Após Milei chamar Moraes de 'lixo careca', presidente do STF diz que fala é
Ler matéria →O medo constitui uma etapa importante da experiência religiosa bíblica, mas a revelação cristã procura superá-lo, transformando-o em confiança amorosa. O «temor de Deus» não desaparece; deixa de ser terror diante do castigo e torna-se reverência diante do Mistério que ama. 1– O medo de Deus no Antigo Testamento
O medo, enquanto emoção básica e componente fundamental da experiência humana, permite abordagens muito distintas. Embora universal e indispensável à sobrevivência, é fortemente moldado por fatores sociais, culturais, históricos, políticos e religiosos. Note-se que o medo é uma emoção presente em diferentes formas de vida, aproximando-se de uma reação biológica comum.
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Esse facto aproxima o medo humano do medo animal, entendido como mecanismo fisiológico de defesa. Todavia, nos seres humanos, os medos são múltiplos porque são também fruto da imaginação e, por isso, mais complexos e diferenciados do que no mundo animal. O medo é uma reação biológica primária e adaptativa, essencial à sobrevivência humana.
Ativa-se diante de uma ameaça concreta para desencadear respostas de fuga ou de defesa. Contudo, transforma-se profundamente quando o perigo deixa de ter um rosto definido e passa a habitar o universo das representações, das expectativas e das crenças. Ao analisar o medo na experiência bíblica, surge um dos temas mais delicados da teologia: a conciliação entre o Deus que parece severo, guerreiro e, por vezes, violento em muitos textos do Antigo Testamento e a afirmação central do Novo Testamento de que «Deus é amor» [1 Jo 4,8.16].
Nas religiões antigas, incluindo a religião de Israel nos seus estágios mais remotos, o sagrado era frequentemente experimentado como algo tremendo e assustador. Contudo, a maioria dos biblistas contemporâneos considera que esses textos não devem ser lidos como relatos literais da ação divina, mas como interpretações humanas da história à luz da fé. Israel acreditava que Deus estava presente em tudo o que acontecia, incluindo as guerras e as derrotas. Leia também: Climatempo revela: Chuvas em PE e céu variável no Sudeste afetam milhões
Por isso, atribuía a Deus acontecimentos que hoje seriam interpretados de outra forma. Pode dizer-se que os autores bíblicos compreenderam e descreveram Deus segundo as categorias culturais e religiosas do seu tempo. Daí que seja redutor afirmar simplesmente que «Deus era cruel no Antigo Testamento», interpretação difícil de compatibilizar com a proclamação neotestamentária de que «Deus é amor».
O Deuteronómio representa precisamente uma espiritualidade em que o medo do castigo ainda desempenha uma função pedagógica. Tem muito a dizer tanto sobre aquilo que não deve ser temido como sobre aquilo que merece ser temido. O livro pretende servir de guia para o temor religioso, tanto para o indivíduo como para a comunidade.
A expressão «temer o Senhor» é frequentemente sinónima de «guardar os seus mandamentos». O temor a Deus encontra-se intimamente ligado a outras atitudes fundamentais, como amar [Dt 10,12] e servir [Dt 6,13; 10,12.20]. Enquanto ato de comunicação, o Deuteronómio é particularmente interessante para o estudo do medo coletivo, das suas estratégias retóricas e dos mecanismos de transmissão da memória religiosa.
Trata-se de uma obra literária complexa, formada ao longo de vários séculos. Segundo a sua apresentação narrativa, preserva os discursos que Moisés teria dirigido ao povo às vésperas da entrada na Terra Prometida. Embora fale em nome de Deus, as suas palavras são marcadas pela consciência da própria morte iminente, uma vez que sabe que não acompanhará o povo na posse da terra prometida.
Neste contexto é promulgado um vasto conjunto de leis destinado a organizar uma sociedade sedentária, muito diferente da vida nómada anteriormente vivida por Israel. Importa, contudo, sublinhar a evolução da imagem de Deus ao longo do próprio Antigo Testamento. Se nos textos mais antigos Deus surge frequentemente associado à justiça retributiva, progressivamente aparecem vozes proféticas que revelam um rosto muito diferente. Mais de noticia
O profeta Oseias apresenta Deus como um esposo apaixonado [Os 2,19] e coloca nos seus lábios palavras de extraordinária ternura: «O meu coração comove-se dentro de mim» [Os 11,8]. Isaías, por sua vez, compara Deus a uma mãe incapaz de esquecer o filho que gerou [Is 49,15].
Apesar desta evolução, grande parte da teologia do Deuteronómio assenta numa lógica relativamente clara: quem é fiel é abençoado; quem é infiel é castigado. É aquilo a que os biblistas chamam «teologia da retribuição». Esta visão produz uma consequência psicológica importante: o medo.

O fiel vive na esperança da recompensa, mas também sob a ameaça do castigo. No entanto, a experiência concreta da vida frequentemente contradiz esta lógica. Existem justos que sofrem, crianças inocentes que padecem e perversos que prosperam. Leia também: Brasília ganha destaque após novo desdobramento em brasília amanhece com céu
O Livro de Job nasce precisamente desta crise. O seu tema central é a justiça de Deus e o modo como Ele conduz a história da salvação num mundo onde, misteriosamente, o justo sofre e o mal parece triunfar. Ao integrar diferentes tradições literárias numa mesma obra, o autor procura enfrentar esta questão fundamental.
Entre as várias intervenções redaccionais destaca-se a figura de Eliú, apresentada como um sábio inspirado pelo Espírito de Deus. Eliú está convencido de que Deus possui um desígnio para toda a Criação e para toda a história. A partir dessa convicção, interpreta o sofrimento como lugar de educação, correção e possível crescimento espiritual.
Esta é, porém, a sua interpretação particular, não necessariamente a conclusão definitiva de todo o livro. Muitos leitores ficam impressionados com os capítulos iniciais, onde Deus parece aceitar uma espécie de aposta com Satanás. No entanto, o objetivo do relato é colocar uma questão radical:
poderá existir uma fé que não dependa da recompensa? Continuará o ser humano a acreditar quando perde tudo aquilo que possuía? O verdadeiro tema do livro não é a crueldade divina, mas a gratuidade da fé.
Job não se limita a sofrer. Protesta, acusa, questiona Deus e aproxima-se, por vezes, do limite da blasfémia. Os amigos de Job, representantes da ortodoxia tradicional, insistem em que ele sofre porque pecou.

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