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Quando líderes iranianos e altos comandantes militares prestaram homenagem ao líder supremo morto, aiatolá Ali Khamenei, no elaborado funeral de uma semana iniciado na sexta-feira, a cerimônia deveria servir como demonstração de força, resistência e unidade após a guerra contra os Estados Unidos e Israel.
Uma banda militar tocou um hino. Autoridades que não apareciam juntas em público desde o início da guerra, meses atrás, caminharam lado a lado: o presidente, o presidente do Parlamento, o chefe do Judiciário e os principais generais da Guarda Revolucionária.
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Chamou atenção, porém, a ausência do aiatolá Mojtaba Khamenei, que sucedeu o pai como líder supremo e não é visto em público desde sua nomeação, em março.
O momento ofereceu uma trégua em relação às semanas e dias que antecederam o funeral, quando autoridades graduadas do Irã e figuras políticas influentes travaram uma disputa aberta e feroz sobre as negociações com os Estados Unidos. Houve troca de acusações de delírio, traição, conspiração golpista, desobediência e manipulação do novo líder supremo.
“Cuspo nesta era em que matam nosso líder e depois falamos em paz com os Estados Unidos”, declarou recentemente em um ato em Teerã o estrategista ultraconservador Hassan Rahimpour-Azghadi. Em vez de negociação, ele defendeu vingança. Leia também: A nova aposta da Microsoft: ser o “canivete suíço” da IA corporativa
Mojtaba Khamenei tentou conter a turbulência com uma nota escrita em tom cuidadosamente calculado— movimento que acabou inflamando ainda mais os ânimos. Seus apoiadores mais radicais passaram a entoar em atos noturnos que só recuariam se o líder supremo aparecesse em público ou divulgasse uma gravação em áudio.
Ele não fez nenhuma das duas coisas. Ainda não está claro sequer se Khamenei, de 56 anos, participará de alguma cerimônia fúnebre do pai. Na quarta-feira, ele esteve ausente da homenagem realizada em Teerã para sua mulher, morta junto com o filho adolescente e outros parentes no primeiro dia da guerra, quando forças israelenses e americanas bombardearam o complexo da família.
Mesmo assim, os organizadores do funeral tentaram apresentar as cerimônias ao mesmo tempo como uma despedida do pai e uma demonstração de lealdade ao filho.
Dois integrantes da Guarda Revolucionária e uma pessoa envolvida no planejamento do funeral disseram, em entrevistas, que Khamenei informou a autoridades que deseja participar. Segundo eles, ele gostaria de comparecer ao enterro, marcado para quinta-feira, no santuário xiita do imã Reza, na cidade de Mashhad, e recitar a oração dos mortos sobre o corpo do pai. Em sua primeira manifestação pública desde que assumiu o poder, em março, Khamenei afirmou que viu o corpo do pai.
Os iranianos, que falaram sob condição de anonimato por não estarem autorizados a discutir publicamente preparativos tão sensíveis, disseram que autoridades de segurança rejeitaram até agora a ideia por temerem que Israel tente assassinar Khamenei durante a cerimônia ou rastrear seus deslocamentos até o esconderijo onde ele está. Mais de economia
Rachas entre conservadores
A ausência de Khamenei levantou dúvidas sobre quem realmente está comandando o país e permitiu que divisões extraordinariamente abertas se aprofundassem.
Recentemente, Mohammad Bagher Qalibaf, presidente do Parlamento, que liderou as negociações com os Estados Unidos e emergiu como figura-chave da política iraniana, foi abruptamente interrompido ao vivo na televisão e tirado do ar enquanto explicava detalhes do acordo de cessar-fogo.
O episódio desencadeou uma onda de reação, com pedidos de demissão do diretor da emissora estatal, indicado pelo Khamenei pai e ligado à ala ultrarradical. Leia também: Trump diz que Netanyahu pediu reunião na Casa Branca, afirma site
Há meses, a televisão estatal amplifica ataques contra a equipe negociadora. Em manifestações noturnas realizadas em praças de Teerã, conservadores passaram a defender que os negociadores sejam processados e até executados.
O chanceler Abbas Araghchi, que também participou das negociações, foi hostilizado ao visitar um santuário xiita no Iraque, onde organizava parte do funeral. Vídeos mostram peregrinos iranianos gritando “morte aos apaziguadores”.
O conhecido analista político ultraconservador Foad Izadi afirmou recentemente na televisão estatal que o governo e a equipe de Qalibaf são “estúpidos, sem cérebro” e “iludidos”.
O Irã sempre conviveu com rivalidades políticas intensas, que às vezes vinham a público. Tradicionalmente, porém, essas divisões opunham conservadores e reformistas— de um lado, os que buscavam preservar a ideologia religiosa e antiocidental da Revolução Islâmica; de outro, os que tentavam, muitas vezes sem sucesso, promover mudanças.
Agora, no vácuo deixado pela morte do antigo líder supremo, que concentrava poder absoluto sobre todas as decisões relevantes, os conservadores se dividiram. De um lado está a ala que se define como pragmática, argumentando que a sobrevivência do regime depende do fim das hostilidades com os Estados Unidos e da reabertura da economia. Do outro, uma minoria ultraconservadora rejeita qualquer concessão a Washington, inclusive em relação ao programa nuclear iraniano, e acredita que o país pode prevalecer prolongando a guerra.
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