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'Sítio do Picapau Amarelo': O que ver na TV e no streaming na segunda

Saci em desenho em nanquim do escritor Monteiro Lobato - Reprodução / Reprodução José Carlos Sebe Bom Meihy Professor titular aposentado do Departamento de História da

'Sítio do Picapau Amarelo': O que ver na TV e no streaming na segunda

Saci em desenho em nanquim do escritor Monteiro Lobato- Reprodução / Reprodução

José Carlos Sebe Bom Meihy

Professor titular aposentado do Departamento de História da USP, é membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro

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[RESUMO] Nos últimos 15 anos, calorosos debates sobre racismo na obra e nas posições pessoais de Monteiro Lobato emergiram no meio intelectual, envolvendo críticos literários, educadores e militância negra, guiados, quase sempre, por passagens de cartas fora de contexto e cenas isoladas de sua ficção. Para autor do texto a seguir, a contenda polarizada pouco esclarece se não adotar a metodologia de uma pesquisa histórica, com periodização rigorosa das variações de pensamento de Lobato em relação ao eugenismo.

A polêmica sobre as relações de Monteiro Lobato com o eugenismo e o racismo sofre de um problema de origem que raramente é nomeado: ela emergiu publicamente com força apenas em 2011, quando a revista Bravo! publicou cartas inéditas do escritor endereçadas ao médico Arthur Neiva. Instalou-se, desde então, sobretudo no campo da crítica literária e da militância antirracista, com participação marginal dos historiadores.

Essa configuração disciplinar produziu um debate assimétrico. De um lado, especialistas em literatura infantil, como Marisa Lajolo e João Luís Ceccantini, que tenderam a contextualizar as contradições de Lobato sem deixar de reconhecê-las; de outro, críticos e educadores que leram passagens isoladas da obra como prova de um racismo essencial e permanente. Leia também: Guggenheim Abu Dhabi abre portas em dezembro após duas décadas de espera

Escultor à esquerda modela busto em argila sobre cavalete de madeira, enquanto homem de terno observa à direita. Ao fundo, prédio alto visível pela janela.
Escultor faz busto do escritor Monteiro Lobato - Reprodução/Reprodução

O que faltou, e ainda falta, é o que a história poderia dar: uma periodização rigorosa das oscilações de Lobato em relação ao eugenismo, lastreada no conjunto de suas fontes —e não em recortes de cartas ou num único romance de ocasião.

O silenciamento historiográfico que se seguiu ao fim da Segunda Guerra Mundial e ao apagamento motivado pela superação dos horrores do nazismo criou uma armadilha epistêmica.

A historiografia tem destacado que, no caso do Brasil, as maiores polêmicas em torno do eugenismo giraram em torno dos efeitos da miscigenação racial, dividindo o movimento eugênico entre adeptos do racismo científico, como Renato Kehl, Azevedo Amaral e Xavier de Oliveira, e seus oponentes, nomeados "antirracistas", como Edgard Roquette-Pinto e Fróes da Fonseca.

Lobato não era, nesse espectro, nem o caso mais extremo nem o mais brando: era um intelectual comprometido com o desenvolvimentismo nacional que absorveu a gramática eugênica de modo seletivo e instável, oscilando conforme o interlocutor, o gênero textual e o momento histórico. Tratar essa instabilidade como coerência oculta é o principal equívoco analítico do debate atual.

O que a historiografia do eugenismo brasileiro pode oferecer

A historiografia especializada no movimento eugênico brasileiro fornece o enquadramento que o debate sobre Lobato não tem utilizado. O livro "A Hora da Eugenia", da historiadora norte-americana Nancy Stepan, constitui uma importante referência sobre a história do tema no Brasil, não só por seu aspecto pioneiro, mas pelas chaves interpretativas que apresenta, como o conceito de "eugenia latina" —diferentemente da variante norte-americana e alemã, era menos preocupada com medidas radicais de esterilização e mais com saneamento, higiene social e o ambiente. Mais de entretenimento

Essa distinção é fundamental para qualquer leitura historicamente embasada de Lobato. Ele operava, em geral, dentro do registro da eugenia neolamarckiana que Stepan descreve, que apostava na transformação do meio como caminho para o melhoramento da raça.

O Jeca Tatu é o exemplo mais citado dessa postura. A figura do caipira degradado era, para Lobato, produto do abandono do Estado e da doença, não da inferioridade genética inata. Quando o escritor reviu o Jeca —do "parasita da terra" de "Urupês" (1918) ao doente curável das campanhas sanitaristas da década de 1920—, estava operando dentro dessa eugenia positiva e ambientalista, não da eugenia negativa de extermínio.

O problema é que Lobato, sob esse tema, não era consistente e nem continuado. A mesma pena que revisava o Jeca escrevia, em 1921, a carta a Arthur Neiva lamentando a ausência de uma Ku Klux Klan no Brasil, e em 1926 publicava "O Choque das Raças" (rebatizado "O Presidente Negro"), no qual a esterilização em massa dos negros norte-americanos é apresentada como solução eugênica plausível. Leia também: Marvel sempre será uma prioridade, diz Tom Holland, com novo 'Homem-Aranha'

Essas oscilações não se explicam por duplicidade moral, mas pela ausência, em Lobato, de uma teoria racial elaborada e sistemática. Ele absorvia e descartava argumentos eugênicos conforme a utilidade que tinham para seu projeto maior: a modernização produtiva do Brasil. Quando a eugenia servia a esse projeto, ele a invocava; quando não servia, ele a ignorava ou a contradizia.

'O Presidente Negro' como livro de ocasião

É metodologicamente temerário fazer de "O Presidente Negro" o texto central da acusação de racismo a Lobato. Trata-se de um romance de ficção científica distópica escrito com objetivo instrumental explícito: o escritor queria penetrar no mercado editorial norte-americano e achava que uma história ambientada nos Estados Unidos, no ano de 2228, com elementos de fantasia científica, seria o veículo adequado.

Lobato se via como um novo H. G. Wells, mas os temas centrais do livro —a segregação completa entre brancos e negros, a tentativa dos brancos de esterilizar os negros e a influência da eugenia— eram controversos demais para qualquer editora norte-americana se arriscar, o que explica o fracasso da empreitada.

O romance é, portanto, um experimento de adequação ao mercado externo, escrito com cálculo editorial e em registro ficcional apocalítico, o que não elimina sua dimensão ideológica, mas nos obriga a lê-lo com a complexidade que o gênero distópico exige, e não como tratado doutrinário.

Usar "O Presidente Negro" como espelho fiel das convicções de Lobato seria o equivalente metodológico de tomar o "1984" como prova de que seu autor, George Orwell, era totalitário.

A ausência dos historiadores e o domínio dos críticos literários

Tia Nastácia em ilustração de livro do escritor Monteiro Lobato - Reprodução/Reprodução

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O Jeca como fio condutor das oscilações

Ilustração de Jeca Tatu, personagem de Monteiro Lobato - Reprodução/Reprodução

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