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A startup de IA Manus, que já foi tratada como um dos grandes casos de ruptura capazes de desafiar o Vale do Silício, virou exemplo de tudo o que pode dar errado para empreendedores chineses. Motivo: as autoridades de Pequim mandaram a Meta desfazer a compra de US$ 2 bilhões da empresa.
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Com um despacho seco, de 54 caracteres, vindo do principal órgão de planejamento do governo, a China deixou claro que está disposta a barrar, a qualquer custo, a transferência de tecnologia sensível para rivais geopolíticos. A medida vem depois de o governo restringir empresas como ByteDance e Moonshot AI de receber capital americano sem aval oficial, além de apertar o cerco a companhias chinesas com estruturas no exterior que planejam abrir capital em Hong Kong.
Na prática, o recado inaugura uma fase bem mais incerta para o setor de IA, que vinha se expandindo em alta velocidade no país. Nos bastidores, o movimento já é intenso: fundadores, financiadores e empresas correm para não virar “a próxima Manus” — a startup criada por chineses que mudou a sede para Cingapura para acessar capital global. Tem empresa revisando portfólio, redesenhando estruturas societárias e até levantando verdadeiros “muros” entre as operações na China e nos EUA.
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“A partir de hoje, ‘o modelo Manus’ está oficialmente morto”, resume Dermot McGrath, fundador da ZenGen Labs, consultoria de Xangai que atende startups de tecnologia. “Times chineses jogaram acima da divisão em IA e produziram uma sequência de unicórnios. Os formuladores de política passaram a ver a manobra da Manus como um roteiro que poderia colocar em risco as joias da coroa do ecossistema de inovação, justamente na tecnologia da década.”
Pequim se incomodou especialmente com duas coisas: a rapidez com que a Meta fechou o negócio e o fato de uma tecnologia de “agentic AI” ter ido parar em uma das gigantes mais valiosas do Vale do Silício.
A reação contra a Manus — que ocorre a poucas semanas de o presidente Xi Jinping se encontrar com Donald Trump — expõe a ambição da China de ultrapassar os EUA em poder tecnológico e econômico. A Meta preferiu não comentar.

Por um tempo, a Manus foi vista como roteiro de sucesso para aspirantes chineses em IA: uma empresa viral criada por três founders locais, que ganhou destaque nos Estados Unidos antes de ser comprada pela Meta. Mas, mesmo com startups como a DeepSeek atraindo capital doméstico, a admiração pela Manus azedou rápido. Fundadores e fundos de venture capital agora precisam redesenhar, do zero, planos de captação e estruturas societárias para se adaptar ao novo ambiente regulatório.
Startups que planejavam seguir o caminho de MiniMax Group e Zhipu rumo à Bolsa de Hong Kong já procuram seus investidores para não ficarem presas em um “limbo de IPO”, dizem fontes ouvidas pela Bloomberg. Pelo menos três casas de investimento discutem com os fundadores se vale a pena desmontar estruturas offshore — os famosos “red-chips”, que até pouco tempo atrás eram quase sinônimo de passo obrigatório rumo a uma listagem. Mais de economia
Segundo essas pessoas, reguladores instruíram empresas de IA e robótica — incluindo a StepFun, rival da DeepSeek — a desfazer essas estruturas para poderem estrear na bolsa da cidade.
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Para empresas com operação tanto na China quanto nos EUA, o caso Manus é ainda mais preocupante. O bilionário Chen Tianqiao, pioneiro dos games online no país, contou à Bloomberg que já implantou protocolos para proibir compartilhamento de informação ou código entre fronteiras, além de reduzir ao mínimo a circulação de gente, dados e ativos entre as bases. Leia também: JPMorgan corta Azzas para neutra e vê cenário desafiador para varejo; veja preferidas

“O episódio da Manus é um enorme aviso para todo empreendedor que opera em mais de um país”, disse Chen. “Com o ambiente regulatório ficando mais complicado em todas as regiões, fundadores, conselheiros e escritórios de advocacia precisam ser muito mais cuidadosos e rigorosos com compliance.”
Entre startups menores, a leitura é que o caminho para crescer globalmente ficou tão estreito que algumas cogitam nascer fora da China — em Cingapura ou no Vale do Silício —, justamente para “diluir” a origem chinesa. A ideia seria manter engenheiros na China apenas como “back office” de baixo custo, para evitar esbarrar em armadilhas regulatórias como a da Manus.
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Tudo isso acontece em meio a tensões geopolíticas em alta. Os EUA vêm desestimulando há anos o capital americano a investir em tecnologia chinesa, principalmente em áreas sensíveis como IA. Mais recentemente, gestores baseados na China passaram a usar estruturas de “fundos paralelos”, permitindo que investidores americanos fiquem expostos a setores menos sensíveis e, ao mesmo tempo, fiquem de fora de áreas proibidas.
A ZhenFund, uma das investidoras da Manus, montou um veículo específico para receber investidores americanos e outro para o resto do mundo em seu novo fundo, que busca levantar cerca de US$ 300 milhões.
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