Frente a Frente, programa da Folha e do UOL, entrevista o ministro Vinicius
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Daniela Arcanjo
Buenos Aires
Uma vitória de Keiko Fujimori, filha do ditador Alberto Fujimori, seria surpreendente para os peruanos, acostumados a rejeitá-la no segundo turno das eleições presidenciais desde 2011. Mas não chegaria a ser incomum entre os países que fazem parte da chamada terceira onda de democratização, após os anos de 1970.
Cerca de um quinto dessas nações elegeram ex-líderes autoritários ou seus filhos como presidentes ou primeiros-ministros, afirma o cientista político canadense James Loxton. O professor de política comparada da Universidade de Sydney é o autor do artigo "Por que elegemos ex-ditadores e seus filhos?", publicado no Journal of Democracy de abril.
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"Eu uso o termo 'herança autoritária' para descrever o fato simples, mas também um tanto incômodo, de que pode ser vantajoso para partidos sucessores autoritários, ou para os filhos do ex-ditador ou o próprio ex-ditador, ter raízes em uma ditadura sob a democracia", afirma.
Os principais exemplos no Brasil são Getúlio Vargas, eleito em 1950 após instaurar uma ditadura, o Estado Novo, em 1937, e o PFL (Partido da Frente Liberal), um dissidente da Arena (Aliança Renovadora Nacional), sigla que sustentou o regime militar de 1964 e atualmente chamado União Brasil.
Segundo o cientista, a popularidade de Flávio Bolsonaro pode ser uma espécie de novo exemplo desse fenômeno, embora Jair Bolsonaro não tenha sido um ditador. Leia também: Um quinto dos países que se democratizaram reelegeu ditadores ou seus filhos
"Há paralelos claros entre Donald Trump nos Estados Unidos, Bolsonaro no Brasil e esse fenômeno dos ditadores e filhos de ditadores", diz Loxton. "Podemos ver claramente o fenômeno geral da nostalgia autoritária no contexto brasileiro atual."
O senhor afirma que aproximadamente um quinto dos países que se democratizaram após 1970 colocaram ex-ditadores ou filhos de ex-ditadores no poder. O que explica isso? Isso faz parte de um fenômeno maior: o fato de ser muito comum que eleitores, em regimes democráticos, elejam partidos ou candidatos com raízes em ditaduras anteriores. Se olharmos para o Brasil, por exemplo, temos o caso do Getúlio Vargas.
Eu passei minha carreira estudando esses partidos, que chamo de partidos sucessores autoritários, que emergem de uma ditadura e depois elegem políticos em regimes democráticos. Desde meados da década de 1970 até o presente, os eleitores usaram o poder do voto para eleger um partido sucessor autoritário em mais da metade de todas as democracias do mundo. Isso já é bastante surpreendente.
Mas o fenômeno dos filhos de ex-ditadores, ou em alguns casos dos próprios ex-ditadores, como Vargas, é ainda mais dramático. Não podemos dizer que os eleitores não perceberam que o candidato surgiu do antigo regime.
É claro que eles percebem, e esse é, na verdade, o principal apelo. Se você acessar o site de Keiko Fujimori agora e rolar até o final, lerá: "Legado positivo. Feitos que transformaram o Peru". E então uma descrição do regime de Alberto Fujimori: estabilização econômica, pacificação nacional, programas sociais. Os eleitores muitas vezes votam porque têm uma visão positiva daquela antiga ditadura. Mais de politica
Sobre Keiko Fujimori: ela nunca negou o legado do pai, mas, nestas eleições, está mais dedicada a trazer sua memória à tona. Ela começou o dia do primeiro turno, por exemplo, sobre o túmulo dele. Como essas duas dinâmicas —honrar e negar o legado do pai— aparecem nos filhos de ditadores? Acho que eles não podem negar o legado de seus pais. No caso dos partidos sucessores autoritários, alguns deles abraçam o legado, enquanto outros são um pouco mais ambivalentes.
Se olharmos, por exemplo, para o caso do Brasil: o partido que antes era conhecido como PFL, depois se tornou Democratas e agora acho que tem até outro nome [União Brasil], tentou se distanciar do antigo regime militar, mesmo sendo o principal reduto de ex-funcionários do regime.
Mas se você é uma Keiko Fujimori, isso não é viável. Você vai denunciar seu pai ou fingir que não sabe quem é ele? A única opção que lhe resta é abraçar o legado e esperar que, para uma grande parte dos eleitores, isso seja suficiente. Ela já se candidatou à Presidência três vezes e, em todas, chegou ao segundo turno e perdeu por uma margem mínima. Leia também: Zambelli: Fachin diz que STF agiu com 'imparcialidade' e vê com preocupação
Não sabemos o que vai acontecer agora, mas ou ela ganha com 50,1% dos votos ou perde com 49,9%. De qualquer forma, cerca de metade do eleitorado peruano viu a filha de um ex-ditador e pensou: "Ela é a minha candidata. Gosto do que ela representa".
O senhor mencionou a reformulação da imagem do PFL, mas muitas vezes partidos ligados a ditaduras têm algumas vantagens após a democratização do país. Para alguns deles, é melhor abraçar a marca. No caso do PFL, eles tentaram negar seus vínculos com o antigo regime. O fato de terem mudado o nome para Democratas não é sutil.
O que posso dizer é que partidos de direita com raízes em regimes militares na América Latina costumam ter conexões muito fortes com o setor empresarial, o que é útil, especialmente em um país como o Brasil, onde as eleições são tão caras.
Muitas vezes, eles têm redes de pessoas, principalmente em regiões mais pobres, que dependem muito de auxílios, de coisas gratuitas, só para suprir suas necessidades básicas. Essas redes às vezes são construídas sob uma ditadura e, se essa rede for herdada pelo político ou pelo partido, isso pode ser útil.
Costuma-se dizer que a falha do Brasil em punir seus ditadores levou à normalização desse período autoritário. E, normalmente, compara-se o nosso caso com o da Argentina, que conseguiu punir seus ditadores. Essa é uma boa estratégia para tentar impedir que ditadores voltem ao poder? Para ser honesto, sou um pouco cético em relação a esse argumento. Quero deixar claro: acho que ex-ditadores devem ser punidos, mas não acho que isso garanta que eles percam o apoio popular ou algo do tipo.
Raio-X | James Loxton
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