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Por que brasileiros estão deixando Portugal em busca de novas oportunidades na

Crédito, Arquivo pessoal Legenda da foto, O brasileiro Paulo Geronimo e sua família Article Information Author, Ruth Costa Role, De Vigo, Espanha para a BBC News Brasil

Por que brasileiros estão deixando Portugal em busca de novas oportunidades na
Paulo e sua família

Crédito, Arquivo pessoal

Legenda da foto, O brasileiro Paulo Geronimo e sua família
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    • Author, Ruth Costa
    • Role, De Vigo, Espanha para a BBC News Brasil
  • Há 3 horas
  • Tempo de leitura: 10 min

O brasileiro Paulo Geronimo espera ser um dos beneficiados pelo processo de regularização extraordinária iniciado em abril, que pretende legalizar a situação de milhares de imigrantes que já vivem na Espanha. Após sete anos em Portugal, ele se mudou para o país vizinho com a família em 2025.

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"Até já tínhamos conseguido regularizar nossa situação em Portugal, mas, nos últimos anos, começamos a sentir um aumento da hostilidade contra brasileiros, com frases como 'volta para a tua terra'. Também fomos atraídos por salários mais altos. E tivemos sorte de nos mudar antes do processo de regularização — o que nos permite ser beneficiados", conta Paulo. Com anos de experiência como motorista de caminhão em Portugal, ele já conseguiu a promessa de um contrato de trabalho na Espanha e está desenvolvendo um app para conectar motoristas e empresas espanholas.

Com um discurso oficial mais positivo em relação à imigração e políticas voltadas a melhorar as condições de vida dos imigrantes, a Espanha tem seguido um caminho diferente não só dos EUA, mas também de vários países europeus — entre eles, Portugal, que hoje abriga a maior comunidade brasileira na Europa (mais de 500 mil pessoas).

Nos últimos meses — e com mais intensidade após o anúncio da regularização extraordinária — multiplicaram-se, em grupos de WhatsApp de brasileiros na Espanha, as dúvidas de conterrâneos que vivem em Portugal sobre como (e se valeria a pena) mudar-se para o país vizinho. Também surgiram novos grupos, alguns com centenas de membros, que compartilham informações práticas sobre a mudança. Leia também: Como suspensão da Ypê pela Anvisa virou tema de disputa política nas redes

O interesse é particularmente forte nas regiões de fronteira, onde, muitas vezes, mudar de país significa, literalmente, atravessar uma ponte. E não vem apenas de imigrantes em situação irregular, mas também de quem já está regularizado. Mônica Rovaris, por exemplo, professora universitária aposentada com dupla cidadania brasileira e italiana, decidiu se mudar do norte de Portugal para a Galícia, no noroeste da Espanha, com o marido e dois filhos.

"Nossa impressão é que Portugal não soube equacionar muito bem o aumento da imigração: há um clima de maior hostilidade e os serviços de atendimento aos imigrantes colapsaram. Meu marido, que é brasileiro, estava há dois anos esperando pela renovação do visto de residência", diz Mônica.

Com base em dados do governo espanhol, o Consulado do Brasil em Madri estima que a comunidade de brasileiros oficialmente residente na Espanha tenha atingido 195 mil pessoas em 2025, contra 156 mil em 2022 — um aumento de cerca de 25% em apenas três anos.

Só no último trimestre, 6,3 mil brasileiros se mudaram para o país, segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE) — um ritmo que, anualizado, poderia ultrapassar 25 mil e indica uma aceleração do movimento migratório. O Consulado também reporta aumento na demanda por serviços consulares, sugerindo crescimento da comunidade.

A regularização extraordinária se aplica apenas a imigrantes que já estavam na Espanha até o final de dezembro de 2025 — ou seja, recém-chegados não serão contemplados. Ainda assim, o interesse crescente pode ser explicado por uma combinação de fatores, que vão desde o endurecimento das regras migratórias em Portugal até a busca por melhores salários e condições de vida. Mais de mundo

Paulo e companheira

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Aperto migratório em Portugal

Em 2025, a coalizão governista de centro-direita que governa Portugal (Aliança Democrática, AD) uniu-se ao partido de direita radical Chega, de forte viés anti-imigração, para aprovar mudanças na Lei de Estrangeiros. Entre outras medidas, a nova legislação elimina a possibilidade de imigrantes solicitarem residência após entrarem no país como turistas e endurece as regras de reagrupamento familiar.

O Parlamento português também aprovou este ano uma nova Lei de Nacionalidade, que amplia de cinco para sete anos o tempo mínimo de residência exigido de brasileiros para o pedido de nacionalidade e elimina a concessão automática a filhos de imigrantes nascidos em Portugal. A lei ainda precisa ser sancionada pelo presidente, o ex-líder socialista António José Seguro, que pode submetê-la ao Tribunal Constitucional. Mas ainda que haja qualquer mudança pontual, a expectativa é de que um endurecimento seja aprovado mais cedo ou mais tarde.

"Até 2024, Portugal tinha um dos sistemas de imigração mais liberais da Europa: quem chegasse e conseguisse trabalho já podia se regularizar e, após cinco anos, obter nacionalidade. Agora, essa porta foi fechada", diz o sociólogo Pedro Góis, da Universidade de Coimbra.

Além das mudanças legais, também há indícios de um aumento das hostilidades contra imigrantes. Dados do Relatório Anual de Segurança Interna (RASI) mostram que, em 2025, foram registrados 449 casos de discriminação e incitação ao ódio e à violência, contra 19 há uma década. Segundo uma pesquisa recente da Fundação Francisco Manuel dos Santos, 51% dos portugueses acreditam que o número de imigrantes brasileiros deveria diminuir.

Relatos de discriminação no cotidiano tornaram-se mais frequentes segundo brasileiros ouvidos pela BBC, e alguns casos de violência têm causado grande comoção na comunidade — como o do menino brasileiro que teve os dedos decepados na escola.

Políticas espanholas

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