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'Valsa nº 6', único monólogo de Nelson Rodrigues, volta com pulso feminista

São Paulo A montagem de "Valsa nº 6" pelas mãos do diretor Jorge Farjalla , mostra como a força de um clássico se renova quando ele encosta nas urgências de agora

'Valsa nº 6', único monólogo de Nelson Rodrigues, volta com pulso feminista e
São Paulo

A montagem de "Valsa nº 6" pelas mãos do diretor Jorge Farjalla, mostra como a força de um clássico se renova quando ele encosta nas urgências de agora. Longe de ser uma mera remontagem, o espetáculo, que estreia nesta sexta-feira (3), propõe uma leitura viva, que joga luz sobre feridas sociais latentes e transforma o ato teatral em um exercício partilhado de escuta e denúncia.

Único monólogo de Nelson Rodrigues, a peça acompanha Sônia, uma adolescente de 15 anos que, já morta, tenta colar os pedaços de suas memórias para reconstruir a própria vida e o próprio assassinato. A engenhosidade trágica de Nelson sempre esteve em dar o protagonismo à vítima, e não ao crime ou ao algoz.

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Farjalla, contudo, radicaliza esse gesto ao mirar de frente o abuso e a violência contra mulheres e crianças. O texto rodriguiano vira vetor para escancarar a cultura do silenciamento e a opressão que continuam a interromper a vida de tantas "Sônias" pelo país. É essa escolha que dá à montagem seu caráter marcadamente político, transformando a cena em território de reflexão e acolhimento.

Essa leitura se materializa na própria física do espaço. Ao dispor o público em uma arena de apenas 40 cadeiras posicionadas em cima do palco, Farjalla dita a chave estética da peça. A proximidade radical entre a atriz e a plateia anula a distância segura do espectador comum. Ali, ninguém assiste de longe.

Todos viram testemunhas oculares do delírio e do trauma de Sônia, dividindo com ela a palavra e o desconforto. Essa imersão é potencializada pelos elementos técnicos, como a trilha eletroacústica imersiva e a iluminação de Gabriele Souza, que envolve e atordoa. Leia também: Taylor Swift e Travis Kelce

A direção musical de Gui Leal e o desenho de som de Tocko Michelazzo, colaboradores de longa data do diretor, reforçam a solidez da equipe criativa, que já demonstrou sintonia em trabalhos anteriores.

Para sustentar essa voltagem, a escolha de Carol Costa no papel principal se mostra certeira. Parceira de Farjalla em musicais como "Clara Nunes– A Tal Guerreira" e "Ópera do Malandro", a atriz deixa de lado as grandes massas sonoras para ancorar a complexidade e a imensa fragilidade que a personagem exige. Sem filtros ou artifícios, o que vemos em cena é uma menina real, com seus medos e silêncios. Mas há também a atriz, a mulher— e, através dela, todas as mulheres. É humano, simples e avassalador.

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… Jorge Farjalla

É um texto que me persegue. Li pela primeira vez aos 12 anos e cheguei a propor um projeto de encenação na faculdade, aos 19. Mas a centelha para esta montagem acendeu recentemente, quando vivenciei de perto relatos de abusos sofridos por pessoas muito próximas. Quando reli o texto sob esse impacto, percebi que não via mais a Sônia como a "louca" que eu idealizava na adolescência. Ela é uma pessoa traumatizada que se fragmentou para sobreviver ao abuso. Mais de entretenimento

Percebi que a maioria das montagens foca no assassinato, e não na violência psicológica e sexual que a antecede. É um susto ver que um texto de 1951 chega a 2026 com um peso ainda maior. Por isso, propus à Carol Costa que parássemos o texto em alguns momentos para dialogar com o agora. Deixou de ser apenas uma peça, virou um manifesto.

Sempre vi a "Valsa" como uma conversa confessional, um relato olho no olho. Inicialmente, pensei em uma cenografia barroca, com um piano de cauda pendurado no teto, bem a minha cara. Mas desisti de tudo. Cortei a "pirotecnia farjalliana" para voltar à minha essência: o teatro de pesquisa, focado no corpo do ator. O espaço reduzido desarma as distâncias tradicionais do palco.

Quando a Carol pede licença para tirar o sapato de um espectador ou sussurra algo, ela altera a pulsação da plateia. Queremos acolher o público para que ele abrace a Sônia, mas também queremos o incômodo. A Sônia ali é um espelho de todos nós, pois o abuso, seja físico ou psicológico, de alguma forma contorna a experiência humana. Leia também: jogos da copa amanhã

Para intensificar isso, a luz da Gabriela Castro e o desenho de som eletroacústico do Gui Leal trabalham na repetição obsessiva de poucas notas da valsa, mimetizando o que acontece na mente dela.

O texto original traz várias vozes através do fluxo de consciência da protagonista. Como vocês construíram essa hibridez e a atualização da obra no processo de mesa?

É um jogo de espelhos metateatral. Eu pedi para a Carol escrever os momentos em que ela, como mulher de hoje, precisava romper a ficção e falar. Afinal, eu sou um homem dirigindo, precisava da perspectiva e do estômago dela diante das notícias diárias de violência. Na nossa leitura, descascamos as camadas da personagem: a Sônia é uma menina burguesa, fala cinco idiomas, toca Chopin.

Mostrar que isso acontece nessa esfera desmonta o mito de que a violência ocorre apenas à margem da sociedade. Outra decisão crucial foi entender que os outros personagens— o médico, o pai e Paulo— não são caricaturas que ela interpreta, mas sim projeções mentais distorcidas na cabeça dela de quem a violou dos 12 aos 15 anos. É ela sacaneando e confrontando os seus algozes.

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