A vitória de Ana Paula Renault no BBB 26, na noite desta terça-feira, foi o ápice previsível de uma trajetória que, se não tornou a jornalista mineira uma unanimidade nacional, entregou o que os espectadores queriam e aquilo de que a Globo precisava para revitalizar o reality —pulso firme, coerência e dedicação ao chamado "jogo". Coroada pelos votos de 75,94% do público, Ana Paula passou por maus bocados nos últimos dias, e isso pode ter sensibilizado parte da plateia pela forma com que foi televisionado. Ela descobriu ser finalista no mesmo dia da morte de seu pai, pouco antes da eliminação de Leandro Rocha, o Boneco.
O baiano saiu sem saber do luto da "sister", mas ela logo deu a notícia para sua melhor amiga na casa, a recreadora Milena Moreira —que acabou em segundo lugar, ganhando R$ 150 mil—, depois de tê-la confidenciado ao dançarino Juliano Floss —em terceiro lugar, com R$ 50 mil. A partir dessa abertura, a tristeza ecoou no apresentador Tadeu Schmidt, que tentou, entre lágrimas, confortar a participante na transmissão ao vivo de domingo, relatando a morte de seu irmão, Oscar. O Brasil chorou, mesmo que parcela dos espectadores mais vocais nas redes tenha reclamado da forma como o programa lidou com a situação.
Mas Ana Paula decidiu aguentar mais um pouco para ver quem embolsaria os R$ 5,7 milhões. É um gesto compreensível para quem, estrategicamente, percebeu ter conquistado o público, dez anos atrás, quando foi expulsa por uma agressão quando estava bêbada, e que soube driblar uma passagem nada memorável pela Fazenda, em 2018, que terminou com críticas dela à Record e à edição do reality rural. Ao longo do BBB 26, Ana Paula foi mostrando que a direção acertou ao reviver antigos participantes —como Sol Vega, Alberto Cowboy, Jonas Sulzbach, Sarah Andrade e Babu Santana— e combiná-los numa salada de anônimos e famosos de diferentes gerações —do novinho Juliano à atriz Solange Couto, dos tempos de Osvaldo Sargentelli.
Apesar de nem sempre ter a razão ou ser a mais agradável e carismática da casa, Ana Paula aprendeu que o público não é bobo nem vai acabar com um participante apenas pelas besteiras que falou no passado. Seus pares foram os melhores exemplos disso. Sol Vega zombou da expulsão de Ana Paula no BBB 16 e acabou, ela mesma, eliminada por berrar e agarrar a rival.
Babu Santana era um dos favoritos do BBB 20 pelo seu jeito sincero e relaxado, que conseguiu reproduzir nesta edição, pelo menos até adotar uma postura mais agressiva e rachar com sua então aliada, Ana Paula —acabou eliminado com quase 70% dos votos. Outra parceira do ator, Solange Couto, já era conhecida, antes do programa, por ser desbocada e pelas opiniões conservadoras. Demorou para ir a um paredão, mas, quando saiu, com rejeição de 94%, viu que sua derrapada se deu por uma declaração rápida, mas que indignou as redes. Leia também: Morre o ator Ricardo de Pascual, que trabalhou em 'Chaves' e 'Chapolin', aos 85
Afirmou que Samira Sagr era "infeliz" porque havia nascido de uma "trepada mal dada", um "sarro de trem". Depois, em ocasiões distintas, Breno Corã e Couto também zombaram de Ana Paula pelo fato de ela não ter filhos. "
Quando Deus não deu filhos a ela, é porque sabe que ela não teria capacidade de amar alguém, já que ela não gosta de gente. Um filho seria gente. Ela daria o alimento do próprio corpo?
", disse a atriz. Pelos quartos, Ana Paula chegou mesmo a dizer que não "gostava de gente" pelas expectativas que depositava nas pessoas, mas que sabia escolher seus aliados. Não à toa, tia Milena e Juliano chegaram à final.
" Todo mundo não quer jogar comigo aqui, tem que trazer uma coisa externa minha. Sobre minha posição política, religião, minha posição social. Mais de entretenimento
Por que não jogam comigo aqui dentro? ", disse Ana Paula. Talvez um dos grandes méritos da mineira tenha sido, além das suas alianças, entender que as redes não deixam escapar nada e se blindar contra possíveis ataques, peitando seus oponentes, mas deixando que eles caíssem por si.
O primeiro desentendimento dela foi com a dançarina Aline Campos, que lembrou ter sido criticada por Ana Paula, em 2016, por um look que a jornalista chamou de "vibe executiva de filme pornô". A mineira reconheceu o comentário machista e se desculpou; já Aline, logo desgastou sua imagem com disputas banais —queria mais ovo, tofu etc.— e foi a primeira eliminada da edição. Depois, foi a vez de Pedro Henrique Espindola cutucar as crenças políticas e religiosas de Ana Paula, sugerindo que ela teria feito um "trabalho" para que ele engasgasse —a mineira se diz católica, espiritualista e filha de Xangô com Iemanjá. Leia também: Rapper D4vd, acusado de matar adolescente,: o detalhe que mais repercutiu
Já Pedro, que se identifica como evangélico, acabou desistindo pouco depois por assediar Jordana Morais na despensa, e agora processa a Globo por danos morais. Depois foi a vez do gaúcho Matheus Moreira ser eliminado após uma série de atitudes consideradas homofóbicas e por ter dito que Ana Paula era "patroa" de Milena, comentário entendido como racista. Também não pegou bem para Alberto Cowboy ter citado o pai da mineira durante uma discussão, sabendo que ele passava por graves problemas de saúde.
Ana Paula, enfim, soube chamar a atenção para si nas horas certas e manipular os acontecimentos a seu favor. Não fez tudo sozinha —a amizade com Milena, caótica e serelepe, ajudou bastante. De dentro, alguns rivais a rotulavam de "cobra".
Pela sua esperteza, pode até ter sido. Mas sua vitória mostra que o espectador quer tudo, menos uma planta ou uma santa. Comentários
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