Policial 'Caso 137' e 'Falha de Cobertura': o que ver na TV e no streaming
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Bruno Ghetti
Rio de Janeiro
Vik Muniz estava na Holanda, trabalhando em um projeto em que usaria flores como matéria-prima, quando soube do incêndio que quase destruiu o Museu Nacional, no Rio de Janeiro, em 2018. Ficou tão comovido com a notícia que pressentiu que, em breve, abandonaria as pétalas para usar cinzas como objeto de trabalho.
No caso, os restos de objetos do acervo que se perderam, tentando recriá-los por meio de sua arte. Fez isso, por exemplo, com as cinzas recuperadas de Luzia, o mais antigo hominídeo do continente americano, cujos fragmentos do crânio encontrados em Minas Gerais na década de 1970 datam de cerca de 12 mil anos.
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Com base em fotos, redesenhou Luzia com sua própria poeira e depois fotografou o resultado. Essa obra e mais dez fotografias de recriações de outras peças, além de nove esculturas feitas de resina misturada a cinzas, estão expostas na mostra "Rescaldo das Memórias", em cartaz no Museu Nacional. As réplicas foram desenvolvidas com ajuda tecnológica do Laboratório de Processamento de Imagem Digital do Museu Nacional, o LAPID, da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
"Eu preferia que eu nem tivesse tido a ideia", diz Muniz, ao lembrar ainda hoje da crise de choro que teve ao tomar ciência do incêndio, em um lugar que ele conhecia tão bem.
"Mas eu acho que tem um aspecto, depois de um tempo, quando você incorpora a arte na sua vida, que vira uma coisa até um pouco terapêutica. Você começa a desenvolver projetos baseados em coisas que estão te perturbando de alguma forma. E nem sempre essas coisas são legais, prazerosas, mas você tenta resolvê-las da maneira como você consegue, por meio de trabalho, de prática." Leia também: Policial 'Caso 137' e 'Falha de Cobertura': o que ver na TV e no streaming
Muniz tinha uma afinidade especial com o museu. "Eu levava os meus filhos para lá, muitas vezes. Então foi uma coisa pessoal também, junto com essa perda nacional e mundial", diz. Outro destaque entre as esculturas está uma boneca Ritxoko da etnia karajá, modelada a partir de um exemplar recuperado logo após o incêndio, e uma outra versão de Luzia, em escultura, também feita com resina e algumas cinzas.
Mas a exposição no Museu Nacional não é o único local onde Muniz tem destaque atualmente, no Rio. No Centro Cultural Banco do Brasil, o CCBB, há uma retrospectiva com grande parte do seu trabalho —"Vik Muniz: A Olho Nu" reúne mais de 220 obras, de 43 diferentes séries, entre fotografias e esculturas, englobando desde seus primeiros instantes do artista, ainda na década de 1980, até suas produções mais célebres, como "Medusa Marinara", de 1997, registro fotográfico de um desenho da personagem mítica feito por Muniz em um prato de macarrão e molho de tomate.
Tanto a exposição do Museu Nacional quanto a do CCBB têm como curador Daniel Rangel. "É muito interessante a gente estar com essas duas exposições em cartaz, porque elas são praticamente opostas", diz Rangel, referindo-se sobretudo ao processo de escolha do que integraria cada uma. No caso de "’Rescaldo das Memórias", foi preciso começar do zero a criação das obras, enquanto em "A Olho Nu" houve a necessidade de se chegar a algo próximo a 10% da fecunda produção do artista.
"E ele nunca tinha trabalhado com curador. Todas as individuais que o Vik fez na vida, ele mesmo que organizou. Há mais ou menos três anos eu comecei a instigar Vik a pensar em fazer uma exposição um pouco diferente das que ele vinha acostumando fazer", diz Rangel. Mais de entretenimento
"Acho que o primeiro grande ponto de diferença que a curadoria realmente fez foi propor, pela primeira vez, que Vik expusesse as esculturas dele ao lado das fotografias. Isso era algo que ele nunca tinha feito e que ele nunca nem tinha pensado em fazer; ele achava que eram dois trabalhos completamente diferentes."
A exposição retrospectiva tem tido grande sucesso de participação do público, já ultrapassando a marca dos 100 mil visitantes, desde a abertura em maio. Com notável presença de crianças, que visitam a mostra estimuladas pelos pais, mas cujo interesse pela obra de Muniz se dá por um certo aspecto lúdico da própria natureza de parte da sua obra, que usa para a composição de imagens materiais como geleia e pasta de amendoim, lixo e mesmo diamantes.
"A obra de arte acontece no encontro entre o espectador e a obra. Como eu venho de um 'background' de quem não teve acesso a arte na minha casa, na infância, me preocupo com isso", diz Muniz. Leia também: noruega x senegal palpite: o detalhe que mais repercutiu
"Eu privilegio uma iconografia que permeia o consciente imagético da massa —gosto de trabalhar com imagens que todo mundo já viu. Elas são arquétipos, ícones, até estereótipos. Mas eu estou trabalhando com o psicológico do espectador e tentando ter um alcance e uma linguagem acessível que tanto uma criança quanto um crítico de arte podem acessar. Usando esses materiais, que são muito comuns, eu tento desmistificar o que separa o espectador do objeto de arte."
No ano que vem, Muniz completa 40 anos desde que abriu sua primeira exposição. Olhando em retrospecto, ele ainda se surpreende com a própria trajetória. "Eu às vezes não sei como eu cheguei até aqui. Eu me surpreendo o tempo todo. E tudo foi feito de forma instintiva; jamais fiquei fazendo uma arquitetura de uma carreira, tanto que, quando eu comecei, eu não sabia sequer que isso podia ser uma carreira, que se poderia viver de arte e de ideias."
Mas não vê a retrospectiva como um mero ápice da carreira. "Tento fazer dessa exposição uma ferramenta de continuidade. Para você ver de onde está vindo e observar para onde vai", diz.
Vik Muniz – A Olho Nu
- Quando Qua. a seg., das 9h às 20h. Até 7 de setembro
- Onde CCBB RJ - r. Primeiro de Março, 66, Rio de Janeiro
- Preço Grátis
Rescaldo das Memórias – Vik Muniz
- Quando Ter. a dom., das 10h às 16h. Até 30 de agosto
- Onde Museu Nacional - Quinta da Boa Vista, Rio de Janeiro
- Preço Grátis
- Link: https://www.sympla.com.br/evento/exposicoes-temporarias-no-museu-nacional-2026/3462785
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