← Política
1 pessoa lendo agora Política

Universidades replicam antagonismo político em ano eleitoral com relatos de

Do outro lado da linha, a professora de história da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) avisa ter tomado um ansiolítico antes de dar o relato a seguir

Universidades replicam antagonismo político em ano eleitoral com relatos de

Do outro lado da linha, a professora de história da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) avisa ter tomado um ansiolítico antes de dar o relato a seguir. Ela prefere não se identificar, temendo represálias. Aconteceu em novembro passado.

O departamento estava em reforma curricular, e os alunos queriam incorporar os estudos de gênero e de raça às matérias. O objetivo, eles diziam, era conectar a grade do curso à realidade dos estudantes. A professora se posicionou contra a proposta, afirmando que a sua disciplina não trata de assuntos do presente.

Leia no AINotícia: Lula critica elo de Flávio Bolsonaro

Numa reunião, disse que as questões pessoais de cada um deveriam ser abordadas na psicanálise. O alunato, ela lembra, escreveu uma nota de repúdio, acusando-a de ter uma "postura elitista e descolada das demandas concretas de quem vive e estuda em universidade pública. "

A meses da corrida eleitoral, a universidade torna-se território conflagrado, alvo de disputas, que replicam a polarização da política nacional. Professores publicaram um manifesto, relatando episódios de censura e de interdição do debate, com constrangimentos e até agressões físicas. Segundo eles, as tentativas de silenciamento partem da direita e da esquerda, em um contexto de intolerância.

Há, porém, outro grupo de docentes que nega existir censura crescente na academia. Em um contra-manifesto, denunciam, ao contrário, o ressentimento de alguns professores diante da entrada de novos segmentos sociais na universidade. " Leia também: Comissão da Câmara retira mecanismos de rastreabilidade do programa Celular

Há uma percepção de que a crescente interdição do livre debate deve ser publicizada, sobretudo em um ano eleitoral, quando os ânimos ficam mais exaltados", afirma o cientista político Antonio Lavareda, professor da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco). " Extrema esquerda e extrema direita têm esse ponto em comum, a vocação ao autoritarismo.

" Lavareda é um dos signatários do primeiro documento, intitulado "Manifesto Pelo Pluralismo e Pela Liberdade Acadêmica", publicado no início do mês.

Mais de mil professores já puseram seus nomes no abaixo-assinado, que defende o dissenso como fundamento da produção científica. O manifesto também cita uma pesquisa da More In Common, organização não partidária e sem fins lucrativos, mostrando a desconfiança da sociedade em relação à universidade —54% dizem que lá se promove mais ideologia do que ensino de qualidade. O documento foi pensado a partir de um encontro de docentes de diferentes áreas, realizado em abril, no Centro Maria Antonia, da USP.

Eles propõem uma autorreforma da academia alicerçada em neutralidade institucional, pluralismo e liberdade. " Há uma disputa política pelo terreno da universidade, então acho que as administrações devem manejar isso para que a universidade não perca a sua missão", alerta Verônica Toste Daflon, professora de sociologia da UFF (Universidade Federal Fluminense).

" As investidas vêm dos dois lados, mas percebemos que a resposta institucional é mais célere quando vêm de um agente externo, quando vêm da direita. " Mais de politica

Daflon conta que o manifesto, também assinado por ela, foi publicado agora porque há uma percepção de censura crescente. Embora ainda esteja em andamento, a pesquisa "Restrições à Liberdade Acadêmica", realizada pela UFF em parceria com a USP e com a UFPR (Universidade Federal do Paraná), comprovaria a tese. Já são mais de cem casos analisados, de 2014 a 2026.

O estudo aponta uma tendência insólita. Enquanto o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) esteve no poder, o silenciamento partia, na maioria das vezes, da direita. Com a volta de Lula (PT) ao Planalto, o quadro inverteu-se.

A base de dados compila alguns episódios que se tornaram conhecidos nesta década. Em 2018, a tentativa de silenciamento partiu do governo Bolsonaro: o então ministro da Educação, Mendonça Filho, intimidou o professor de ciência política da Unb (Universidade de Brasília) Luis Felipe Miguel, que promoveu o curso " O Golpe de 2016 e o Futuro da Democracia no Brasil". Leia também: Panorama Político: Lula, Segurança e Inovações

Mendonça Filho acusou a disciplina de ter viés partidário e ameaçou acionar a AGU (Advocacia Geral da União). " Tudo isso ocorreu em desacordo com a liberdade de cátedra, a direita tentou impedir o meu curso na marra", lembra Felipe Miguel.

Na visão dele, há um pano de fundo para a demanda por mais pluralismo agora —e isso merece uma digressão. Tudo se inicia na segunda metade do século 20, com a crítica ao positivismo e ao cientificismo. Nas últimas duas décadas, diz, intensificou-se a inserção na universidade de outras formas expressivas, na crítica decolonial ou nos estudos de gênero, por exemplo.

Só que agora, afirma Miguel, o cumprimento de critérios científicos tradicionais é exigido a esses grupos, causando conflitos. Um exemplo, segundo ele, ocorreu, há dois anos, com a palestra " Educando com o cu", da historiadora Tertuliana Lustosa, na UFMA (Universidade Federal do Maranhão).

A atividade causou polêmica e foi cancelada. Seus defensores, porém, a valorizavam como a expressão de um outro saber. Voltando à rinha partidária, alunos da USP escreveram, em 2023, uma carta contra o retorno de Janaína Paschoal (União Brasil) à faculdade de direito.

Uma das autoras do pedido de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), Paschoal encerrava, naquela altura, mandato como deputada estadual por São Paulo. Ela nega que o impeachment tenha contribuído para aumentar o clima de intolerância. "

Comissão da Câmara retira mecanismos de rastreabilidade do programa Celular
Politica

Comissão da Câmara retira mecanismos de rastreabilidade do programa Celular

Ler matéria →

Leia também