← Mundo
Mundo

'Playboy dos pobres' ganha destaque após novo desdobramento em 'playboy

'Playboy dos pobres': os quadrinhos eróticos esquecidos de dois dos maiores poetas do Brasil, Alice Ruiz e Paulo Leminski - Author, Edison Veiga - Role, De

'Playboy dos pobres' ganha destaque após novo desdobramento em 'playboy

'Playboy dos pobres': os quadrinhos eróticos esquecidos de dois dos maiores poetas do Brasil, Alice Ruiz e Paulo Leminski- Author, Edison Veiga- Role, De Bled (Eslovênia) para BBC News Brasil- Published- Tempo de leitura: 9 min A sacanagem era impressa nos anos 1970. Entre as publicações que faziam sucesso no Brasil daquela época, muitas vezes precisando driblar a censura, evitar nus frontais e usar tarjas para cobrir algumas cenas, uma editora paranaense apostava em conteúdo 100% nacional e conseguia um bom sucesso de vendagem.

Era a Grafipar. Os curitibanos Alice Ruiz— hoje com 80 anos— e Paulo Leminski (1944-1989), dois dos maiores poetas de sua geração, participaram dessa empreitada. Entre o fim da década de 1970 e o início da seguinte, eles roteirizaram dezenas de histórias em quadrinhos eróticas para as publicações de baixo preço e altas tiragens da editora.

Leia no AINotícia: Mundo: Panorama da Semana com Copa, Conflitos e Política

Nas tramas escritas por eles, uma camada autoral pode ser vista. As historinhas criadas por Leminski têm seu inconfundível senso de humor e boas pitadas de erudição. Os roteiros de Ruiz transcendem o feminismo— mais do que sexo e celebração do direito da mulher de sentir prazer, seu trabalho promove discussões sobre os papéis de gênero e a importância da autonomia feminina.

Os quadrinhos eróticos são um capítulo pouco conhecido da biografia do casal— que viveu junto de 1968 a 1988. Mas as colaborações feitas a publicações da Grafipar foram uma importante receita financeira para a família Ruiz-Leminski naquele período. Não só.

Havia já uma parceria firmada com a editora paranaense. Obra-prima de Leminski, Catatau, livro lançado em 1975, teve sua primeira edição feita pela Grafipar. No caso de Ruiz, a proximidade com a empresa foi ainda maior. Leia também: Brasil, Messi, Klose e mais: as seleções e jogadores que detêm recordes

Como conta o biógrafo Toninho Vaz no livro Paulo Leminski: O Bandido que Sabia Latim, em 1978 ela deixou de atuar em uma agência de para se dedicar a escrever e editar revistas da Grafipar. "

A gráfica editava uma profusão de pequenas publicações, sendo que uma delas, chamada Peteca, permitia contos eróticos e horóscopos picantes ", escreve.

" Alice passou a escrever ensaios e histórias em quadrinhos." Autor do livro Maria Erótica e o Clamor do Sexo e especialista em histórias em quadrinhos, o jornalista e pesquisador Gonçalo Junior lembra que a Peteca era conhecida como "a Playboy dos pobres"— ou seja, uma versão barata da famosa revista norte-americana que, no Brasil, era publicada pela Editora Abril.

'A revista que tira a roupa dos homens' No prefácio que Ruiz escreveu para Afrodite: Quadrinhos Eróticos, um compilado da produção realizada pelos dois que foi lançada em 2015 pela editora Veneta, ela conta que a Grafipar significava "um presente para escritores, desenhistas, fotógrafos, quadrinistas, enfim, esse tipo de gente que não quer abrir mão do que gosta de fazer e sonha diariamente em sobreviver disso". " De repente, éramos viáveis", celebra.

Ruiz conta que, com exceção de uma revista, a Atenção, todas as demais da editora "tinham o sexo como tempero principal". Era a receita do sucesso. Nesse contexto, surgiu a Eros, publicação dirigida aos homens. Mais de mundo

" Essa, por sua vez, anagramaticamente, gerou a Rose, para a qual fui chamada a coeditar e que tinha um slogan sugestivo: 'a revista que tira a roupa dos homens e informa as mulheres'", escreve Ruiz. Gonçalo Junior conta que a poeta "montou uma redação toda de mulheres" para que a Rose fosse "a primeira revista exclusivamente de sexo voltada às mulheres".

Em seu texto, Ruiz enfatiza que já se via como feminista e colocar o "nu masculino para nossas leitoras" fazia parte do propósito dela e da equipe. Além das fotos, a revista trazia artigos que cumpriam papel de educação sexual— e também de dar ao público satisfação erótica. Ela conta, contudo, que naquele momento "a cereja do bolo" da Grafipar era o núcleo voltado aos quadrinhos— de infanto-juvenis a eróticos.

Foi desse intercâmbio entre as equipes próximas que surgiu a ideia de roteirizar quadrinhos. " Assim, criei meu primeiro roteiro de HQ, em que a personagem adquire vida e, revoltada com seu papel na estória (ou seria história?), mata seu tirano escritor/criador no final", pontua Ruiz. Leia também: Tren de Aragua: como facção venezuelana na mira de Trump age no Norte do Brasil

" Não parei mais, fazia roteiros feministas para a revista Rose e roteiros de terror para os [demais] gibis. "

Para a revista de astrologia Horóscopo de Rose, ela teve a ideia de roteirizar a mitologia grega relacionada aos deuses dos planetas regentes de cada signo. " E, sem esquecermos, sempre erotizados, condição sine qua non da editora", conta ela.

" Eram histórias fantasiosas, leves, eróticas, de nudez", resume Gonçalo Junior. Ele conta que entrevistou Ruiz nos anos 1990 quando fazia pesquisa para seu livro a respeito dos quadrinhos eróticos.

"Ela me contou que o Leminski era vidrado em quadrinhos. Quando criança, ficava de madrugada lendo no corredor de sua casa, com a luz acesa. Adorava as histórias de terror", relembra.

A reportagem procurou a poeta para conversar sobre a incursão no mundo dos gibis eróticos. Por e-mail, ela disse que o mais importante a ser contado sobre essas colaborações já estava escrito no referido prefácio. Grafipar Acrônimo de Gráfica Editora Paraná Cultural, a Grafipar foi fundada na década de 1960 como uma casa publicadora de livros de cunho educativo e cultural, na maior parte deles voltado a interesses paranaenses— guias, almanaques e enciclopédias vendidos porta a porta.

Brasil, Messi, Klose e mais: as seleções e jogadores que detêm recordes
Mundo

Brasil, Messi, Klose e mais: as seleções e jogadores que detêm recordes

Ler matéria →

Leia também