
Crédito, Reuters
- Author, Fergal Keane
- Role, Correspondente especial, BBC News
- Há 6 minutos
- Tempo de leitura: 5 min
Protestos vieram e se foram. Houve uma guerra, seguida de um cessar-fogo. Ainda assim, o regime da República Islâmica do Irã permaneceu.
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Na verdade, segundo os iranianos ouvidos pela BBC News dentro do país, o regime não apenas resistiu como se consolidou. E age em clima de vingança.
Sana e Diako — nomes fictícios — formam um jovem casal que vive em Teerã, capital do Irã. São de classe média, instruídos e defendem o fim de um regime religioso autoritário.
Para contar a história deles, a reportagem omite detalhes que poderiam revelar quem são e como vivem. Isso porque essas informações podem ser usadas pelo regime para rastrear quem ousa falar abertamente com a imprensa estrangeira. Leia também: A guerra comercial por trás das estrelas Michelin: por que a gastronomia se tornou tão obcecada por prêmios
Um jornalista que auxilia a BBC News no Irã encontrou Sana e Diako perto de um parque onde famílias passeavam com seus filhos, aproveitando o período de cessar-fogo.
Diako diz querer acreditar que a vida vai melhorar. "As coisas vão mudar", afirma. "Já mudaram."
Sana ri ao ouvir isso.
"Mudaram?", questiona. "Caiu nas mãos da Guarda Revolucionária. O país está um caos." Sana diz que seus sentimentos mudaram desde que os Estados Unidos e Israel atacaram o Irã.
"No começo, eu não queria que a guerra acontecesse… [Mas], no meio do conflito, enquanto eles miravam em figuras-chave, eu fiquei genuinamente feliz com cada uma das mortes." Mais de mundo
Mas, à medida que a guerra se arrastava, Sana percebeu, assim como a Casa Branca sob o governo Donald Trump, que a morte do líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei, e de outras figuras importantes não levaria a um regime mais disposto a concessões.

Crédito, EPA
É impossível medir o nível de apoio ao regime na sociedade iraniana. Há demonstrações públicas regulares de apoio organizadas por seus simpatizantes. Em contrapartida, manifestações de oposição são proibidas. Leia também: Tensão no Golfo: Irã afirma ataque a navio dos EUA; Washington nega
Fontes confiáveis ouvidas pela BBC News dentro do Irã relataram conversas com ativistas da oposição, advogados de direitos humanos e jornalistas independentes que apontam para um clima de apreensão. Há um temor recorrente: o de que, quando a guerra terminar, o Estado intensifique sua campanha de repressão interna.
Segundo a agência de notícias Human Rights Activists News Agency (Hrana), sediada em Washington D.C., nos EUA, mais de 53 mil pessoas foram presas durante os protestos contra o regime em janeiro, antes do início da guerra. Desde então, acredita-se que muitos outros milhares tenham sido detidos.
O número de execuções de presos políticos atingiu um patamar incomum: 21 pessoas foram enforcadas durante a guerra, sendo o maior número em um período tão curto em mais de 30 anos. Nove dos executados tinham ligação com os protestos de janeiro; dez pessoas foram condenadas por suposta associação a grupos de oposição; e duas, acusadas de espionagem.
Susan — nome fictício — é advogada e atua na defesa de detidos. Segundo ela, as condições nas prisões se tornaram muito mais duras. "Antes da guerra, o tratamento mais severo era reservado a quem liderava os protestos, portava coquetéis molotov ou estava armado. Durante a guerra, essa dureza se intensificou significativamente", diz.
Susan diz querer o fim da guerra, mas está convencida de que pessoas como ela enfrentarão ainda mais pressão. Também teme pelo destino dos detidos. "Acho que, se a guerra acabar, o regime provavelmente vai descontar a raiva da guerra nos prisioneiros. Tenho a sensação de que estamos vivendo no limite."

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