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Ler matéria →Fifa está indo longe demais com projeto de 'vender a Copa do Mundo'?- Author, Daniel Austin- Role, BBC Sport- Published- Tempo de leitura: 9 min Gianni Infantino chama a ideia de democratização do futebol. Mas o anúncio da Fifa de que a entidade pretende buscar investimentos privados para suas competições de futebol (incluindo a Copa do Mundo), por meio de associados do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, foi recebido com incredulidade e revolta pelos torcedores, políticos e organismos regionais. O grande atrativo, segundo Infantino, são os US$ 40 milhões (cerca de R$ 205 milhões) de financiamento a serem fornecidos para todos os países da Fifa para "desenvolver o esporte", após a finalização do acordo.
Infantino estabeleceu um prazo até 19 de setembro para que as federações nacionais de futebol aceitem seu projeto, que dará acesso ao valor inicial de US$ 20 milhões (cerca de R$ 102,5 milhões). Esta é a medida mais ousada do atual presidente da Fifa em uma década de mandato. Infantino é um administrador que se considera um líder mundial, no mesmo patamar de presidentes e primeiros-ministros.
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Se a Fifa levar o projeto a cabo, ele terá consolidado seu poder a longo prazo e enriquecido seus investidores no processo. Mas por que Infantino sente que seu poder é suficiente para tomar uma decisão tão controversa? E quais seriam as suas consequências?
Como Infantino pode implementar seu plano? E como ele pode ser derrubado? Infantino tem apoio suficiente para que o plano tenha boas probabilidades de seguir adiante.
Desde que foi eleito presidente da Fifa em 2016, ele conquistou apoio generalizado e duradouro de muitos países da África, Ásia e do continente americano, que se beneficiaram financeiramente de diversas políticas gerenciadas por ele. Elas incluem a ampliação da Copa do Mundo para 48 países, o crescimento da receita comercial e de direitos de transmissão supervisionada pela Fifa e um programa que aloca milhões de dólares diretamente para os países membros, todos os anos. Estas medidas concederam a ele uma base de apoio composta de mais da metade dos 211 países membros da Fifa. Leia também: Conmebol se esquiva e pede à Fifa detalhes sobre venda de ações da Copa
As votações na Fifa exigem maioria simples. Se mais da metade votar a favor, o plano de Infantino será aprovado. A proposta será atraente para muitos países, principalmente aqueles mais abaixo na cadeia alimentar do futebol.
Para eles, um aporte de US$ 20 milhões seria mais do que eles ganhariam normalmente ao longo de vários anos. O nível de apoio a Infantino parece ter fortalecido sua visão da presidência da entidade. Recentemente, sua administração tomou decisões sem a votação dos seus membros, como a padronização das pausas de hidratação e do show musical de meia hora na final da Copa do Mundo.
Elas seriam consideradas impensáveis quando Infantino assumiu o cargo, uma década atrás. E o relacionamento próximo entre Trump e Infantino também é de fundamental importância. O fundo de investimentos Thrive Capital, com quem a Fifa está negociando, é comandado por Josh Kushner, cunhado da filha do presidente americano, Ivanka Trump.
A Fifa afirma que Greg Maffei também atua como "importante consultor comercial". Ele é ex-presidente da empresa Liberty Media, proprietária da Fórmula 1, e doador para as campanhas políticas de Trump no passado. A proposta se segue a anos de declaradas tentativas de Infantino de aprofundar os laços, seus e da Fifa, com Donald Trump.
Ele criou um Prêmio da Paz e o concedeu a Trump. Ele abriu um escritório da Fifa na Trump Tower, em Nova York. Ele permitiu que o troféu da Copa do Mundo de Clubes fosse mantido no Escritório Oval, na Casa Branca. Mais de esporte
Ele riu durante o discurso de posse de Trump, no qual o presidente ameaçou os coanfitriões da Copa do Mundo, Canadá e México. E, na semana passada, Infantino reproduziu precisamente a linguagem de Trump, ao publicar uma declaração descrevendo aqueles que criticaram alguns aspectos da organização da Copa do Mundo como tendo sido "consumidos pelo ódio e pelas críticas".
Trabalhar com associados de Trump no projeto permite a Infantino fazer uso do poder gerado pelos laços que ele cultivou com a pessoa mais poderosa do mundo, com a promessa de resultados benéficos para as duas partes. A Fifa manteve discussões sobre a possível busca de investimentos privados de forma unilateral, gerando irritação entre os países e regiões que sentiram que tudo foi feito pelas suas costas. Existe um elemento de risco significativo nesta proposta.
Mas a possibilidade de Infantino ser derrubado por ela é pequena, considerando o forte apoio que ele detém em outras partes do mundo. Quais os benefícios para Infantino e os investidores? Se a proposta for aprovada, a Fifa receberá de imediato um enorme fluxo de dinheiro e a parcela destinada às federações nacionais seria disponibilizada a partir de 1° de janeiro de 2027, segundo uma carta enviada por Infantino para cada país membro da entidade. Leia também: Trump nega conversa com Infantino sobre venda de participação da Copa a empresa
" A decisão de prosseguir ou não com esta proposta pertence inteiramente a vocês", destacou ele. "
Em troca, tudo o que é necessário é a sua confiança. Todo o resto permanece igual. "
O apelo é claro: vote para ajudar a nos deixar mais ricos e também enriqueceremos você. Mas cada Copa do Mundo lucra muito mais que a anterior. O evento provavelmente irá valer muito mais daqui a quatro anos— e quatro anos depois do próximo torneio.
Se a Fifa vender as participações agora, os investidores privados irão se beneficiar desse crescimento nos próximos anos, não apenas a Fifa e o futebol. Em última análise, a Fifa é uma organização sem fins lucrativos, segundo a legislação suíça. Isso significa que, pelo menos teoricamente, seu principal objetivo é manter o futebol a longo prazo, não gerar lucros.
Os grandes vencedores do projeto, sem dúvida, seriam alguns dos menores países do futebol, os investidores privados e Gianni Infantino. " O que sabemos até agora sobre como algumas federações nacionais gastam seu dinheiro levanta muitas dúvidas se o dinheiro chega aos níveis de futebol prometidos pela Fifa", afirma o ex-presidente do comitê de governança da entidade, Miguel Maduro.


