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Quem é Cameron Winter, considerado um dos artistas promissores do rock aos 24

Heitor Frias Manuela Mourão São Paulo A primeira impressão que Cameron Winter deixa não é a de um astro do rock

Quem é Cameron Winter, considerado um dos artistas promissores do rock aos 24
Heitor Frias Manuela Mourão
São Paulo

A primeira impressão que Cameron Winter deixa não é a de um astro do rock. É mais a de um garoto que caiu numa entrevista por acidente. Não há nada de Mick Jagger ali —há mais moletons do que jaquetas de couro.

Ele fala baixo, evita contato visual, parece mastigar as respostas antes de as soltar em frases curtas e murmuradas. Às vezes, ri sozinho. Noutras, devolve um "não sei" e deixa o silêncio crescer. Há algo de brincadeira permanente na maneira como responde —mas nunca fica claro se é um menino tímido, um personagem ou uma grande piada.

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No C6 Fest, em São Paulo, o americano se apresentou sozinho no Auditório Ibirapuera, no final de maio. Sem banda, o cantor de 24 anos levou a apresentação apenas com um piano e um feixe de luz que criava mais sombra do que o iluminava. Foram raros os momentos em que o rosto dele ficou visível.

Pianista sentado ao piano de cauda preto em palco escuro, iluminado por um único holofote que destaca fumaça no ar.
O cantor americano Cameron Winter se apresenta no Auditório Ibirapuera durante o C6 Fest, festival de música realizado no Parque do Ibirapuera, zona sul da cidade. - Adriano Vizoni/Folhapress

A sensação era a de assistir a alguém tocando no próprio quarto, dado que o auditório estava em completo silêncio —exceto pelas fungadas de choro vindas da plateia. Winter se dirigiu a ela só uma vez, com um "obrigado" dito ao fim da apresentação.

Esse desinteresse pela própria imagem parece ser o ingrediente principal do fascínio em torno do menino que foi comparado a Bob Dylan e Leonard Cohen e que encantou Patti Smith, que disse, de repente, ter se sentido otimista com a cena atual da música. Leia também: Entretenimento: Agenda de shows, teatro e novidades musicais em SP

Se sua banda, Geese, desde o lançamento de "3D Country", em 2023, já era vista com grande entusiasmo pela cena alternativa de Nova York, "Heavy Metal", seu primeiro álbum solo, lançado em dezembro do ano seguinte, foi o que faltava para Winter conseguir furar essa bolha cult.

Com um timbre que lembra o drama de Van Morrison e a forma balbuciante de pronunciar as palavras de Alan Wilson, Winter foi recebido com euforia pelo público jovem por ser capaz de criar uma sonoridade que, apesar do verniz sessentista, soa atual.

Talvez justamente por isso, a imprensa estrangeira, no último ano, tem projetado em Winter e sua banda uma expectativa quase messiânica. Rapidamente surgiu o velho clichê de que ele seria "o cara que vai salvar o rock".

Questionado, Winter disse que isso é verdade mesmo. Afirmou ainda "me sigam e vocês ficarão ricos", embora tenha acrescentado que o rock não anda precisando de salvação nenhuma.

A fala veio com o mesmo humor torto que atravessou toda a entrevista. Winter prefere transformar tudo numa espécie de teatro improvisado, em que sinceridade e deboche coexistem. O mesmo tipo de humor é sentido nas letras do cantor. Mais de entretenimento

Em "The Rolling Stones", música que abre o disco solo, Winter se compara ao lendário Brian Jones, retratando de forma mórbida, mas doce, o afogamento do primeiro líder da banda britânica. Para além de Jones, o álbum conta com vários outros personagens.

Entre eles estão assassinos como John Hinckley Junior, criaturas mitológicas como Nausicaä e figuras mais oblíquas como "Nina" e "$0 man". A última dá nome a uma das músicas de Cameron Winter, "$0", que, para muitos, contém a epifania joyciana da obra. É o momento em que ele grita repetidas vezes "God is real", ou Deus é real.

Quando questionado sobre o peso espiritual de suas letras —incomum numa cena contemporânea pouco interessada em Deus—, Winter respondeu que se considera uma pessoa religiosa e, completou, dando risada, "mais do que esses indies pagãos". Leia também: Filme com Angelina Jolie e 'A Dama': o que ver na TV e no streaming nesta

Quando "Heavy Metal" foi lançado, Winter disse à imprensa que fez o álbum com músicos encontrados numa rede de classificados online, que o violoncelista é um metalúrgico de Boston, nos Estados Unidos, e que seu baixista é uma criança de cinco anos.

Ele é tão irreverente quanto um "beatnik" ou um simbolista francês. Dentre as apresentações polêmicas da banda Geese com o novo disco, "Getting Killed", está a do "Saturday Night Live", em janeiro deste ano. O show foi tido pela ala conservadora como uma das piores e mais barulhentas da história do clássico programa.

Apesar de Winter ter composto tanto as músicas de "Heavy Metal" quanto as de "Getting Killed", os discos mostram lados distintos do jovem. O primeiro é esquisito e melancólico, o segundo mais explosivo e frenético. "Não acho que sejam ótimos", diz ele.

Não é assim, porém, que Winter é visto pelos fãs, jovens que atravessaram o ensino médio durante a pandemia, uma geração moldada pela internet e pelo isolamento, que encontrou representação nas letras do artista.

Quando questionado sobre projetos futuros, Winter responde como alguém improvisando uma piada corporativa. "Estou trabalhando em novas oportunidades de negócio, onde tudo depende da atitude dos investidores." Afirma ainda ter músicas novas circulando, mas que se desfaz delas "tão rápido quanto aparecem".

O cantor americano Cameron Winter se apresenta no Auditório Ibirapuera durante o C6 Fest - Adriano Vizoni/Folhapress

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