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'Um dos lugares mais inóspitos da Terra': a 'utopia' verde dos anos 1960 que tentou reinventar o mundo

Crédito, Gaviotas Legenda da foto, Nas instalações da Gaviotas, a aprendizagem acontece através de uma abordagem do tipo "traga seu filho para o trabalho", com

'Um dos lugares mais inóspitos da Terra': a 'utopia' verde dos anos 1960 que tentou reinventar o mundo
Crianças de Gaviotas brincando

Crédito, Gaviotas

Legenda da foto, Nas instalações da Gaviotas, a aprendizagem acontece através de uma abordagem do tipo "traga seu filho para o trabalho", com coordenadores de grupo ensinando informalmente às crianças sobre silvicultura, agricultura, energia renovável e biocombustíveis
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    • Author, Sofia Quaglia
    • Role, BBC Future
  • 3 maio 2026, 13:31 -03
    Atualizado Há 25 minutos
  • Tempo de leitura: 12 min

Em meio às vastas, remotas e pouco povoadas planícies do leste da Colômbia, conhecidas como Los Llanos, a cerca de um dia de viagem da capital Bogotá, uma área de 80 km² de floresta exuberante criada pelo homem floresce. Ali, há mais de meio século, uma pequena comunidade autossustentável chamada Gaviotas vem desafiando todas as probabilidades, prosperando em um terreno inóspito com a ajuda de uma série de invenções peculiares e futuristas.

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As tecnologias pioneiras vão de aquecedores solares de água de baixo custo a uma gangorra infantil que também funciona como bomba d'água, passando pelo cultivo de florestas comestíveis e biocombustíveis. Algumas foram inspiradas em métodos tradicionais usados por comunidades indígenas locais, enquanto outras surgiram de experimentações engenhosas e incansáveis com os poucos recursos disponíveis.

Antes consideradas excêntricas e extravagantes, muitas das invenções do vilarejo resistiram ao teste do tempo. Inicialmente desenvolvidas para atender às necessidades muito específicas da comunidade, elas foram reproduzidas com sucesso em outras regiões da Colômbia e além. As filosofias surgidas desses experimentos inspiraram projetos semelhantes e mostraram ao mundo uma outra forma de abordar a sustentabilidade.

Ainda assim, o próprio vilarejo, com sua abordagem idiossincrática de viver em um ambiente hostil, permanece quase único. Leia também: Por que tantas mulheres africanas clareiam a pele?

"Não entendo por que algo tão simples — tão simples que Gaviotas conseguiu realizar em um dos lugares mais difíceis da Terra — não está sendo feito em outros lugares", diz Paolo Lugari, que fundou a comunidade na década de 1960.

À medida que Gaviotas continua a se adaptar a um mundo em transformação, também levanta questões fundamentais. Como manter uma comunidade sustentável em um mundo que muda tão rapidamente? O que a comunidade — e seu ethos — ganha, e o que perde, ao se transformar?

Crianças de Gaviotas brincando perto de uma das invenções ecológicas de Gaviotas

Crédito, Gaviotas

Legenda da foto, Crianças de Gaviotas brincando perto de uma das invenções ecológicas de Gaviotas

Era 1966 quando Paolo Lugari, então um jovem ítalo-colombiano na casa dos 20 anos, vindo de uma família política influente, sobrevoou a região de Los Llanos e foi tomado por uma visão intensa: criar ali um assentamento verdejante e próspero.

Nos anos seguintes à primeira viagem, ele desenvolveu a ideia e reuniu pessoas próximas que ajudariam a construir essa comunidade. Mais de mundo

Finalmente, em 1971, Lugari comprou um terreno na província de Vichada, sob a posse de uma fundação sem fins lucrativos, e um grupo heterogêneo de cerca de 20 pessoas fundou um novo assentamento. Eles o chamaram de Gaviotas — "gaivotas", em espanhol — em homenagem às aves brancas que sobrevoavam o local enquanto erguiam suas novas casas.

Desde o início, eles enfrentaram enormes desafios.

O clima de Los Llanos é notoriamente severo, alternando entre chuvas intensas que inundam a terra e um sol escaldante. Nos anos seguintes à fundação, a região também passou a ser marcada pela violência política, com diferentes grupos armados disputando o controle do território e lucrando com o tráfico de drogas e a produção de coca. Leia também: 'Copacabana coroou Shakira': o que a imprensa internacional disse sobre show no RJ

Mas Lugari reuniu pessoas de diferentes partes de sua vida. Viajou até Bogotá para recrutar cientistas e engenheiros e convenceu jovens pesquisadores a desenvolver suas teses criando projetos de sustentabilidade na savana.

Também se aproximou de comunidades indígenas locais, de perfil nômade, e dos llaneros — agricultores da região — oferecendo-lhes trabalho. E, no fim da década de 1970, a comunidade já havia crescido para mais de 200 habitantes autossuficientes, segundo Lugari.

Viver em 'harmonia' com o lugar

Uma casa energeticamente eficiente, alimentada por energia solar, projetada e construída pela comunidade de Gaviotas, replicada na região de Guajira, na Colômbia

Crédito, Gaviotas

Para construir uma vida nessas condições inóspitas, os habitantes de Gaviotas, incluindo vários engenheiros recém-formados, criaram uma série de soluções ecológicas, de baixo custo e enraizadas no contexto local.

Algumas ideias — como malocas ancestrais e moradias com telhados feitos de espessas folhas de palmeira moriche trançadas, capazes de resistir à chuva e ao sol — vieram das tradições do povo indígena Guahibo, que vivia de forma nômade em Los Llanos muito antes da chegada dos moradores de Gaviotas. Com os Guahibo, os moradores aprenderam a fazer redes e redes de descanso usando as nervuras das folhas de moriche, a extrair um óleo nutritivo do fruto e a fabricar canoas escavando troncos de árvores.

Bombas de água movidas a energia eólica, projetadas e construídas pela comunidade de Gaviotas
Legenda da foto, Bombas de água movidas a energia eólica, projetadas e construídas pela comunidade de Gaviotas
Aquecedores solares projetados em Gaviotas para telhados de um bairro em Bogotá
Legenda da foto, Aquecedores solares projetados em Gaviotas para telhados de um bairro em Bogotá

Combustível de pinheiros e uma floresta comestível

Um morador de Gaviotas planta mudas de pinheiro com uma máquina projetada para minimizar o impacto no solo.
Legenda da foto, Um morador de Gaviotas planta mudas de pinheiro com uma máquina projetada para minimizar o impacto no solo.

'Reinventando o mundo'

A resina de pinheiro ajuda a criar o biocombustível que a Gaviotas exporta.
Legenda da foto, A resina de pinheiro ajuda a criar o biocombustível que Gaviotas exporta

Gaviotas algum dia será replicada?

Uma horta comunitária na capital da Colômbia, Bogotá, plantada utilizando métodos de Gaviotas
Legenda da foto, Uma horta comunitária na capital da Colômbia, Bogotá, plantada utilizando métodos de Gaviotas

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