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Seção Tendências / Debates completa 50 anos como arena de divergências

No dia 4 de abril de 1983, a zona sul de São Paulo viveu um dia de fúria

Seção Tendências / Debates completa 50 anos como arena de divergências

No dia, a zona sul de São Paulo viveu um dia de fúria. Um protesto contra o desemprego no largo 13 de Maio, em Santo Amaro, deu lugar a uma explosão popular, com lojas e supermercados saqueados. Mais de 100 pessoas ficaram feridas, e cerca de 70 foram detidas.

" A dose não deve se repetir", disse o chefe do policiamento da capital paulista. Mas no dia seguinte foi ainda pior.

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Em torno de mil manifestantes tentaram invadir o Palácio dos Bandeirantes, sede do governo estadual. Não conseguiram ocupar o espaço, mas derrubaram parte das grades de proteção. Depredações aconteceram em outras regiões além da zona sul, e um homem morreu, baleado, durante um saque no Jardim São Luis.

O aumento dos tumultos levou a mais de 300 prisões. Franco Montoro, então governador de São Paulo, negociou com os líderes dos protestos e, aos poucos, a situação se tranquilizou. Aqueles dias de cólera tiveram acompanhamento da reportagem da Folha, mas não só.

A indignação popular foi discutida sob os mais diversos ângulos na seção Tendências / Debates, lançada pelo jornal havia quase sete anos. Nascido em, o espaço se consolidava em meio à fervura como uma arena aberta às divergências, uma iniciativa incomum na imprensa brasileira. Nas edições seguintes aos protestos de 1983, Tendências / Debates publicou artigos do então vice-governador, Orestes Quércia, do presidente da Associação Comercial de São Paulo, Guilherme Afif Domingos, e do padre Paul-Eugène Charbonneau. Leia também: Jaques Wagner resiste em se afastar da liderança do governo, mas Lula deve

E ainda do médico do Sindicato dos Metalúrgicos e ex-deputado federal David Lerer, e dos professores da USP José Pastore e Reginaldo Prandi, entre outros. Cada leitor que tirasse suas conclusões a partir dos argumentos desfiados por líderes da política e da economia, além de expoentes da sociedade civil. O pluralismo exposto naquele momento em Tendências / Debates estaria no cerne do Projeto Folha, amadurecido ao longo dos anos 1980.

O parágrafo que abre a seção é praticamente o mesmo meio século depois: " Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal.

Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo". Essa introdução foi escrita por Cláudio Abramo, diretor de Redação naquela época. "

A seção nasceu em meados dos anos 1970, em plena ditadura. Hoje, a convivência de opiniões livres, divergentes e até contraditórias parece algo natural. Naquele contexto, porém, era uma ousadia.

O princípio de ouvir diferentes vozes e expor mais de um lado de cada questão acabou por se espalhar pela imprensa brasileira, tornando-a menos engajada, mais plural e, por consequência, mais independente", afirma Luiz Frias, publisher da Folha. Nestas cinco décadas de existência, Tendências / Debates publicou artigos de todos aqueles que estiveram à frente da Presidência da República no período da redemocratização. No início de outubro de 1992, em meio ao processo de impeachment, Fernando Collor foi afastado das suas funções no Planalto. Mais de politica

No final daquele ano, renunciou. Um ano depois do afastamento, saiu na Folha o texto " Pois É, pra quê?

", em que Collor concluía: " Com a consciência tranquila e a certeza do dever cumprido, aguardo pela justiça dos homens". Em abril de 2019, quando estava preso em Curitiba, Luiz Inácio Lula da Silva escreveu um artigo intitulado "

Por que têm tanto medo do Lula livre? " para o Tendências / Debates. " Leia também: Prêmio Cláudio Weber Abramo recebe inscrições até 17 de julho

Tudo o que quero é que apontem uma prova sequer contra mim", afirmou. Em novembro de 2024, duas semanas antes de ser indiciado pela Polícia Federal por crimes como tentativa de golpe de Estado, Jair Bolsonaro assinou um texto na seção cujo título era "

Aceitem a democracia". Rendeu mais de 500 comentários no site da Folha, a maioria absoluta contrária à publicação. Esses e outros artigos de Tendências / Debates foram reunidos no livro "

A Palavra e o Poder- uma Travessia Crítica por 40 Anos de Democracia Brasileira", lançado no ano passado pela editora Civilização Brasileira. O espaço também tem destacado pontos de vista de líderes do Legislativo e do Judiciário. Ao encerrar seu período de dois anos como presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), o então ministro Luís Roberto Barroso apresentou o balanço das suas iniciativas na seção.

" Considero Tendências / Debates, da Folha, um dos espaços mais importantes da imprensa brasileira, em termos de conteúdo e repercussão. Publicar ali é uma forma qualificada de participação no debate público, aberto tanto para integrantes da sociedade civil quanto para agentes políticos", afirma Barroso, que deixou o STF em outubro do ano passado e retornou à advocacia.

" Eu mesmo, sempre que há algum tema relevante em relação ao qual possa dar alguma contribuição, sou colaborador", complementa. Entre os nomes da sociedade civil a que se refere Barroso, está José Vicente, advogado e reitor da Universidade Zumbi dos Palmares.

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