← Mundo
Mundo

Por que a africana Ceuta é uma cidade espanhola

Crédito, Domínio público Legenda da foto, Gravura de Ceuta na obra Civitates Orbis Terrarum , de Braun e Hogenberg, feita em 1572 Article Information Author, Edison

Por que a africana Ceuta é uma cidade espanhola
Ilustração de uma cidade portuária fortificada, cercada por muralhas, torres e um castelo sobre uma colina. A baía abriga embarcações à vela, enquanto colinas verdes se estendem ao fundo. Inscrições em latim identificam diferentes pontos da cidade, retratada em um estilo cartográfico típico do Renascimento.

Crédito, Domínio público

Legenda da foto, Gravura de Ceuta na obra Civitates Orbis Terrarum, de Braun e Hogenberg, feita em 1572
Article Information
    • Author, Edison Veiga
    • Role, De Bled (Eslovênia) para BBC News Brasil
  • Published Há 2 horas
  • Tempo de leitura: 7 min

História com fortes contornos de lenda, conta-se que o militar e nobre português Pedro de Meneses (1367-1437) jogava choca quando ouviu o então rei de Portugal, dom João 1º (1357-1433), às voltas com a decisão de quem seria nomeado primeiro governador da recém-conquistada Ceuta.

Leia no AINotícia: Receita Federal Lança e-DBV para Agilizar Declaração de Bens de Viajantes Aéreos

Choca, também chamada de aléu, era um esporte medieval semelhante ao hóquei, em que os jogadores usavam tacos de grossa madeira— o aléu— para empurrar uma bola pequena de madeira, a choca, até um buraco cavado no campo adversário.

Meneses teria se aproximado do rei e, empunhando o taco, dito: "Senhor, este pau basta-me para defender Ceuta de todos os seus inimigos".

Fato é que de setembro de 1415 até 1430 e, depois, de 1434 até a morte, três anos mais tarde, Meneses foi o governador português nessas terras do extremo-norte da África, separadas apenas 14 quilômetros da Península Ibérica. Leia também: Os planos da Amazon e da Apple para inteligência artificial — e as dificuldades

O aléu lendário, com apreço de relíquia, é mantido na Igreja de Santa Maria de África, santuário católico inaugurado há 600 anos na cidade africana.

Mapa

Essa anedota é o ponto de partida que explica o domínio histórico de europeus ibéricos sobre o fragmento setentrional do continente africano. Ceuta é, ao lado de Melilla, enclave espanhol hoje na África.

"São fósseis histórico-políticos da Europa e do expansionismo do grande capital mercantil e industrial, a partir do século 15", afirma o historiador Paulo Henrique Martinez, professor na Universidade Estadual Paulista. "Os pés de gigante no continente africano"

Pés europeus. Que, fincados ali, controlam não só os territórios— mas, como destaca Martinez, "acesso, navegação no mar Mediterrâneo, fluxo de mercadorias e, principalmente, de pessoas 'indesejadas' na margem norte daquele mar".

Ceuta tem uma particularidade: é a única fronteira terrestre entre África e Europa— em tempos de crise migratória, portanto, salta nítida sob os holofotes que escancaram o problema humanitário. Mais de mundo

Além disso, foi a primeira colônia portuguesa dentro do que se convencionou chamar de Grandes Navegações— contexto do qual faz parte a conquista lusitana do território brasileiro. "O simbolismo de Ceuta é marco na cronologia da expansão europeia, pelos navegantes portugueses que conquistaram a localidade, em 1415", afirma Martinez.

Painel em azulejos azuis e brancos retrata uma batalha medieval diante de uma cidade fortificada. Ao centro, um cavaleiro com a bandeira de Portugal lidera o combate, cercado por soldados armados, escadas de cerco, arqueiros e guerreiros caídos no campo de batalha.

Crédito, HombreDHojalata/Wikimedia/Wikicommons

Legenda da foto, A conquista portuguesa de Ceuta representada em azulejos na estação de São Bento, no Porto, em obra do artista Jorge Colaço (1864–1942)

Sucessão de domínios

Com pouco mais de 80 mil habitantes, Ceuta é área com ocupação humana milenar— a primeira civilização a ter assentamentos ali, acredita, tenha sido os fenícios, a partir do século 7 antes da Era Comum. Empreendedores marítimos, eles teriam fundado uma cidadela no local onde hoje fica a catedral cristã.

A cidade foi depois ocupada pelos gregos, pelos púnicos, pelos berberes da Numídia e, mais tarde, pelos berberes da Mauritânia. Sob o comando do imperador Calígula (12-41), provavelmente no ano 40 da Era Comum, Ceuta se tornou parte do Império Romano.

Acredita-se que nesta época ela já tivesse esse nome, ou algo muito parecido. Etimologicamente, a versão mais aceita é de que Ceuta deriva dos termos latinos Septem Fratres, que significam "sete irmãos"— e esta seria a maneira como os romanos haviam batizado os sete montes do entorno. Septem acabaria virando Ceuta. O antigo historiador romano Pomponio Mela, que viveu no 1º século, registrou o termo Septem Fratres para se referir ao relevo dessa região.

Com o declínio de Roma, Ceuta passaria novamente para outras mãos. Em 429, foi conquistada pelos vândalos. No século seguinte, passou a integrar o Império Bizantino Belisário.

Pule content e continue lendo
Espanha mobiliza Exército em Ceuta com entrada de 60 mil migrantes em 24 horas; ao menos 34 morreramHá 3 horas

Santo Antônio

Dezenas de migrantes de boia ou a nado chegam pelo mar e escalam rochas à beira de um cercado
Legenda da foto, Estimativas oficiais apontam que pelo menos 18 pessoas morreram tentando chegar ao território nos últimos dias

Domínio ibérico

Fachada de uma igreja de estilo renascentista, com paredes amarelas e detalhes ornamentais brancos. O edifício é simétrico, com portal central encimado por uma imagem religiosa, duas pequenas varandas laterais, colunas altas e uma cruz no topo da fachada.
Legenda da foto, Igreja de Nossa Senhora da África, em Ceuta

Neocolonialismo

Os planos da Amazon e da Apple para inteligência artificial — e as dificuldades
Mundo

Os planos da Amazon e da Apple para inteligência artificial — e as dificuldades

Ler matéria →

Leia também