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Prisão de artista por esculturas feitas há 15 anos revela novos extremos da censura na China

Crédito, Arquivo pessoal Legenda da foto, Os irmãos chineses Gao Zhen e Gao Qiang (na imagem) ganharam destaque no cenário artístico da China nos anos 1990 e 2000

Prisão de artista por esculturas feitas há 15 anos revela novos extremos da censura na China
Dois homens de boné preto estão ao lado de uma figura de bronze de Jesus Cristo, mantida sob a mira de fuzis por seis figuras, também de bronze, dispostas em semicírculo. Uma sétima figura, atrás delas, também armada, se assemelha a Mao Tsé-tung

Crédito, Arquivo pessoal

Legenda da foto, Os irmãos chineses Gao Zhen e Gao Qiang (na imagem) ganharam destaque no cenário artístico da China nos anos 1990 e 2000, conquistando reconhecimento internacional por obras que satirizavam a política de seu país
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    • Author, Gavin Butler
    • Role, BBC News
  • 21 abril 2026
    Atualizado Há 6 horas
  • Tempo de leitura: 9 min

Jesus Cristo está sob a mira de armas, com as palmas das mãos voltadas para cima, cercado por sete figuras que compõem um pelotão de fuzilamento. Os soldados de bronze são inconfundíveis em sua aparência: representam Mao Tsé-tung (ou Zedong), o ditador já falecido que fundou a República Popular da China e esteve à frente de alguns dos períodos mais traumáticos da história recente do país.

Há décadas, os irmãos chineses Gao Zhen e Gao Qiang ganharam notoriedade com esculturas como essa: obras de arte contemporâneas irreverentes que satirizam o passado e o presente autoritário de seu país de origem.

A obra Execution of Christ (A Execução de Cristo, em tradução literal) foi exibida em 2009. Também naquele ano, Mao's Guilt (A Culpa de Mao) apresentou uma réplica em tamanho real do chamado líder supremo da China, ajoelhado em uma postura de contrição solene.

Mas foi somente 15 anos depois que as obras, que satirizam uma das figuras mais controversas da China, custaram a liberdade de Gao Zhen.

O artista de 69 anos, que se mudou para os Estados Unidos em 2022, foi preso em seu estúdio nos arredores de Pequim, na China, em meados de 2024, enquanto visitava a família. As autoridades apreenderam suas obras de arte e impediram sua mulher e seu filho de sete anos de deixarem o país. Leia também: Morre o ator Ricardo de Pascual, que trabalhou em 'Chaves' e 'Chapolin', aos 85

Em seguida, no mês passado, Gao Zhen enfrentou um julgamento sigiloso sob suspeita de "insultar heróis revolucionários e mártires", uma acusação que pode resultar em até três anos de prisão.

O julgamento teve cobertura limitada na China. A maior parte das reportagens locais focando nas circunstâncias de sua prisão. À época, alguns veículos o descreveram como um "suposto 'artista' que atende a agendas políticas ocidentais por meio de uma pseudoarte que difama e insulta figuras reverenciadas".

Mas, ainda assim, afirmou Gao Qiang, o mais novo dos irmãos, a "mensagem [do julgamento] é clara".

"Mesmo que uma obra tenha sido feita há 15 anos, ela ainda pode ser transformada em crime se o clima político atual mudar", disse Gao Qiang à BBC.

Segundo Qiang, houve "claramente" um endurecimento da reação da China contra o que considera dissidência, abrangendo artes visuais, cinema, música, literatura e conteúdo online, como parte de "um padrão mais amplo de controle crescente". Mais de mundo

O governo chinês não comentou o julgamento.

Mas especialistas em China afirmam que esse padrão revela um Partido Comunista Chinês cada vez mais radical em seu alcance e atuação, policiando seus cidadãos de forma transnacional e retroativa. Leia também: Trump diz que vai estender cessar-fogo com Irã e manter bloqueio no Estreito de Ormuz

Um homem, usando chapéu marrom de palha, óculos escuros, camisa jeans e um cachecol cinza, está sentado em um ambiente interno

Crédito, Arquivo pessoal

Legenda da foto, Gao Zhen foi preso em seu estúdio em meados de 2024

Ian Johnson, jornalista vencedor do Prêmio Pulitzer (o prêmio mais prestigiado do jornalismo mundial) que há décadas cobre práticas repressivas no país, diz que a China está vivendo "provavelmente o período mais sombrio em décadas" para a liberdade de expressão sob o Partido Comunista Chinês.

"Nos 50 anos desde o fim da Revolução Cultural, em 1976, este é o período mais prolongado de repressão que vimos — superando em muito o que ocorreu após o massacre da Praça da Paz Celestial [Tiananmen], em 1989", afirma. "O Partido está hoje menos disposto do que nunca a tolerar críticas a seus líderes."

Outros analistas sugerem que o enfraquecimento de normas democráticas ao redor do mundo levou a China a acreditar que pode intensificar a repressão sem receio de críticas por parte de países que parecem ter abandonado a autoridade moral.

No último dia 15 de abril, o escritório de direitos humanos da Organização das Nações Unidas (ONU) se juntou a um número crescente de entidades internacionais ao pedir a libertação imediata de Gao Zhen, afirmando que o caso "levanta preocupações quanto à aplicação retroativa da lei penal e ao uso de sanções criminais para punir a expressão artística".

Figura sagrada

Três esculturas idênticas, uma prateada, uma vermelha e uma dourada, retratam uma caricatura de Mao Zedong, com seios expostos, boca aberta, nariz alongado e olhos arregalados
Legenda da foto, Uma das obras mais conhecidas dos irmãos Gao é 'Miss Mao', uma releitura surrealista do ex-líder chinês

O longo alcance do Partido

Um homem de cabeça raspada e barba longa preta, usando óculos de armação larga e jaqueta de couro preta, olha para a câmera
Legenda da foto, Badiucao, artista chinês que vive na Austrália, afirma que não se sente mais seguro

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