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Por que (e como) a cultura molda a forma como sentimos dor

Por que (e como) a cultura molda a forma como sentimos dor Valores, classe social e história pessoal influenciam a maneira como percebemos e expressamos o sofrimento Se

Por que (e como) a cultura molda a forma como sentimos dor

Por que (e como) a cultura molda a forma como sentimos dor Valores, classe social e história pessoal influenciam a maneira como percebemos e expressamos o sofrimento Se a dor é aprendida ao longo da vida, se o ambiente onde estamos inseridos, o que pensamos, o que sentimos e a forma como levamos nossa vida influenciam diretamente a nossa relação com a dor, então eu me pergunto: será que a dor pode ser influenciada pela cultura? As relações entre a antropologia, a sociologia e a saúde têm atravessado não apenas as minhas reflexões, mas também a minha prática clínica no tratamento da dor.

Somos bombardeados o tempo inteiro por informações sobre como devemos nos comportar e nos relacionar com o mundo à nossa volta, que, por sinal, anda bem caótico. Frases como “engole esse choro”, “aguenta firme” e “pare de frescura” nos ensinam limites durante a infância; educam-nos e nos condicionam.

Leia no AINotícia: Saúde: Panorama Semanal sobre Hormônios, Dor e Retenção de Líquidos

Dependendo do contexto, porém, deixam de ser apenas limites e podem se transformar em um modo de viver. Se as crenças, os valores, a sociedade, a história e o ambiente influenciam diretamente a forma como o nosso cérebro interpreta a dor, fico pensando o quanto os aspectos culturais podem ser heróis ou vilões das nossas sensações. O que a cultura tem a ver com a dor?

De forma simplista, podemos dizer que “a cultura nada mais é do que um aglomerado de sentidos construídos coletivamente, com força para nos dar um lugar no mundo; é o que nos permite viver uns com os outros. A gente inventa a cultura do mesmo modo que ela nos inventa”.

Essa definição é do antropólogo Michel Alcoforado. Então, a forma como sentimos ou deixamos de sentir dor tem, sim, um tanto de influência da cultura. No livro Antropologia da Dor, David Le Breton aborda diversos estudos socioculturais sobre a percepção da dor pelos indivíduos. Leia também: Saúde: Panorama Semanal sobre Hormônios, Dor e Retenção de Líquidos

Trabalhadores rurais, por exemplo, costumam ter uma relação “espartana” com o corpo e com os desconfortos. A resistência é enaltecida. A cultura entre eles valoriza a capacidade de tolerar o desconforto do trabalho pesado no campo.

O corpo sente-se cansado e forte; a dor é ignorada e resistida, quase sempre. Quem suporta mais é considerado valente e um bom trabalhador. A métrica é baseada na doença que paralisa o trabalhador; aí, sim, busca-se ajuda.

A dor, por sua vez, faz parte da realidade e, portanto, não merece atenção. + Como diferentes classes sociais lidam com a dor Por outro lado, indivíduos das camadas sociais médias e mais privilegiadas estabelecem uma relação diferente com o corpo.

Nesse grupo, existe maior vigilância e um estado constante de atenção aos conselhos da classe médica. Os sintomas são compreendidos como sinais de alerta e um chamado para cuidar, tratar e prevenir o quanto antes. Enquanto isso, a população mais pobre, muitas vezes, foi ensinada a ignorar os sintomas e seguir em frente.

Essa aquisição cultural representa nitidamente a definição que Michel Alcoforado nos oferece sobre cultura. E ela também se reflete na forma como os profissionais de saúde tratam seus pacientes. Não raramente, tende-se a minimizar o sofrimento das pessoas mais pobres, baseando-se na ideia cultural de que “o pobre aguenta mais dor”, de que “está acostumado”. Mais de saude

Já as pessoas das classes sociais mais altas, de modo geral, recebem mais atenção, orientação e incentivos ao cuidado. Olha quanta cultura existe aí, minha gente! Somos moldados o tempo inteiro pela cultura que nos cerca.

Quem nos ensinou a valorizar ou a menosprezar o sofrimento? Quem? Vou fazer outra provocação.

Quando você sente dor e está em um ambiente social cercado por pessoas com quem não tem intimidade, consegue disfarçar o desconforto? Agora imagine a mesma dor em outro ambiente, ao lado de pessoas que podem acolhê-lo. Você deixa a dor se manifestar, chora, grita, pede ajuda e se entrega. Leia também: Chá para retenção de líquido existe? Conheça 5 opções tradicionais

Já viveu isso? Então me responda: não existe um quê de cultura nisso tudo? A dimensão social do sofrimento

Dentro da dimensão social da dor, entendemos que a sociedade, as relações humanas, as políticas públicas e o ambiente em que estamos inseridos influenciam diretamente a nossa percepção da dor. Dois indivíduos da mesma idade, do mesmo gênero, com a mesma intensidade de dor, morando na mesma cidade, mas vivendo em condições sociais diferentes, provavelmente lidarão com essa dor de maneiras completamente distintas. O que quero dizer com tudo isso é que, quando uma pessoa sofre com dor, sua história de vida, sua relação com a dor e seus aspectos culturais moldam tanto o nível de sofrimento quanto a forma como ela será tratada.

Isso também é influência da cultura. Nós nos fragilizamos ou nos fortalecemos a partir das experiências acumuladas ao longo da vida e, principalmente, do ambiente em que fomos, e ainda estamos, inseridos. Muitas vezes, quem sofre com dor é visto como alguém frágil, sem força de vontade ou pouco disposto a melhorar.

Em alguns casos, isso até pode acontecer. O problema, porém, está na falta de conhecimento das pessoas ao redor. +

A dor é subjetiva e individual. Seu cuidado exige um grupo de profissionais capacitados, assim como suas causas, na dor crônica, são multifatoriais. Por isso, o tratamento deve ser multimodal, envolvendo diferentes especialidades da saúde.

Saúde: Panorama Semanal sobre Hormônios, Dor e Retenção de Líquidos
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