Revisão da vida toda do INSS acabou? O que acontece agora? Tire dúvidas
Ler matéria →Até outro dia, envelhecer foi tratado como uma etapa da vida resolvida dentro da família. Filhos cuidavam dos pais, irmãos dividiam tarefas e, quando a dependência aparecia, alguém —quase sempre uma mulher— reorganizava a própria rotina para assumir o cuidado. Esse modelo começa a perder sustentação.
A geração que hoje está na faixa dos 45 anos ou mais vai chegar à velhice em um Brasil com mais idosos, menos filhos e uma estrutura familiar menor. Viver mais deixou de ser apenas uma conquista da medicina e passou a colocar uma nova pergunta no centro do planejamento financeiro: quem vai pagar e quem vai cuidar quando a independência para os afazeres do dia a dia diminuir? A conta do cuidado é uma despesa que ainda quase não aparece nos planos de aposentadoria, mas pode consumir uma parcela significativa da renda acumulada ao longo da vida.
Leia no AINotícia: Economia e Política: Decisões do STF, Crises Financeiras e Cenário Internacional
Até 2050, o número de idosos que vão precisar de cuidados de longa duração deve saltar de 5,1 milhões para 17 milhões, segundo projeções do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada). Mantido o modelo atual, cerca de 1 milhão poderá ficar sem assistência, enquanto aproximadamente 2,3 milhões dependerão de cuidadores remunerados. Para Alexandre Kalache, presidente do Centro Internacional de Longevidade Brasil (ILC-Brasil), o país vive uma transformação demográfica sem precedentes.
" O único grupo da população que continua crescendo desde os anos 2000 é o de pessoas com mais de 60 anos, sobretudo acima de 80", afirma. "
O Brasil está envelhecendo antes de ter enriquecido", diz Kalache. O impacto já aparece no orçamento das famílias. Quando um idoso perde a capacidade de realizar sozinho atividades como tomar banho, se alimentar, administrar medicamentos ou circular pela casa, surge uma estrutura de gastos que pode durar anos. Leia também: PIS/Pasep para nascidos em setembro e outubro cai na quarta (15); veja quem
Diferentemente de uma internação hospitalar, o cuidado de longa duração não tem data prevista para acabar e pode envolver cuidador, fisioterapia, fonoaudiologia, medicamentos, suplementos, fraldas, adaptações na residência, além do acompanhamento médico contínuo. Em São Paulo, uma instituição de longa permanência para idosos (ILPI) custa a partir de cerca de R$ 4.000 por mês e pode superar R$ 18 mil nas unidades de alto padrão. Para quem prefere manter o idoso em casa, o custo também pesa.
Em média, cuidadores autônomos em jornadas de 12 horas cobram entre R$ 250 e R$ 350 por plantão. Mensalistas podem receber de R$ 2.800 a R$ 4.500, dependendo da carga horária e da complexidade do atendimento. "
Viver muito custa. E o país não vai dar conta", diz Ana Amélia Camarano, pesquisadora do Ipea especializada em envelhecimento. Segundo ela, o problema é sistêmico e não se diferencia muito de outros países, exceto pelo envelhecimento brasileiro ter ritmo muito mais acelerado.
A França, por exemplo, levou 145 anos para dobrar a proporção de idosos na população (de 10% para 20%), um processo que envolveu cerca de oito gerações. O Brasil está realizando essa mesma transição em apenas 20 anos (entre 2011 e 2030). "
O Brasil avançou na garantia de renda para quem não pode trabalhar, mas deixou para a família a responsabilidade pelo cuidado", afirma a pesquisadora. Hoje, cerca de 3,2 milhões de idosos são cuidados por parentes, enquanto aproximadamente 150 mil vivem em instituições de longa permanência. O poder público subsidia vagas para cerca de 80 mil pessoas. Mais de economia
A demanda por cuidadores já aparece em dados oficiais. Segundo a Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), o número de cuidadores cresceu cerca de 15% entre 2019 e 2023, chegando a aproximadamente 840 mil profissionais. Os dados demográficos mostram que embora tenhamos ganho anos de expectativa de vida na última década, ainda não conseguimos reduzir os anos vividos com incapacidade.
Se não acelerarmos, seremos engolidos pelo 'tsunami prateado'. Para reduzir o impacto financeiro e adiar a dependência, especialistas defendem que o planejamento comece décadas antes da velhice. "
Quando se fala em planejamento financeiro, o foco costuma ser a renda da aposentadoria. O custo dos cuidados quase nunca entra na conta", afirma Carlos Castro, planejador financeiro CFP pela Planejar. Segundo ele, muitas famílias só percebem a dimensão do problema quando a dependência chega. Leia também: Revisão da vida toda do INSS acabou? O que acontece agora? Tire dúvidas
É nesse momento que descobrem que precisarão financiar profissionais e serviços que, em geral, não fazem parte da cobertura dos planos de saúde. O envelhecimento da carteira de beneficiários também preocupa o setor. O número de usuários de planos de saúde com mais de 60 anos cresceu 22,7% entre 2019 e 2025, segundo a Abramge (Associação Brasileira de Planos de Saúde).
A expectativa é de aumento da procura por acompanhamento contínuo, reabilitação e serviços de apoio ao idoso. Mas cuidadores particulares e instituições de longa permanência continuam sendo, em regra, uma responsabilidade das famílias. Alguns estados e municípios, como São Paulo e Belo Horizonte, oferecem programas de atendimento domiciliar, mas Ana Amélia avalia que essas iniciativas funcionam mais como apoio emergencial do que como uma solução de longo prazo.
" Dificilmente o Estado vai conseguir aumentar muito sua participação nos cuidados. O número de pessoas vai crescer muito.
Então os investimentos terão que ser feitos também na família", afirma. Para Castro, o planejamento deveria começar antes da velhice, por volta dos 50 anos. Ele defende a criação de uma reserva financeira específica para o cuidado, considerando não apenas o custo mensal de um idoso dependente, mas também a alta dos gastos com saúde, medicamentos e tratamentos.
Também é preciso olhar para o patrimônio acumulado ao longo da vida. Imóveis, por exemplo, podem se transformar em fonte de recursos em uma fase em que a liquidez passa a ser mais importante do que a preservação do bem. O desafio de custear o cuidado na velhice não é exclusivo do Brasil.
Leia também no AINotícia
- Revisão da vida toda do INSS acabou? O que acontece agora? Tire dúvidasEconomia · agora
- Reprovação a privatização de metrô e trem cresce em São Paulo, diz DatafolhaEconomia · 4h atrás
- Economia e Política: Decisões do STF, Crises Financeiras e Cenário InternacionalEconomia · 4h atrás
- Calendário econômico da semana: inflação e Livro Bege nos EUA são focoEconomia · 4h atrás


