Quarentena nos mares: como vírus em navios repetem lições medievais Do hantavírus no MV Hondius ao norovírus no Canal da Mancha, surtos em cruzeiros mostram que a quarentena de 600 anos atrás ainda é a melhor resposta Veneza, de tão bela e tão exótica, merece ser chamada de algo que foge ao simples termo “cidade”. E assim o era entre os séculos VII e XVIII, pois era uma das várias Repúblicas Independentes da Itália ainda não unificada. A Sereníssima República, como era apelidada, era um hub econômico importantíssimo, o que a tornava imensamente rica, isto em função da sua estratégica posição como porto para o comércio marítimo — algo como o Estreito de Ormuz hoje em dia.
E seria desastroso para Veneza ter o seu porto bloqueado, tal como é para nós um bloqueio em Ormuz. Seria muito ruim ter uma epidemia local que impedisse a ida e vinda de navios em longas viagens a várias partes do mundo. Que fazer então?
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Deixar os navios à espera antes de desembarcarem pessoas e cargas para ver se alguém ficava doente e, caso isso ocorresse, sem chance de desembarque. Mas aí vem a questão: por quanto tempo esperar? Em 1377, na atual Croácia, este período foi estabelecido como 30 dias, chamado de trentine.
Foi então que Veneza, em 1448, estendeu sua duração para 40 dias, chamado de quarentena (da palavra quaranta). O hantavírus e o navio MV Hondius Em 2026, então, vemos a história repetir-se.
Num navio de cruzeiro de bandeira holandesa, um casal holandês e uma alemã morreram por causa do hantavírus. Olhando de relance, o hantavírus assemelha-se ao coronavírus: possui um envelope cheio de espículas, sendo apenas um pouco menor. No entanto, a diferença está no genoma: ainda que seja feito de RNA como o do coronavírus, ele é segmentado em três partes que se parecem com colares de pérolas. Leia também: Suplementos de cálcio e vitamina D não evitam problemas ósseos, diz estudo com
Durante a intervenção dos Estados Unidos na Guerra da Coreia, iniciada nos anos 1950, soldados americanos colocados perto do rio Hantan começaram a sofrer de insuficiência renal aguda e hemorragias. A causa era desconhecida até que, em 1978, foi publicada a descoberta do agente etiológico, cujo nome é uma duvidosa homenagem ao rio Hantan: hantavírus. Mas não ficaria por aí.
Em 1993, nos EUA, uma síndrome pulmonar — e não renal — acabou por ser relacionada com um outro tipo de hantavírus. Desta vez, para não dar o nome de um lugar ao vírus, este foi batizado de Sin Nombre Virus. Hoje, já são conhecidas 37 espécies de hantavírus, entre as quais o Orthohantavirus andesense (Vírus Andes), envolvido neste surto no navio.
E o que se sabe sobre ele? É a única espécie com capacidade confirmada de se transmitir de pessoa para pessoa por via aérea; as restantes dependem sempre de que a pessoa inale poeiras ou aerossóis com fezes ou urina de roedores, os seus reservatórios naturais. O vírus Andes também tem o seu reservatório natural:
o camundongo silvestre Oligoryzomys longicaudatus, que vive no Chile e na Argentina, onde é chamado de ratón colilargo (rato-de-cauda-longa). Ocorre que foi precisamente na Argentina que se iniciou a viagem do navio MV Hondius, a 1 de abril (e não, não é mentira), mais especificamente em Ushuaia, um local de magnífica geologia que atraiu naturalistas como Charles Darwin. A história mais provável é que uma ou duas pessoas que embarcaram ali tenham entrado em contacto com aerossóis de urina ou fezes daquele roedor, tornando-se os “casos zero”. Mais de saude
Levaram, assim, o vírus para dentro do navio, gerando um total de 11 casos durante a viagem, incluindo as três mortes. Nestas situações, a Organização Mundial de Saúde (OMS) recomenda o monitoramento dos suspeitos e a quarentena — domiciliária ou numa instituição — dos contatos de alto risco durante 42 dias (um pouco mais do que a clássica quarentena de 40 dias) após a última exposição. A quarentena, mais uma vez, resolveu a questão.
Como a eficiência de transmissão (o R0, como chamamos em Epidemiologia) da hantavitose é menor do que um, o surto não se sustenta sozinho. Contudo, há casos de pessoas chamadas de “superdisseminadores “, que transmitem o vírus muito mais do que o esperado.
Norovírus: o passageiro clandestino mais comum Mas há um outro passageiro clandestino muitíssimo mais comum em cruzeiros e cujo aparecimento não causa qualquer surpresa: o norovírus, do qual já tratamos por aqui. O surto mais recente aconteceu num navio no qual 49 pessoas adoeceram com gastroenterite (diarreia e vômitos). O navio partiu do Reino Unido rumo à França, onde, à chegada, passageiros e tripulantes foram quarentenados. Leia também: Além do remédio ganha destaque após novo desdobramento em além do remédio: o
Não é uma infeção letal, mas é muito aguda e, se o paciente não receber hidratação, pode morrer. Por sua vez, a eficiência de transmissão do norovírus é altíssima, podendo chegar a um índice maior do que 7 em ambientes fechados. Este é um vírus que se transmite sobretudo por alimentos ou superfícies contaminadas.
E se fosse ebola? Mas, e se fosse, por exemplo, um surto de ebola num navio? A OMS declarou emergência de saúde pública de âmbito internacional por causa de um surto do vírus em andamento na República Democrática do Congo e em Uganda, onde dezenas de pessoas já morreram.
A taxa de transmissão do ebola não é tão alta, ficando pouco acima de dois, mas o vírus é extremamente letal. Num navio, onde há uma grande população em contato próximo — o cenário ideal para qualquer vírus —, haveria uma transmissão rápida e certamente o estrago seria muito maior. Os navios são um modelo epidemiológico perfeito, que serve de exemplo para eventos de transmissão viral e onde aprendemos que medidas tão antigas como a quarentena continuam a ser de grande ajuda.
Outras situações, como as diversas guerras em andamento pelo mundo, também são eventos que permitem o ressurgimento e a transmissão de diversos patógenos. Mas, enquanto é possível negociar a paz mesmo com as nações mais belicosas, com os vírus não há trégua.
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