acumulação de funções, temos convites e temos também a lei laboral.
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Miguel, a reunião de hoje entre André Ventura e Luís Montenegro pode ser decisiva? Mas sim, tivemos mais um capítulo deste longo fritinho, e aqui André Ventura, eu poderia dizer de forma surpreendente, mas em rigor e com franqueza, não acho que seja muito surpreendente a transformação de André Ventura. Ele já nos foi habituando em vários processos negociais a começar com linhas vermelhas carregadíssimas, com declarações inflamadas sobre como não aceitará, como não abdicará de certas bandeiras, ou é assim como ele pretende ou não há acordo com o PSD, e paulatinamente vai deixando cair algumas das exigências até finalmente dar o sim ao governo.
Não se trata aqui de criticar o espírito de compromisso de André Ventura, acho que faz falta. A política é assim mesmo, é a arte do possível. Os partidos têm de fazer compromissos, têm de fazer cedências, naturalmente.
O que está aqui em causa é a forma como sistematicamente André Ventura começa por dizer uma coisa, começa por dizer que jamais aceitará determinado aspecto de uma negociação em concreto e depois vai deixando cair todas as declarações inflamadas que fez. Agora, a questão da idade da reforma, não vos vou maçar com as várias declarações que André Ventura fez sobre o tema, mas já se percebeu que agora o líder do Chega pede um calendário, mas ao mesmo tempo pede que o governo dê um compromisso de que pelo menos a idade da reforma não aumentará nos próximos anos. Já estamos a ver André Ventura preparar todo o guião para aprovar a reforma laboral do governo. Leia também: Mazrou no ginásio ganha destaque após novo desdobramento em esta transcrição
E eu acho que a determinada altura temos de aplicar ao Chega e a André Ventura os mesmos critérios que aplicamos aos outros partidos. Se há um partido que entra numa negociação a dizer que jamais aceitará ceder num ponto e depois cede, e estou a pensar muito no que aconteceu durante a geringonça com o Bloco de Esquerda e com o PCP, em que nós nestes espaços de opinião e nas páginas dos jornais íamos dizendo que Bloco e PCP estavam a ceder em toda a linha, estavam a meter na gaveta as convicções e estavam no bolso do Partido Socialista, também temos de ir aplicando o mesmo critério ao Chega e a André Ventura, por uma questão de justiça. Acho que André Ventura não pode, no início de um processo negocial, dizer que a reforma é má, que o outsourcing é uma coisa selvagem, que o governo tem de baixar a idade da reforma porque não está a pensar nos mais jovens.
E depois se, como parece ser o desfecho mais do que provável, quando aceita abdicar de tudo aquilo que defendeu, temos de dizer as coisas como elas são. André Ventura muitas vezes dá a sensação de que para ele é mais importante uma reunião em São Bento do que propriamente aquilo que defende publicamente e aquilo que é votado pelo próprio partido, porque este tema foi votado pelos órgãos internos do Chega. Aqui o meu ponto é mesmo esse, por uma questão de justiça, aplicar o critério que se aplicava ao Bloco e ao PCP, ao Chega e a André Ventura, pela forma como se vai comportando nestas negociações.
Não é a primeira vez e não será seguramente a última. Já agora sobre o governo, também é importante ver até que ponto, que preço estará disposto a pagar o governo nesta questão, porque é uma questão estrutural aceitar um compromisso para não aumentar a idade da reforma ou mesmo aceitar um calendário para descer a idade da reforma, vai contra muito aquilo que muita gente no PSD defende. E o que é que o PSD defende em termos de sustentabilidade da ação social?
Não se pode andar. Inclusive especialistas que o PSD nomeou para liderar o grupo de trabalho que vai ou que deveria estar a estudar a reforma da Segurança Social. Portanto, vamos ver qual é ou se o governo está disposto a pagar este preço.
Não pode. Eu diria que Luís Montenegro não pode nunca, nem travar a aplicação do fator de sustentabilidade. A criação e a aplicação do fator de sustentabilidade foi a melhor coisa das poucas que foram feitas nos últimos 30 ou 40 anos para contribuir para que a degradação da demografia ou do impacto da demografia fosse mais- Mais de noticia
E é um compromisso generalizado. Está em aplicação. Foi uma coisa feita em 2006 por Vieira da Silva no governo de Sócrates, entrou em vigor, é aplicada automaticamente todos os anos, não há manipulação política com a idade da reforma.
Por que se criam estas coisas e por que se criou também uma lei que define preto no branco qual a evolução das pensões de reforma todos os anos? Precisamente para evitar a manipulação política partidária eleitoral destas coisas. Eu tendo a acreditar que o PSD não mudará de ideias, nem mudou de ideias em relação- Eu espero que não, senão o PSD, se já há pessoas com dúvida sobre a matriz ideológica deste PSD, eu acho que isso vai ser a machadada final.
E ficamos a saber que temos a liderar o governo um partido que Histórico, que para ceder a um dossiê que até pode ser importante à lei laboral, não vou pôr isso em causa, cede ao mais básico populismo contra aquilo que é a sua matriz. José Manuel. Primeiro, é verdade aquilo que o Miguel disse sobre o Chega, mas o eleitorado do Chega, a forma como se vota no Chega, obedece a critérios e a juízos que nos escapam muitas vezes. Leia também: argentina vs cabo verde: o que muda após brasileiros são os que mais apitam
E portanto, este lado analiticamente errático de André Ventura é capaz de não perturbar assim tanto o seu eleitorado, porque basicamente o que ele quer é conquistar pontos e de alguma forma já marcou o seu ponto. " Eu defendo os trabalhadores, defendo a idade da reforma, defendo isto e aquilo".
E eu suspeitaria, não sei como é que isto vai acabar, que mais do que ficarmos com alterações substantivas à atual lei, que precisa ser revista, mas precisamente no sentido contrário àquele que é previsto por André Ventura, ele talvez consiga levar pra casa algum brinde do tipo limitar a idade da reforma em algumas profissões muito específicas e muito limitadas. Mas estou aqui para ver. Portanto, é uma coisa que não se falou ainda.
Sabemos que o André Ventura, em algumas profissões, bombeiros, por exemplo, ou polícias, é sempre muito vocal. Pode ser que se trouxerem dali alguma coisa, se dê por satisfeito e já pode entrar foguetes e dizer que defendeu os seus e, no fim, permitir que o governo avance com a reforma. Mas isso eu estou a especular completamente, não sei se isto vai acontecer.
Acho que há um lado na forma como se comporta André Ventura e a forma como ele se relaciona com o eleitorado, que é parecido com aquilo que a gente passa todos os dias a ver em Donald Trump. Tem linhas vermelhas que mudam todos os dias e isso não parece, no seu core eleitoral, perturbar muitas pessoas, aparentemente. Vamos dar notas, Miguel?
Vais dar nota ao Chega? Vou dar um 10, no sentido de que não sabemos com franqueza como é que vai acabar este processo negocial. No limite, André Ventura pode dizer que não viabiliza esta reforma laboral e mantém as suas convicções e as suas linhas vermelhas, mas é um 10 também à condição, porque de facto o José Manuel tem razão, isto belisca pouco o eleitorado do Chega, isso estou completamente de acordo, tem beliscado pouco o eleitorado do Chega, mas aqui eu defendia mais um critério objetivo: se um líder, seja ele qual for, muda de convicções do dia pra noite, aqui estamos nós também para dizer que o rei vai nu e, portanto, André Ventura ou bem que mantenha as suas convicções ou bem que não as tem.


