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Flavia Lima
São Paulo
Retomada não é a melhor palavra para descrever o que vai acontecer nos próximos meses com as ofertas públicas iniciais de ações na Bolsa (os chamados "IPOs", na sigla em inglês), na avaliação de investidores e de banqueiros, depois que um cenário de incerteza se instalou com a guerra no Irã.
Havia uma expectativa de reação firme no início de 2026, que começou com forte valorização das ações e trazia a promessa de quebra de um jejum de mais de quatro anos sem estreia de empresas na Bolsa —as fintechs Agibank e PicPay chegaram a abrir capital no início do ano, mas lá fora, na Nasdaq. Agora, a perspectiva é que poucos IPOs consigam sair do papel.
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Há muitas empresas aptas para estrear no mercado de ações, mas é tudo uma questão de abertura de janela e a visão hoje é que isso se tornou mais difícil, diz Fernando Kunzel, sócio da JGP Financial Advisory.
"Talvez uma ou outra empresa consiga fazer um IPO, mas muito longe do que o mercado imaginava para este ano. Eu mesmo acho que não sai", diz Kunzel.
Rafael Oliveira, gestor de fundos de ações da Kinea, resume as possibilidades mais imediatas a uma única oferta de ações. Leia também: Trump posta vídeos de bombardeios na Truth e renova ameaça contra o Irã
Segundo ele, Compass, empresa de gás e energia do grupo Cosan, e Aegea, companhia de saneamento, são os dois grandes casos apresentados recentemente pelos bancos aos investidores, como gestoras de fundos e fundos de pensão.
"Desses dois nomes, Compass provavelmente vai sair, é só uma questão de acertar o preço", diz Oliveira. "Mas tem muito pouco na praça rolando. Estou operando com risco baixo. Por que vou me aventurar em um IPO neste momento? Do meu lado, tirando Compass, acho improvável qualquer outro movimento", diz.
Para Pedro Moura, analista de empresas da Reach Capital, há uma questão de tempo a ser levada em conta. "A janela antes da próxima temporada de balanços é de poucas semanas. Se a guerra não se resolver nos próximos dias, acho muito difícil. Aí, o melhor cenário para a retomada dessas ofertas seria maio ou junho", diz.
De olho no cenário político, Ivan Barboza, sócio fundador da gestora Ártica, diz que pode haver espaço no último trimestre do ano, a depender das eleições. "Ano que vem provavelmente será melhor", afirma. Antes disso, diz, uma ou outra operação do setor de infraestrutura pode sair, mesmo que o preço de captação não seja ideal. "O custo do tempo é grande," diz.
Os chamados IPOs, operações que funcionam como uma ponte entre empresas que querem listar suas ações em Bolsa e investidores que buscam novas oportunidades de investimento, não ocorrem desde o fim de 2021, após um recorde naquele ano que, em março, ainda contava com Selic em 2%, o piso histórico. Mais de economia
Puxado pelo bom desempenho do Ibovespa e um fluxo consistente de recursos estrangeiros, 2026 prometia um retorno mais firme das aberturas de capital. Até que a guerra dos EUA contra Irã, a alta dos preços do petróleo e os efeitos disso sobre os custos globais de energia e sobre a inflação brasileira –e consequentemente sobre o ritmo de corte dos juros– começaram a formar, junto com as turbulências esperadas para o ano eleitoral, o grosso das nuvens que hoje pairam sobre os planos de empresas que buscavam estrear na B3.
Historicamente, estrangeiros costumam absorver entre 60% e 70% dos IPOs da Bolsa brasileira. Em apenas três meses, de janeiro a 27 de março, o saldo de investimento estrangeiro na B3 foi de R$ 51 bilhões, volume que só perde, no período mais recente, para os R$ 55,9 bilhões recebidos em todo o ano de 2023.
Esse investidor, porém, não parece ter entrado na Bolsa para ficar cinco, dez anos, mas comprado ações de empresas mais líquidas (Petrobras, Vale), para reduzir a fatia em título americano, diz Daniel Utsch, gestor de renda variável da Nero Capital. "Não é aquele estrangeiro que entende Brasil no detalhe." Leia também: Prédio em risco de queda em Nova York expõe crise de moradia na cidade
Diante da apreensão, Compass é basicamente a única empresa mencionada entre os gestores quando falam em "uma ou outra operação" vinda a mercado.
"É bem estruturada, tem contrato regulado, previsibilidade de resultados e a Comgás [concessão de gás canalizado em São Paulo], algo com crescimento e estabilidade regulatória difíceis de ver em outro ativo de país emergente", diz Moura, da Reach. "É o tipo de ativo irreplicável procurado por investidores globais."
Para ele, há um único ponto de atenção. "Como é para dar liquidez para um acionista [Cosan] e não necessariamente apoiar o plano de crescimento da empresa, o investidor vai exigir um pouco mais de desconto do que talvez a empresa ache justo."
Segundo Oliveira, da Kinea, corretoras e bancos testam um valor de mercado de R$ 22 bilhões a R$ 23 bilhões, enquanto gestoras e fundos pedem algo mais próximo de R$ 20 bilhões, R$ 21 bilhões. "É uma questão de acertar esse ponto. Se sair a R$ 22 bilhões, sai com um razoável desconto [em relação aos pares] e o mercado aceita bem", diz. "Há demanda para Compass, mesmo sendo um IPO grande, de quase R$ 5 bilhões."
Já Aegea, outro nome mencionado na fila de IPOs, é vista com mais restrições. "Se a gente sabe que a empresa precisa de dinheiro e o balanço não é tão saudável, o descompasso entre vendedor e compradores é maior. Aqui eu acho que não tem jogo," diz Oliveira.
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