Violência contra a mulher: como agressões afetam físico e mental — e por que são uma crise de saúde pública Assédios, ataques físicos, sexuais e feminicídios cometidos por homens não são só crimes: são uma epidemia silenciosa que adoece e mata milhões de brasileiras “
O namoro sempre foi conturbado, mas ele dizia que o ciúme excessivo era demonstração de amor”, conta Juliana Soares, de 35 anos. Bonitos e vaidosos, ela e o então companheiro Igor Cabral, ex-jogador de basquete, se conheceram numa academia de Natal, no Rio Grande do Norte. Treinavam juntos, iam ao cinema, se davam bem.
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Mas, nos fins de semana, quando o álcool entrava na história, a mudança era nítida. “Comecei a agir igual a ele, achando que as reações exageradas eram a condição natural de um relacionamento”, relata a jovem. Eis que, em um sábado como qualquer outro, após irem se divertir na piscina do condomínio, mais uma discussão por ciúme começou.
Dentro do elevador, ao perceber o estado agressivo do namorado, Juliana o alertou para que não fizesse nada, já que havia câmeras no local. “Ele olhou, deu tchau para a câmera e começou a me espancar. ” Foram 61 socos.
Juliana precisou passar por duas grandes cirurgias de reconstrução facial e hoje carrega sete placas de titânio e 31 parafusos no rosto. O agressor foi preso em flagrante. Passados dez meses do pesadelo, a estudante relembra que a violência não surgiu do nada: o ex-namorado já havia quebrado seu celular de propósito, e discussões acaloradas, inclusive com empurrões, já haviam acontecido. Leia também: Surto de ebola ganha destaque após novo desdobramento em surto de ebola: com 80
“Mas, quando você está vivendo a situação, nunca imagina que a pessoa que diz que te ama é capaz de fazer aquilo. ” Hoje, passando por acompanhamento psicológico e psiquiátrico, Juliana decidiu transformar a própria história em instrumento de proteção para outras mulheres, tornando-se ativista da causa.
Está, inclusive, abrindo um instituto para oferecer assistência jurídica e psíquica a vítimas de violência. “É preciso mudar a realidade de outras mulheres enquanto é tempo, porque a vida nem sempre dá uma segunda chance”, finaliza. Juliana é uma entre milhões.
E os casos chocam, como o de Alana Rosa, que levou mais de 30 facadas em casa, em São Gonçalo (RJ), após recusar um pedido de namoro; o da adolescente de 17 anos que foi estuprada por cinco homens em seu apartamento no Rio de Janeiro; o de Tainara Santos, de 31 anos, que foi atropelada pelo ex-companheiro e arrastada por mais de 1 quilômetro, em São Paulo, tendo que amputar as duas pernas e morrendo em seguida; ou o da freira Nadia Gavronsky, de 82 anos, estuprada e morta por um homem dentro do convento onde vivia, no Paraná. Não existe um perfil de vítima: a violência contra a mulher atravessa idade, classe social, religião, território… tudo.
E os números atuais retratam uma escalada: no ano passado, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) informou que foram requeridas quase 950 mil medidas protetivas de urgência, instrumento da Lei Maria da Penha, que visa proteger mulheres em risco de violência. De acordo com a Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher, quase 4 milhões de brasileiras sofreram com ataques diretos de gênero em 2025. E esses dados são subestimados.
Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 1 568 feminicídios ocorreram no país ano passado, contando registros oficiais das polícias. Já o Relatório Anual de Feminicídios no Brasil 2025, que considera monitoramento de mídia, tribunais e registros diversos, elaborado pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), aponta para 2 149 vítimas. Para além de um problema de segurança individual, a violência de gênero já constitui uma grave questão de saúde pública. Mais de saude
Somadas às jornadas duplas de trabalho, mulheres ainda convivem com o medo de serem violentadas por homens cotidianamente: na rua, no emprego ou dentro de casa. Esse estado permanente de tensão e os traumas sofridos se traduzem em uma epidemia silenciosa que adoece, exaure e corrói a vitalidade física e mental delas. “A violência de gênero não afeta só a esfera pessoal”, diz o médico Lucas Naufal, coordenador do Programa de Assistência Multiprofissional à Violência Doméstica (Provid) do Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP.
“Essas mulheres têm menor inserção no trabalho, vão mais a serviços de saúde e revelam uma série de complicações que afetam toda a sociedade”. Preservar a integridade feminina depende de entender a origem, as feridas e o que de fato pode ser feito para interromper esse ciclo nefasto. +
Mas, afinal, por que os homens agridem as mulheres? Para responder a essa pergunta, é preciso partir de um ponto central: a violência está profundamente ligada à cultura, não à biologia. Buscando entender essa fronteira entre natureza e construção social, Margaret Mead, uma das antropólogas mais influentes do século 20, investigou três sociedades da Nova Guiné. Leia também: BetMGM e o vício: saúde mental em jogo
Dentre os Arapesh, um povo pouco agressivo e voltado ao cuidado, todas as pessoas eram cooperativas e afetuosas, independentemente do sexo. Já entre os Mundugumor, marcados por relações mais competitivas e agressivas, ambos os sexos se mostravam emocionalmente duros. Por fim, entre os Chambri, as mulheres ocupavam posição econômica central, eram práticas e organizadoras;
enquanto homens apareciam como figuras ornamentais, emocionalmente expressivos e preocupados com estética e socialidade. A conclusão, registrada na obra Sexo e Temperamento em Três Sociedades Primitivas, de 1935, é clara: o que se chama de “temperamento masculino” ou “feminino” varia radicalmente de cultura para cultura. Em outras palavras, não existe uma correspondência automática entre anatomia e comportamento, nem entre sexo biológico e destino social.
A forma de agir é aprendida, e aquilo que uma sociedade lê como natural, é, na verdade, histórico e cultural. Décadas depois, o historiador americano Thomas Laqueur, que investigou profundamente como a medicina, a anatomia e a ciência descreveram os corpos ao longo dos séculos, reforçou esse entendimento. Na obra Inventando o Sexo: Corpo e Gênero dos Gregos a Freud, de 1990, ele conclui que a sociedade ocidental primeiro definiu os lugares sociais (quem manda, quem obedece, quem cuida, quem participa da vida pública) e só depois interpretou o corpo humano para justificar essa divisão.
Foi no mundo moderno, explica Laqueur, que passou a predominar a ideia de que homens e mulheres seriam biologicamente opostos, dotados de aptidões, desejos e funções sociais distintas. Ao longo dos séculos, essa leitura serviu como ferramenta de poder e controle do corpo feminino. “
Desde a maternidade, sem perceber, criamos o menino para ser forte, lutar, jogar futebol, enquanto a menina precisa ser tranquila, doce e contida”, afirma a antropóloga Heloisa Buarque de Almeida, professora da USP. + Assim, as brincadeiras das meninas contam com boneca e panelinha, pois elas são ensinadas a cuidar, enquanto os meninos podem ter hobbies e outros interesses.

