Ter barba não é higiênico: verdade ou mito?
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Aqui na Terra, a humanidade conseguiu padronizar as horas há mais de um século. Agora, com o retorno das missões tripuladas à Lua, um novo desafio surge: definir que horas são por lá. A questão envolve tecnologia, segurança e uma disputa estratégica entre Estados Unidos e China, as duas maiores potências da exploração espacial na atualidade.
Um exemplo histórico ajuda a entender o problema. Na cidade de Bristol, na Inglaterra, existe um antigo relógio instalado no edifício Corn Exchange com dois ponteiros de minutos. Um marca o horário de Londres e o outro, o de Bristol, que ficava cerca de dez minutos atrasado por causa da diferença na posição do Sol entre as duas cidades.
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Na época, cada município seguia seu próprio horário solar, o que funcionava enquanto as viagens eram lentas. Porém, a expansão das ferrovias tornou essa prática inviável. Em 1840, a companhia Great Western Railway adotou um horário único em toda a sua rede de trens, utilizando como referência o Tempo Médio de Greenwich (GMT). Mesmo assim, algumas cidades resistiram à mudança, e o curioso relógio de Bristol acabou mantendo os dois horários ao mesmo tempo.

Agora, uma situação parecida pode se repetir, mas a cerca de 400 mil km da Terra. Estados Unidos e China ainda não chegaram a um consenso sobre qual sistema de horário deverá ser adotado na Lua. Embora pareça um detalhe técnico, especialistas alertam que a falta de um padrão pode dificultar a comunicação entre satélites, sondas e futuras bases lunares, aumentando até o risco de acidentes.
Como cada potência global entende o horário na Lua
Os Estados Unidos encarregaram a NASA de desenvolver o chamado Tempo Lunar Coordenado (LTC, na sigla em inglês), que serviria como referência para todas as futuras operações lunares americanas. O sistema também seria integrado à LunaNet, uma rede de comunicação e navegação semelhante ao GPS terrestre, planejada para apoiar missões científicas e tripuladas. Leia também: Ter barba não é higiênico: verdade ou mito?
A China, por sua vez, segue um caminho diferente. Seu programa espacial Chang’e já conta com os satélites retransmissores Queqiao-1 e Queqiao-2, que operam ao redor da Lua e fornecem comunicação até mesmo com equipamentos instalados no lado oculto do satélite natural, região onde sinais enviados diretamente da Terra não conseguem chegar.
Esses satélites representam os primeiros passos para a criação de um sistema de posicionamento lunar próprio, semelhante ao GPS. Como qualquer sistema desse tipo depende de relógios extremamente precisos, a definição de um padrão de tempo torna-se essencial. Até o momento, a China não aderiu ao modelo proposto pelos estadunidenses.
Na prática, isso significa que, no futuro, equipamentos desenvolvidos por cada país poderão utilizar referências de tempo diferentes. Caso não exista uma forma eficiente de sincronização, satélites, veículos espaciais e instrumentos científicos poderão enfrentar dificuldades para trocar informações ou operar em conjunto.

A estratégia de poder por trás do controle do tempo
Essa disputa também possui um importante componente econômico e estratégico. Empresas privadas interessadas em participar da futura economia lunar precisam saber quais padrões técnicos serão utilizados antes de investir bilhões de dólares em satélites, sistemas de navegação e equipamentos de exploração. Quem definir primeiro essas regras poderá conquistar vantagem tecnológica e comercial.
Em declaração ao site Space.com, o físico teórico Bijunath Patla, do Instituto Nacional de Padrões e Tecnologia dos Estados Unidos (NIST), disse que padrões únicos reduzem riscos para fabricantes e operadores. Quando diferentes sistemas utilizam referências distintas, aumentam as chances de erros, incompatibilidades e falhas na troca de informações. Mais de tecnologia
Essa preocupação faz sentido porque sistemas de navegação dependem diretamente da medição precisa do tempo. O GPS, por exemplo, calcula posições medindo quanto tempo um sinal de rádio leva para viajar entre satélites e receptores. Um erro de apenas um microssegundo pode provocar desvios de centenas de metros na localização.
Em uma missão espacial, diferenças desse tamanho podem comprometer um pouso ou uma manobra delicada. Por isso, manter todos os relógios perfeitamente sincronizados é uma questão de segurança, especialmente quando astronautas estiverem envolvidos.
O funcionamento desse sistema começa muito antes do sinal chegar ao celular. A hora exibida em computadores e smartphones é baseada em centenas de relógios atômicos espalhados pelo mundo. Esses equipamentos estão entre os instrumentos mais precisos já construídos pela humanidade. Leia também: Hora de renovar seu home office: impressoras em promoção na Amazon
Os relógios atômicos utilizam propriedades naturais dos átomos de césio para medir intervalos de tempo com extrema precisão. Como todos os átomos desse elemento se comportam exatamente da mesma maneira, qualquer relógio desse tipo registra segundos praticamente idênticos aos de outro equipamento semelhante.

Tempo Atômico Internacional
Com o desenvolvimento dos relógios atômicos foi criado o Tempo Atômico Internacional (TAI), base para o atual Tempo Universal Coordenado (UTC), que hoje serve de referência para a sincronização dos relógios em todo o mundo.
Os dados produzidos pelos laboratórios nacionais são enviados ao Bureau Internacional de Pesos e Medidas (BIPM), localizado na França. A instituição combina as medições recebidas e calcula o Tempo Universal Coordenado (UTC), referência usada para sincronizar sistemas de comunicação, satélites e redes de telefonia em praticamente todo o mundo.
Mesmo com toda essa precisão, existe um detalhe importante: o tempo não passa da mesma forma em todos os lugares do Universo. De acordo com a teoria da relatividade, de Albert Einstein, a gravidade influencia a velocidade com que o tempo transcorre.
Quanto maior a gravidade, mais lentamente o tempo passa. Em regiões onde a gravidade é menor, os relógios funcionam ligeiramente mais rápido. Embora essa diferença seja imperceptível para as pessoas, ela é significativa para equipamentos extremamente precisos, como os utilizados na navegação espacial.
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A “briga” está apenas começando
Flavia Correia
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