← Economia
Economia

PL do agro avança no Senado e pode aliviar riscos para Banco do Brasil, diz

O texto permite a renegociação de até cerca de R$ 180 bilhões em dívidas rurais, com prazo de pagamento de até 13 anos

PL do agro avança no Senado e pode aliviar riscos para Banco do Brasil, diz
Banco do Brasil (Foto: Lucas Landau/Bloomberg)
Banco do Brasil (Foto: Lucas Landau/Bloomberg)

O Senado aprovou o projeto de lei (PL) 5.122/2023, que cria uma nova linha de crédito subsidiado para o agronegócio, com juros entre 3,5% e 7,5% ao ano, em uma medida que pode beneficiar o Banco do Brasil (BBAS3), mas ainda cercada de incertezas fiscais prudenciais e de implementação, segundo análise do JPMorgan.

O texto permite a renegociação de até cerca de R$ 180 bilhões em dívidas rurais, com prazo de pagamento de até 13 anos. Em relação à versão anterior, o projeto aprovado amplia significativamente o público elegível, incluindo não apenas produtores afetados por eventos climáticos, mas também aqueles impactados por fatores como aumento de custos de insumos e eventos geopolíticos globais.

Leia no AINotícia: Economia: Panorama do Mercado Financeiro e Ações

Além disso, o projeto estende o período de elegibilidade das operações até dezembro de 2025, elimina o teto anterior de R$ 30 bilhões— que agora será definido pelo Executivo— e prevê a criação de um fundo garantidor para o agronegócio (FGAgro), ainda sem detalhes.

Baixe agora!

Para o JPMorgan, o projeto tem um efeito ambíguo– ou misto. Diferentemente de programas anteriores, o risco de crédito permanece com as instituições financeiras, embora a nova linha possa facilitar a rolagem de dívidas.

No caso do Banco do Brasil, que tem forte exposição ao agronegócio, investidores podem reagir positivamente no curto prazo, já que a medida tende a postergar o reconhecimento de problemas de crédito no setor. Leia também: PGR pede rejeição de ações que pedem suspensão imediata da Lei da Dosimetria

Atualmente, cerca de um terço da carteira agro do banco já apresenta algum nível de deterioração. O novo programa pode ampliar o volume de operações renegociadas ou reestruturadas, sem necessariamente resolver as fragilidades subjacentes, segundo o relatório.

O banco também ressalta dúvidas operacionais relevantes, como o impacto da reclassificação dos empréstimos— que deverão ser tratados como novas operações— sobre provisões, capital e métricas de risco.

Escopo maior amplia incerteza

Na avaliação do JPMorgan, a principal mudança do Senado foi a ampliação dos critérios de elegibilidade. O texto deixou de focar apenas em perdas ligadas a eventos climáticos extremos e passou a incluir também impactos negativos associados a eventos geopolíticos internacionais e ao aumento do custo de insumos, entre outros fatores.

Além disso, a nova versão estendeu o universo de contratos elegíveis até dezembro de 2025, ante junho de 2025 na redação anterior, e eliminou o teto legal de R$ 30 bilhões para o programa. Agora, o limite total ficará a cargo do Poder Executivo.

O Senado também aprovou uma emenda para a criação de um fundo garantidor para o agronegócio, mas o JPMorgan afirma que ainda faltam detalhes para entender como esse mecanismo funcionará na prática. Mais de economia

Para o banco, o conjunto das mudanças torna o desenho final do programa mais difícil de mensurar. Em reportagens citadas pelo JPMorgan, o custo fiscal potencial da iniciativa poderia superar R$ 800 bilhões ao longo do tempo, cifra que, se confirmada, tende a elevar a sensibilidade do tema dentro do governo e ampliar o risco de veto parcial, judicialização ou revisão posterior.

Mercado pode reagir bem no curto prazo

Apesar da cautela, o JPMorgan afirma que investidores podem interpretar a tramitação do projeto como positiva para as ações do Banco do Brasil, caso o texto também avance na Câmara. O racional é que a proposta, na prática, adia mais uma vez o reconhecimento pleno das dificuldades na carteira do agronegócio.

O banco lembra que o BB já tem aproximadamente um terço da carteira agro em algum grau de deterioração. Segundo o relatório, a instituição já refinanciou R$ 38 bilhões por meio da MP (Medida Provisória) 1.314. Somados R$ 71 bilhões em empréstimos reestruturados e R$ 63 bilhões em operações prorrogadas, o volume de créditos classificados como problemáticos chega a R$ 172 bilhões. Leia também: PGR pede a Moraes para enviar inquérito da Abin paralela à primeira instância

A leitura do JPMorgan, porém, é que uma nova rodada de refinanciamento pode apenas empurrar o problema à frente, sem necessariamente resolvê-lo. O banco destaca que alongar vencimentos por até 13 anos pode intensificar preocupações com moral hazard (risco moral), ao reforçar a percepção de que programas sucessivos de renegociação tendem a se repetir.

Dúvidas sobre margem, provisão e capital

O JPMorgan lista mais perguntas do que respostas sobre os efeitos práticos da proposta sobre os bancos, em especial sobre o Banco do Brasil.

Uma das principais dúvidas é como os juros subsidiados serão equalizados e qual será o efeito disso sobre a margem financeira do BB. Hoje, a carteira agro da instituição opera com margem líquida de cerca de 4%. Para o JPMorgan, não está claro se o Tesouro compensará integralmente a diferença entre o custo da operação e a taxa final cobrada do produtor, nem se haverá descasamento temporal entre desembolso e reembolso dessa equalização.

Outra incerteza relevante é a disputa por fontes de funding. O projeto menciona recursos do Fundo Social, de fundos constitucionais regionais como FCO, FNE e FNO, além do Funcafé e outras fontes. O problema, segundo o banco, é que esses instrumentos já são usados hoje para financiar novas operações de crédito rural. Direcioná-los para refinanciar dívidas antigas pode reduzir a capacidade de financiar as próximas safras.

Também permanece em aberto o tratamento prudencial dessas operações. O texto aprovado estabelece que os créditos refinanciados deverão ser classificados como novas operações, conforme regulamentação futura do Conselho Monetário Nacional. O JPMorgan afirma que ainda não está claro como isso afetará o enquadramento dos empréstimos nos estágios de risco e, portanto, o nível de provisões exigido.

Projeto volta à Câmara

Tópicos relacionados

  • Mercados
  • Ações
  • Agro
  • Banco do Brasil
  • Jpmorgan Chase & Co.
  • Recomendação neutra
PGR pede rejeição de ações que pedem suspensão imediata da Lei da Dosimetria
Economia

PGR pede rejeição de ações que pedem suspensão imediata da Lei da Dosimetria

Ler matéria →

Leia também