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A mais recente declaração financeira do presidente americano Donald Trump chamou atenção pela escala impressionante: 3.711 operações, quase todas envolvendo ações de empresas americanas, incluindo diversas cujo desempenho pode ser diretamente afetado por decisões do governo federal.
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O volume representa um salto sem precedentes em relação aos registros típicos de Trump, que costumam exibir transações na casa das centenas. Juntos, os negócios constituem o maior nível de atividade no mercado de ações já registrado por um presidente em exercício, alimentando a curiosidade entre investidores pessoas físicas e provocando alertas de críticos sobre possível uso de informação privilegiada.
Uma análise detalhada das transações, combinada com entrevistas com especialistas em investimentos, revela, no entanto, uma atividade tão multifacetada que não comporta interpretações simples. Os padrões identificados são compatíveis com estratégias sobrepostas de gestão de portfólio, frequentemente baseadas em índices e, em grande parte, provavelmente automatizadas.
Esse quadro se alinha à explicação pública da Trump Organization. A empresa afirma que os ativos do presidente são geridos de forma independente por instituições financeiras terceirizadas, que controlam todas as decisões de investimento, incluindo alocação de ativos, operações, rebalanceamento e gestão de carteira. As transações são executadas por meio de “portfólios automatizados baseados em modelos e estratégias de indexação direta”, sem qualquer participação de Trump, seus familiares ou da empresa. Leia também: Fux antecipa voto, e STF tem 2 a 0 para manter prisões de pai e primo de Vorcaro
Na terça-feira, o vice-presidente JD Vance classificou como “absurda” a ideia de que o presidente estaria operando da Casa Branca. Questionados pela Bloomberg News, assessores da Casa Branca redirecionaram os pedidos de comentário à Trump Organization.
“É um problema inerente ao fato de o presidente deter ações de empresas individuais: as pessoas vão presumir que ele fará investimentos que sabe serem lucrativos e que pode influenciar”, afirmou Kedric Payne, conselheiro-geral do Campaign Legal Center, organização que apoia legislação para proibir negociação de ações por membros do Congresso. “Não pode haver nem a aparência de que o presidente está usando sua posição para se beneficiar financeiramente.”
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Críticos de Trump foram rápidos em relacionar transações específicas a ações e declarações públicas do presidente. A senadora democrata de Massachusetts Elizabeth Warren criticou “operações em empresas que o governo Trump influenciou com suas próprias políticas”, citando a compra de US$ 1 milhão em ações da Nvidia antes de o governo autorizar a venda de chips avançados à China. “O que Trump está fazendo deveria ser ilegal”, disse ela em vídeo publicado em seu site.
Pistas fiscais
Mais de 2.000 das operações ocorreram em março, período em que a guerra com o Irã elevou a volatilidade nos mercados. O volume e a abrangência das transações, cobrindo centenas de ativos com muitas negociações de valor relativamente baixo, indicam processos automatizados, e não um gestor tomando milhares de decisões individuais por empresa. Mais de economia
Alguns papéis foram comprados e vendidos mais de uma vez no mesmo dia, o que pode indicar que o registro agrega mais de uma conta. Especialistas também identificaram evidências de venda de ações após desempenho negativo, sugerindo operações com motivação fiscal.
“A colheita de prejuízos fiscais é provavelmente a estratégia de portfólio mais comum entre investidores de alto e altíssimo patrimônio hoje”, disse Samir Vasavada, cofundador da Vise, plataforma de investimentos com cerca de US$ 80 bilhões em ativos que oferece indexação personalizada. “Acreditamos que a atividade de negociação na declaração 278-T do presidente Trump é um exemplo provável de como isso se parece em escala.”
Parte dos dados é compatível com indexação direta, estratégia em que o investidor detém as ações individuais de um índice, em vez de cotas de um fundo que replica o mesmo benchmark, o que permite colher prejuízos vendendo os piores desempenhos enquanto ainda acompanha o índice de referência de forma ampla. Leia também: EUA e Irã estão próximos de estender cessar-fogo por 60 dias, diz jornal
Muitas das operações ocorreram em dias de rebalanceamento de grandes índices. O segundo dia mais movimentado foi 23 de março, coincidindo com o rebalanceamento dos índices S&P 500, 600, 400 e 100, além da inclusão de novas ações em determinados benchmarks do FTSE Russell. Os papéis listados na declaração têm sobreposição de aproximadamente 90% com os componentes do Russell 3000, segundo Vasavada.
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Esse conjunto de fatores pode explicar parte da concentração das operações, não apenas em torno do rebalanceamento de índices, mas também em dias de queda do mercado, que criam oportunidades para a colheita de prejuízos. A declaração registra 155 vendas em 12 de fevereiro e 124 em 18 de março, dias em que o S&P 500 recuou mais de 1%.
“Quando se tem centenas ou milhares de posições individuais e o sistema rastreia perdas para colher todos os dias, o resultado é um grande número de operações”, afirmou Vasavada.
Os dados divulgados são limitados, o que dificulta conclusões definitivas. A declaração exibe apenas faixas de valor amplas, sem tamanhos precisos por operação, sem indicação de lucro ou prejuízo por posição e sem discriminação por conta. Ainda assim, alguns padrões se destacam: tanto em janeiro quanto em fevereiro há um aumento de atividade no dia anterior à divulgação de dados de inflação dos EUA, enquanto em março o volume foi elevado tanto no dia da divulgação quanto no seguinte. Esses movimentos podem ser ajustes de portfólio baseados em calendário ou a atuação de um fundo sensível a taxas e variáveis macroeconômicas, hipótese reforçada por um aumento de atividade antes da reunião do Federal Reserve em março.
Das 3.711 operações registradas, a maioria envolvendo ações americanas, 625 foram classificadas como “não solicitadas”, termo que designa transações não iniciadas pela corretora. Quase todas ocorreram em março, com pico no primeiro pregão após o ataque dos EUA ao Irã, e foram predominantemente compras, com caráter mais avulso do que as demais operações do registro.
Volumes “impressionantes”
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