Blog “Negociação deve ser consenso entre as partes, não imposição”, afirma reitor da USP Em entrevista, Aluisio Segurado fala sobre os fatos ocorridos nesta semana em relação às demandas do movimento estudantil e à invasão do prédio da Reitoria O reitor da USP, Aluisio Augusto Cotrim Segurado, concedeu, na tarde desta sexta-feira, 8 de maio, uma entrevista ao Jornal da USP a respeito dos últimos acontecimentos relacionados às demandas do movimento estudantil, que culminaram com a invasão e ocupação, no dia 7 de maio, do prédio da Reitoria, impedindo o acesso dos trabalhadores e o funcionamento das atividades administrativas da Universidade.
Na entrevista, Segurado, que, nesta semana, completou 100 dias de gestão ao lado da vice-reitora, Liedi Bernucci, fala, entre outros temas, sobre as reuniões de negociação realizadas com os representantes estudantis e as propostas apresentadas pela Reitoria, sobre os investimentos da Universidade nas ações de permanência estudantil, sobre o calendário escolar e a respeito da Gratificação por Atividades Complementares Estratégicas (Gace) concedida aos docentes. Acompanhe, a seguir. Jornal da USP –
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Como o senhor avalia a invasão dos manifestantes ao prédio da Reitoria? Aluisio Segurado – Entendemos esta ação como um ato de violência e agressão a um patrimônio público que nós, como instituição, temos a responsabilidade de zelar. Houve a derrubada do portão da entrada do principal prédio da Reitoria e, posteriormente, a derrubada das portas de vidro que dão acesso ao hall de entrada deste prédio, onde trabalham diversos servidores que atendem às Pró-Reitorias [Graduação, Pós-Graduação, Pesquisa e Inovação, Cultura e Extensão Universitária e Inclusão e Pertencimento] e órgãos importantes da Administração Central, todos eles impedidos de trabalhar neste momento.
A Universidade está sofrendo prejuízos com a interrupção de várias de suas atividades essenciais, tanto administrativas quanto acadêmicas. Isso vai muito além do direito de manifestação, que é legítimo a todos os cidadãos brasileiros e aos estudantes. Este ato suscitou manifestações de quase a totalidade de nossas Unidades, que já entraram em contato conosco apresentando moções de repúdio em relação a este ato inaceitável no convívio democrático.
Vivemos hoje em uma sociedade aberta e plural, muito diferente daquela que conheci quando entrei na USP há 51 anos, em um regime de exceção. A USP caminhou muito nessa direção, com políticas de ação afirmativa e de apoio à permanência estudantil, tornando-se uma comunidade mais diversa. Atos de violência e danos ao patrimônio público, como os observados ontem [dia 7/5], com invasão do prédio, derrubada de grades e arrombamento de portas de vidro, são incompatíveis com a vida democrática. Leia também: 20 anos dos Crimes de Maio
Ver alunos mascarados e encapuzados, ocultando seus rostos em um ato de violência, não é compatível com a vida acadêmica e não toleraremos isso como uma manifestação livre do direito de expressão. Jornal da USP – Qual a perspectiva para os próximos dias em relação a este cenário?
Aluisio Segurado – Em um primeiro momento, tentou-se fazer a contenção dessa invasão com a guarda universitária, mas, tendo sido constatado que isso não seria possível, acionou-se a Polícia Militar, que veio com a finalidade de cumprir o seu protocolo de contenção. Com isso, houve restrição dos espaços por onde podem circular esses estudantes e eles estão basicamente restritos ao hall de entrada.
A polícia está ali porque foi solicitada uma ação proporcional à dos estudantes, sem excessos, garantindo a segurança e a integridade física de todas as pessoas envolvidas, mas ao mesmo tempo buscando evitar maiores danos ao patrimônio público, haja vista que é nossa responsabilidade, como instituição pública, zelar pelo patrimônio da Universidade. O que nós estamos buscando é que a Polícia Militar nos ajude nessa mediação para a desocupação do espaço, para que a gente possa dar continuidade, o mais rapidamente possível, às atividades acadêmicas e administrativas. Jornal da USP –
Qual a avaliação da extensão do movimento de paralisação dos estudantes nos campi da Universidade? Aluisio Segurado – Este movimento de invasão ocorre no prédio central da Reitoria, mas a USP é muito ampla e atua em sete diferentes campi.
Atualmente, nós temos uma paralisação parcial de algumas unidades no campus do Butantã, no campus USP Leste e na área da saúde, em Pinheiros. Temos, também, paralisação parcial no campus de São Carlos. Nas demais unidades, localizadas nos campi de Lorena, Bauru, Piracicaba, Pirassununga e Ribeirão Preto, as atividades seguem normais. Mais de noticia
“Negociação deve ser consenso entre as partes, não imposição. Não cabe mais negociação quando uma das partes entende que ela só termina com o atendimento total de todas as demandas. A ocupação neste momento impede o funcionamento dos próprios grupos de trabalho que já poderiam estar avançando na busca de soluções para algumas dessas demandas”
Jornal da USP – Existe a previsão de nova rodada de negociação e prazo para a retirada dos alunos? Aluisio Segurado – Nós tivemos, desde o dia 14 de abril, mais de 20 horas de negociações com esses estudantes, e 25 representantes participaram das reuniões. Foram várias horas debatendo todas as suas demandas, que organizamos em três naturezas.
Primeiro, demandas pertinentes às questões estudantis e que poderiam já ser equacionadas, e foram. Nós estamos iniciando essa gestão reitoral, completamos os primeiros 100 dias de gestão, os estudantes sequer tinham tido tempo de conhecer bem o reitor, a vice-reitora e e a sua equipe. No entanto, acatamos várias dessas reivindicações e já encaminhamos porque as consideramos justas e passíveis de serem enfrentadas rapidamente. Leia também: Anvisa decide nesta quarta sobre suspensão de lotes Ypê após falhas
Segundo, demandas também pertinentes, mas que exigiriam estudos e avaliações orçamentárias para implementação ou articulação com órgãos colegiados das Pró-Reitorias. Essas foram encaminhadas por meio da constituição de grupos de trabalho. Há mais de sete grupos de trabalho constituídos, com representações estudantis indicadas pelos próprios alunos, para trabalhar no encaminhamento dessas medidas.
E, na verdade, a ocupação neste momento impede o funcionamento desses próprios grupos, que já poderiam estar avançando no atendimento ou na busca de soluções para algumas das demandas. E há um terceiro componente: demandas que nós não julgamos pertinentes e que não seriam passíveis de atendimento em hipótese alguma. Cito aqui a reivindicação referente ao aumento dos valores dos auxílios de permanência estudantil.
A USP tem o maior programa de apoio à permanência estudantil do Brasil e investe mais de R$ 460 milhões por ano em programas de apoio à permanência estudantil, tanto em auxílios financeiros para estudantes em vulnerabilidade socioeconômica quanto em programas de bolsas ligados a ensino, pesquisa, inovação, cultura, extensão, inclusão e pertencimento. Os valores dos auxílios financeiros vêm sendo reajustados anualmente desde a criação do programa, em 2022. Para este ano, nossa previsão orçamentária já contemplava um reajuste do auxílio integral para R$ 885.
Os estudantes apresentaram um estudo dizendo que esse valor não corresponderia integralmente à variação inflacionária desde 2022. Pedimos os dados, nossa equipe financeira analisou e apresentamos uma proposta final de correção baseada no IPC-Fipe, elevando o auxílio para R$ 912 na modalidade integral. Atendemos, portanto, à reivindicação apresentada inicialmente pelos estudantes.
Mas, imediatamente, eles passaram a reivindicar que o auxílio fosse elevado ao valor de um salário mínimo paulista, o que implicaria praticamente dobrar o valor atualmente ofertado, o que é absolutamente incompatível com o orçamento da Universidade. Essa reivindicação já lhes foi apresentada como impossível de ser atendida. No entanto, parece que a negociação, para eles, só se encerraria com o atendimento integral de todas as reivindicações formuladas.
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